FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU
Na sua terra natal fez a Instrução Primária, tendo tido como professor o picoense Manuel da Silva, que era casado com a prof. Maria do Céu Gomes, natural da freguesia. Mais tarde este casal viveu e leccionou largos anos na cidade da Horta, designadamente ela, que, havia sido das alunas mais brilhantes dos seus cursos. As filhas, que seguiram as profissões dos pais, foram igualmente brilhantes nos seus cursos, enquanto que o filho, José Mário, residente na Horta, foi dedicado funcionário de Finanças nesta cidade.
Até ir para a vida militar, José de Freitas Gomes trabalhou com os irmãos na lavoura dos pais, onde o pai se distinguia por falar, mesmo sozinho, em português e em inglês.
O Serviço Militar foi prestado na ilha Terceira, durante o período moroso e difícil da II Guerra Mundial, onde ele estava quando os ingleses praticamente forçaram a sua entrada na ilha, para assim acabarem com o domínio dos submarinos alemães nos mares dos Açores. Fez parte das tropas que estavam preparadas para atacar os ingleses, por ordens de Salazar, quando estes se aproximavam do Porto Pipas de Angra.
Depois, ainda na década de 1940, após concurso, ingressou nos quadros da Polícia de Segurança Pública como guarda, prestando serviço durante vários anos no Comando da PSP da Horta. Aí estudou em explicadores privados, procurando melhorar a sua instrução e, simultaneamente, os seus conhecimentos policiais, sempre na ânsia de ascender na sua carreira profissional. Assim, na década de 1950, mediante concurso, foi promovido a Sub-Chefe. Face à sua promoção a Sub-Chefe Ajudante, foi colocado na Praia da Vitória, onde permaneceu durante vários anos.
Entretanto, em 27 de Julho de 1944, casara na freguesia da Fazenda, por procuração, com Maria Gonçalves Gomes, que também era natural da sua terra natal, de cujo casamento nasceu a filha, Maria Antónia de Freitas Gomes Martins da Cruz, que se licenciou
Com a sua promoção ao cargo de Chefe de Esquadra, ainda na década de 1950, regressou à cidade da Horta onde viveu até à sua aposentação, a qual viria a ocorrer nos últimos anos de década de 1970. No Comando da Polícia da Horta, para além de ter desempenhado cargo de Chefe de Esquadra, exerceu, em acumulação, durante vários anos, as funções de Comissário. E, em regime de substituição, assumiu também, por várias vezes, o cargo de Comandante da PSP da Horta, lugar que acumulava com dedicação e competência.
Durante o desempenho das funções de chefia, passou por alguns períodos de difíceis actividades policiais, com destaque para o ano de 1961, quando o regime previu que o General Humberto Delgado viesse instalar na Horta um Governo Provisório de oposição a Salazar. Nesse tempo a polícia, assim como as autoridades marítimas da Horta, vigiavam – de noite e de dia – a aproximação à ilha de qualquer navio suspeito, vigilância essa que chegou a ser extensiva aos vigias de baleias nas diversas ilhas do Distrito. Outro momento que exigiu alguma vigilância da PSP da Horta do seu tempo, também ocorrida nos primeiros anos da década de 1960, foi a criação da Casa do Povo dos Cedros, onde os distúrbios ali havidos originaram patrulhas nocturnas dobradas feitas nessa freguesia sem nenhumas consequências especiais. Pelo contrário, foi notória a hospitalidade e simpatia dos cedrenses para com a polícia, que presenteava durante a noite com café e biscoitos.
Outro período que causou à PSP da Horta alguma perturbação verificou-se por ocasião da “Revolução de Abril”, nos anos de 1974 e 1975, com os comunistas por um lado, e com os separatistas pelo outro, a pretenderem dominar, respectivamente, o País e os Açores. Embora a PSP se tenha mantido fora da política, já que logo aderira ao “movimento do MFA” que fez o Golpe de Estado do “25 de Abril” de 1974, aqueles movimentos deram alguma preocupação aos comandos da PSP. Esses momentos da “Revolução” terão sido os mais difíceis para sua chefia, não obstante na ocasião o Comando da PSP da Horta ter estado, essencialmente, sob a responsabilidade de um oficial do Exército, o Capitão e ou Major Manuel Simas, natural das Ribeiras do Pico.
Fora disso, apenas eram dignas de registo as passagens pela Horta de navios, nomeadamente dos ingleses, geralmente causadores de zaragatas, mas talvez menos perturbadoras do que são hoje algumas noitadas.
Salienta-se que houve períodos no terceiro quartel do século XX em que dois florentinos (fazendenses) dominavam a governação e a autoridade policial do Distrito da Horta: o Dr. António de Freitas Pimentel, como Governador Civil, e José de Freitas Gomes, como Comandante da PSP, em regime de substituição.
José Gonçalves Gomes era uma figura simpática e popular, que procurava resolver os problemas policiais sempre consciente que servia uma sociedade – da cidade da Horta ou do Distrito da Horta – onde praticamente todos se conheciam e faziam as suas vidas lado a lado, dia a dia.
Cumprimentando delicadamente todas as pessoas com quem se cruzava, mantinha a simplicidade que trouxera da sua linda ilha das Flores, ilha essa que ele tanto amava e que sempre saudosamente gostava de recordar e visitar. As trampolinas da sua juventude e as tertúlias com os amigos eram por ele narradas com uma saudade indescritível, as quais geralmente o faziam chorar de saudades da terra que o viu nascer.
Faleceu em Mirandela em 2 de Julho de 2001, para onde havia ido com a mulher na década de 1980 depois de se aposentar, a fim de permanecer próximo da filha e dos demais familiares ali residentes.
Ao Chefe Gomes fiquei a dever, para além da sua amizade, a sua influência junto do Comandante para que eu fosse autorizado a prestar serviço como agente sinaleiro de trânsito, a fim de poder trabalhar de dia e estudar de noite. Foi assim que pude concluir o Curso-Geral dos Liceus, frequentando explicadores particulares.
Da última vez que lhe telefonei, já estava envelhecido e doente, sentado em cadeira de rodas por ter amputado as pernas devido a má circulação. Dizia-me, chorando, que nunca devia ter deixado a ilha do Faial, onde tinha amigos e todos o conheciam e respeitavam. Na ocasião, a esposa já tinha falecido e a filha andava com problemas graves de saúde de que veio a falecer prematuramente pouco tempo depois.