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30
novembro

Algumas notas sobre a paisagem agrícola

Escrito por  Cláudia Ávila Gomes
Publicado em Cláudia Ávila Gomes

No início do povoamento os Açores eram cobertos por densas manchas de vegetação natural. No que diz respeito a este tipo de vegetação Gaspar Frutuoso refere-se do seguinte modo à ilha de São Miguel: “ Estava esta ilha, logo quando se achou, muito cheia de alto, fresco e grosso arvoredo de cedros, louros, ginjas, sanguinho, faias, pau branco e outras sortes de árvores.” Estes recursos foram aproveitados pelos primeiros povoadores e pelas gerações seguintes e a vegetação natural pode encontrar-se hoje especialmente nas áreas protegidas.

O retrocesso civilizacional a que foram sujeitos os primeiros povoadores à chegada ao arquipélago deverá sido compensado pela abundância dos recursos existentes, praticando-se a agricultura, a recoleção, a caça de aves e a pesca. Em cada ilha os primeiros terrenos a ser ocupados foram os que possuíam solos profundos e relativamente planos. Ocorreram os diversos ciclos agrícolas de produtos para exportação: no início ensaiou-se a produção de cana-de-açúcar mas o produto de exportação foi principalmente o trigo; no século XVI eram exportados, para além do trigo, vinho, pastel e outras plantas tintureiras; os séculos XVIII e XIX foram o auge da exportação da laranja; no século XX e XXI a exportação principal tem sido de produtos provenientes da agropecuária, mas começa a refletir-se na necessidade de uma maior versatilidade do sistema agrícola.
Tomando como referência as “Saudades da Terra” de Gaspar Frutuoso, pode inferir-se que os primeiros povoadores apreenderam a especificidade das características climáticas insulares, com uma maior precipitação e humidade relativa do ar do que na maior parte do território continental português. No sentido de se experimentarem as culturas agrícolas mais adequadas a estas características climáticas, e que pudessem alimentar a população, foram introduzidas as culturas da batata (Solanum tuberosum), do milho (Zea mays), da batata-doce (Ipomoea batatas) e do inhame (Colocasia esculenta). Estas quatro culturas, provenientes da América tropical e subtropical, tornaram-se os produtos alimentares de base de uma população açoriana que no aspeto gastronómico passou a encontra-se mais próxima de um novo mundo americano do que do mundo mediterrânico do qual provinham as suas raízes.
Depois do milho, dos tubérculos e do inhame outras culturas vieram, nomeadamente as frutícolas. Frutos que atualmente nos são familiares e com que nos habituámos a conviver são, ainda hoje, desconhecidos da maior parte dos europeus ou considerados exóticos. Pode referir-se, por exemplo, o araçá (Psidium littorale), a goiaba (Psidium guajava), a anona (Annona squamosa), o abacate (Persea americana), diversas espécies de maracujás (Passiflora sp.) e muitos outros que são passiveis de ser cultivados nas nossas ilhas. No campo dos frutos vermelhos, menciona-se a existência neste arquipélago da amora proveniente das silvas (Rubus ulmifolius), da groselha-dos-Açores (Elaeagnus umbellata), tendo sido realizados estudos por investigadores da Universidade dos Açores para a averiguação da possibilidade da valorização como alimento antioxidante da baga proveniente da espécie endémica uva-da-serra (Vacinium cylindraceum), que pertence ao mesmo género do mirtilo (Vacinium myrtillus). Por outro lado, algum isolamento geográfico permitiu preservar variedades de macieiras e de outras árvores de fruto mais tradicionais que entretanto se extinguiram no território continental português. Um olhar para a paisagem agrícola e para a sua evolução permite-nos apreender a diversidade de culturas agrícolas que existiram e existem, ainda hoje, na terra em que vivemos. 

FRUTUOSO, Gaspar Frutuoso - “Saudades da Terra” (década de 1580). Livros III, IV e IV (edição de Instituto Cultural, Ponta Delgada, 1971,1977-1981, 1963).

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