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21
dezembro

Reflexões Crónicas - O Treino do Egoísmo

Escrito por  Tiago Simões Silva
Publicado em Tiago Silva

Vivemos hoje rodeados de tudo e de mais uma ou outra coisa inútil que nos vai preenchendo o tempo e o espírito. Somos bombardeados com ferramentas que prometem resolver todos os problemas da vida e com produtos que pretendem ajudar-nos a passar à frente do vizinho, mais não seja para criar no vizinho a necessidade de comprar uma futilidade igual à nossa. Todos nos dizem o quão importante é ter aquele objecto e o quão barato nos fica, mas ninguém nos diz quanto custa a quem o fez ou a quem viverá neste planeta depois de nós.
As novas gerações, apesar de serem ensinadas sobre a igualdade de género (o masculino, o feminino e os outros todos...) e sobre o horror das metáforas com animais produzidas pela sabedoria popular, são incentivadas a centrarem-se na sua carreira e a serem empreendedoras, mesmo quando ser empreendedor significa apenas conseguir vender a banha da cobra ou conseguir fingir que se tem mais que o vizinho do lado. Ao contrário de gerações anteriores, que por vezes tiveram de aprender a ser egoístas como mecanismo de sobrevivência, a geração actual aprende o egoísmo como parte da sua educação, quase como herança cultural da sociedade contemporânea, que, tendo tudo do essencial, se refugia no acessório para passar o tempo, mesmo quando isso implica esquecer-se de que nem todos chegam ao essencial. Esses ficam esquecidos, porque não foram contemplados na educação para o egoísmo, que nos ensina a fazer caridadezinha quando é conveniente, quando marca pontos para a construção da imagem e do ego de cada um, mas não nos ensina realmente a olhar em redor e a ver quem precisa.
Vivemos hoje na sociedade que vai ao museu e passa mais tempo a partilhar fotografias do que a ver o que efectivamente tem à frente. Que produz e reproduz imagens à velocidade da luz, mas é incapaz de reconhecer o belo que existe em cada momento. Que se indigna com a poluição das grandes fábricas, mas acha que dá muito trabalho reciclar; com a discriminação do outro lado do globo, mas entretém-se a falar da vida do vizinho da frente; com a corrupção dos políticos, mas mete uma cunha quando convém; com a fome e os refugiados, mas não olha para quem dorme na soleira do seu prédio. Vivemos em tempo de egoísmos porque nos é dito desde o berço que temos de estudar e de ganhar muito dinheiro e de ter roupa de marca e um bom carro e uma boa casa (se forem duas, melhor) e um telemóvel e mais a tecnologia e os objectos e as outras coisas todas...; mas ninguém nos explica porque é que isso é importante, porque seria difícil de explicar (ou talvez não tenha explicação).
Somos todos egoístas. Mas o mais grave de se ser em alguma medida egoísta, e de se viver numa sociedade a muitos títulos egoísta, é que somos educados para o egoísmo. Vivemos praticando e treinando o egoísmo quotidiano. O problema está sempre no outro (de preferência num outro longínquo), e podemos cumprir o nosso papel atacando o outro “à distância de um clique”, porque fomos ensinados que os outros são muito egoístas e por isso temos de passar por cima deles para chegar a algum lado, só ninguém nos consegue explicar qual o propósito de lá chegar. E vamo-nos esquecendo que não somos parte da solução, mas sim parte do problema, porque pensamos da mesma forma. Afinal qual o propósito de chegar primeiro e ter mais que o vizinho? Como conseguimos viver bem se chegamos ao pódio ignorando ou esmagando quem está à volta?
Esta é parte de uma reflexão em gaveta há algum tempo, que achei que seria adequada para os tempos de excesso que se vivem normalmente nesta altura do ano.
Fica a reflexão. E um Santo Natal, porque é disso que se trata.



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Em defesa da Língua Portuguesa, o autor deste texto não adopta o "Acordo Ortográfico" de 1990, devido a este ser inconsistente, incoerente e inconstitucional (para além de com-provadamente promover a iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na população em geral).

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