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17
dezembro

O Naufrágio do Navio “Slavonia” Em 1909 (IV)

Escrito por 
Publicado em José Trigueiro

FACTO HISTÓRICO DAS FLORES

(Continuação do jornal de 3 Dezembro 2010 n.º 444)
Álvaro Monteiro de Freitas, em artigo publicado no “Jornal do Ocidente” de 10 de Dezembro de 1991, para o qual também ouviu relatos de pessoas do Lajedo – das quais algumas terão trabalhado na recuperação das pessoas e da carga – conta que foram feitas diversas tentativas pelos navios que lá acorreram para a recuperação do “Slavonia”, e que acabariam por não resultar. Refere ainda que, depois do navio ser dado como perdido, o comandante, Capitão Dunning – que teria uma perna artificial – desembarcou e, a cavalo, na companhia de Francisco José Tomás, do Lajedo, teria ido a Santa Cruz, para mais facilmente contactar telegraficamente a empresa seguradora e, certamente, a Cunard Line.

Recorda-se que o representante da empresa seguradora londrina Lloyd’s, na ilha das Flores – a seguradora do “Slavónia” – era James Mackay, filho do Dr. James Mackay, escocês, que fora o primeiro médico da ilha e que acompanhara o Imperador Napoleão à sua prisão na ilha de Santa Helena. Os habitantes locais cedo constataram a impossibilidade de desencalhar o barco, conforme contava o lajedense José Jorge, dada a forma como o mesmo havia ficado assente sobre uma baixa no fundo, ficando entalado nela.

Refira-se a esse propósito que, nessa ocasião, se encontrava na ilha das Flores o Eng. Briant, que estava em Santa Cruz a montar a telegrafia sem fios ou radiotelegrafia e que terá sido incansável na organização das brigadas de socorro que foram constituídas e que só abandonou o “Slavonia” quando o seu comandante o fez. Esse engenheiro inglês, que também viajou no navio “Funchal” para a Horta, foi nele elogiado pelo seu trabalho na recuperação dos sinistrados.

No jornal “O Telégrafo” de 19 de Junho de 1909, onde constam muitas destas informações, afirma-se ainda que “os passageiros de 3.ª classe, que perderam quase tudo o que possuiam, causavam verdadeiro pezar pelas suas justas lamentações, ao passo que alguns dos touristas diziam que visto não ter havido nenhma morte achavam aquella peripecia curiosa e portanto mais uma novidade inesperada a juntar às muitas que esperam ter na sua viagem”.

4. Conclusão

 Apesar dos esforços da fiscalização da Guarda-Fiscal, agentes dessa corporação viriam a queixar-se de que diversos objectos terão desaparecido enquanto ainda se esperava a recuperação do navio, afirmando que “houve de facto muita pilhagem”.

Por outro lado, também é certo que se contava na ilha que agentes daquela corporação terão preferido que objectos de bordo fossem lançados ao mar do que conduzidos para terra pela população, já depois do navio ter sido dado como perdido. Segundo refere Álvaro Monteiro de Freitas no seu artigo, as “instruções para que tudo o que estivesse a bordo e fosse possível, que fosse lançado ao mar” foram dadas pela companhia seguradora, encarregando-se os homens do Lajedo dessa tarefa, servindo-se, sobretudo, para acesso ao navio, do cabo de vaivém ligado a terra, que fora utilizado para retirar de bordo os passageiros. No Lajedo muita gente falava, com pesar, dos bens lançados ao mar, designadamente, louças e sacos de café.

Alguns dias depois do naufrágio chegava ao local um rebocador equipado com mergulhadores e aparelhos de salvamento para transportar alguma carga para o porto de Lajes das Flores, com vista a embarcá-la em navio próprio para Inglaterra. Na sequência disso, relata a Guarda Fiscal que “consta-se que são consideráveis os roubos que se têm praticado a bordo d’aquelle vapor inclusivamente uma mala de correio que tinha diversas encomendas postaes, desaparecendo no dia 16 do corrente, e outros objectos do vapor taes como louça de prata e cobertores de lã”. Queixa-se ainda o 1.º Cabo José Jacinto Raposo do Amaral, do Posto Fiscal de Santa Cruz, que o pessoal daquela corporação era pouco para o bom desempenho da sua missão. Afirmava ainda que o soldado Lázaro José Rocha, do Posto de Lajes das Flores, que era acusado de ter facilitado os referidos roubos, não sabia organizar o processo do navio naufragado e que no dia do embarque dos passgeiros para Inglaterra (“11 do corrente”) fora “descaminhada d’ali muita coisa devido ao deslexo d’aquelle soldado que ainda que visse consentia que aquella gente roubassem latas de café e de bolachas e conservas”.

Ainda hoje são vários os objectos e as recordações que se encontram em casas de florentinos provenientes do navio “Slavonia”, sem sabermos se obtidos de forma legal ou ilegal. Todavia, há 50 anos atrás, sobretudo no concelho das Lajes, muitas eram as casas onde se viam mobiliários, louças ou talheres com a marca de “Slavonia”, incluindo a de meus avós e as de outros meus familiares e amigos.

                                                                                                      (Continua)

BIBLI: Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilha das Flores: Da redescoberta à actualidade (Subsídios para a sua História)”, (2003, pp. 423 e 445, 2.ª edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; Trigueiro, Norberto, artigo publicado no jornal “Correio da Horta”, Horta, de 22-10-1960; Martins, Félix, artigo no jornal “As Flores”, Santa Cruz das Flores, de 21-06-2001; Freitas, Álvaro Monteiro de, artigo publicado no “Jornal do Ocidente” de Lajes das Flores, de 10-12-1991; Monteiro, Alexandre, “O Naufrágio do Paquete ‘Slavonia’  (Ilha das Flores, 1909)”, (2009), Internet; Correia, Luís Miguel, “Paquetes Portugueses”,  pp. 83 e  215, 1992,  Edições INAPA, de Lisboa; Antunes, 1.ª Sargento Domingos (presumido autor), “Esboço Histórico da Guarda Fiscal das Ilhas das Flores e do Corvo (1885-1985)”;  jornal “O Telégrafo”, de 19-06-1909; jornal “O Faialense” de 27-7-1909; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Retalhos das Flores - Factos Históricos”, 2003, pp. 27-34, Ed. da Câmara Municipal de Lajes das Flores.

 

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