1. Perguntei, há umas semanas, aos meus alunos, por que razão era feriado o dia 8 de dezembro. A resposta que mais ouvi foi: porque era dia das montras.
2. Só quem está distraído e alheado da realidade se pode admirar desta resposta. Ela ilustra exemplarmente a civilização que temos vindo a construir onde o império do consumo se apoderou das pessoas e a religião foi afastada das suas vidas.
3. Numa e noutra dimensão, os sinais abundam. No caso da religião, os últimos censos mostram-nos que a Igreja Católica perdeu, em Portugal, desde 1991, mais de meio milhão de praticantes. Nos Açores, os sinais são também avassaladores. Por exemplo, neste antes profundamente católico arquipélago, em 2017, dos 900 casamentos realizados, só 272 foram católicos, menos de 1/3 dos casamentos registados. Em Santa Maria só 2,5% dos casamentos realizados foram católicos; na Graciosa 3%, no Pico 9% e a maior percentagem foi em S. Jorge (13%). Todas as restantes ilhas apresentam percentagens entre os 10% e os 12,5%, à exceção do Corvo, em que dos 11 casamentos realizados, nenhum foi católico.
Os sintomas de declínio e crise são, portanto, claros e inequívocos. E não precisaríamos destes números. Bastava olharmos para as missas dominicais nas nossas igrejas e tirarmos as necessárias ilações do quase deserto da presença de jovens e de famílias novas e da progressiva diminuição da presença de fiéis.
4. Já há muitos anos que a raiz do fenómeno do afastamento de muitos jovens da religião está identificada: o individualismo crescente; a relativização e a subjetivação da verdade e da liberdade; a sede permanente de emoções e de novas sensações e experiências; a recusa em assumir compromissos estáveis que perdurem no futuro; o endeusamento do consumo e do materialismo; a vertigem da vida que se quer vivida no presente sem pensar no dia seguinte.
Como se não bastasse a forma fácil como estas ideias se espalharam e entranharam na mentalidade das gerações mais novas, a Igreja manteve-se fechada sobre si mesma e alheada das transformações que ocorriam na sociedade, cristalizada em práticas e formas organizativas que não deram resposta aos anseios, dúvidas e aspirações das gerações que agora lhe são completamente indiferentes.
5. Por exemplo, já em 2001, num documento que lançava orientações para uma pastoral juvenil organizada nas Dioceses e Paróquias do País os bispos portugueses defendiam que “é fundamental que o itinerário de fé dos jovens se centre em Jesus Cristo através do anúncio explícito, da participação na vida da comunidade cristã e o testemunho de fé no mundo”. E acrescentavam, referindo-se aos responsáveis da pastoral juvenil, que lhes é pedido “que sejam testemunhos de fé, tenham sentido comunitário, capacidade de diálogo e possuam as competências necessárias”.
O que fizemos nestes domínios foi assim?
6. É verdade que os tempos não são fáceis e que os ventos não sopram de feição. É verdade que não há uma varinha mágica capaz de inverter rapidamente a situação a que se chegou na Igreja dos Açores, e não só.
Mas não posso continuar a ver naufragar os alicerces católicos destas nossas ilhas e fazer de conta que não percebo. Quando muitos dos nossos jovens pensam que o dia 8 de dezembro é feriado por causa do dia das montras, isso, no contexto presente, tem clara relevância. E a conclusão só pode ser uma: falhámos todos - as nossas famílias, os nossos sacerdotes, a nossa Igreja, as nossas comunidades de fiéis, todos falharam, redonda e profundamente, na missão de revelar aos nossos filhos e às novas gerações esse Menino Deus que a cada Natal se nos revela como Luz para as nossas vidas.
Falhámos e ainda não encontrámos o Norte!
30.12.2018