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15
fevereiro

Chega!, de Sónia Sousa ou os malefícios do bullying

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores

Acabo de ler o livro Chega! (Alma Letra, 2018), da autoria de Sónia Sousa, actriz de corpo inteiro, encenadora, formadora nas áreas de teatro e técnica vocal, directora artística, autora de textos cénicos, especialmente destinados a um público infanto-juvenil e com dois livros já publicados: Era uma vez… Mais uma vez (2016) e O Guirilampo (2018). 

Chega! é um livro muito belo, muito cénico e muito gráfico em que a fotografia (de grande qualidade técnica e beleza plástica) de Sónia Medeiros serve e bem os propósitos (didáctico-pedagógicos) da autora que escreve a falar...
Mais do que um livro sobre bullying, Chega! revela o lado humano dos sentimentos, dos afectos, das emoções e dos estados de alma. Ou seja, estamos perante uma história sobre a condição humana, uma narrativa envolvente que reflectindo e questionando os males da nossa sociedade, desperta em nós uma imediata adesão afectiva.
Várias são as personagens que atravessam as páginas de Chega!. Temos duas Marias, mulheres de pescadores, atentíssimas à vida alheia e que, quais outras Penélopes, remendam as redes como se estivessem “a bordar enxovais”.
Como narradora, temos uma mulher que se finge de louca para se libertar e para atingir a lucidez e a clarividência. (“Ninguém vai preso por ser louco. Os loucos não se prendem, internam-se”. (pág. 18). Esta louca que olha e nos olha, observa, da sua janela, as crianças e os adolescentes vítimas do bullying, vítimas do escárnio e da incompreensão dos outros que não entendem a individualidade de cada ser humano, tipificado nos sapatos de verniz (oferta feita pela sua avó) de Carminho, personagem que representa a coragem, o orgulho e a sensibilidade. Todo o livro reflete o mal-estar social que vem diariamente estampado no sensacionalismo dos jornais e das notícias: os drogados, os medicados, os dopados, os presos, os homicidas, os suicidas…
Carminho sofre bullying porque não é como os outros e porque marca a diferença. Os outros estão de tal forma ocupados com os telemóveis, as selfies e o facebook que se esquecem de observar o pôr-do-sol. Em vez disso, andam de auscultadores, desligados do mundo e estupidamente alienados às novas tecnologias…
(A propósito, numa das últimas edições do “New York Times”, vinha publicado um cartoon que mostra um morto que jaz numa casa funerária. A sala está vazia. A esposa do morto, chorosa, vira-se para o agente funerário e diz: “Eu não percebo. O meu marido tinha 5.000 amigos no Facebook e não está cá ninguém”… É no que dão as amizades cibernéticas…).
No fim da narrativa uma epifania acontecerá e poderemos então assistir ao triunfo do amor. Porque este livro é também isso mesmo: uma declaração de amor à vida.
Mas para mudar as coisas, é preciso partir a loiça e dar um murro na mesa. E dizer chega! Chega de bullying e violência. Chega de mais guerras, mais pobreza, mais intolerância e mais injustiça social. Chega de crise financeira e desemprego. Chega de promiscuidades que envolvem o triângulo justiça/política/comunicação social. E, como se não bastassem o aquecimento global e o fundamentalismo islâmico a pairar sobre as nossas cabeças, chega de Trumps, chega de Bolsonaros e outros Maduros…
Uma coisa é certa: a escrita vai continuar a iluminar a vida de Sónia Sousa, ela que, com sensibilidade e imaginação criadora, acredita nos sonhos que transformam o mundo e, por isso, vive sob o signo da utopia.

E por agora chega... 

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