FLORENTINO QUE SE DISTINGUIU
Fundador do “Jornal Português” da Califórnia, empresário, editor e jornalista.
Nasceu na freguesia da Fajã Grande, concelho de Lajes das Flores, em 7 de Dezembro de 1870, filho de José Laureano da Silveira e de Maria Claudina da Silveira. Era tio do nosso ilustre poeta e escritor florentino Pedro da Silveira.
Aí fez o exame final do Ensino Primário com a elevada classificação de “distinto”. Surgiu-lhe então na mente a ideia, de certo modo arriscada para sua idade, de ir para o famoso “El Dorado” da Califórnia, por onde o pai já andava atarefado à procura do poderoso metal – o ouro. Esse era um desejo de qualquer jovem da sua e de muitas gerações florentinas
Assim, não tardou muito tempo para que o seu belo sonho se transformasse na estranha mas bela realidade da sua vida – a emigração para a Califórnia. Ao despedir-se de sua mãe e do resto dos familiares e amigos, feriu-lhe o coração juvenil o doloroso espinho da saudade, não obstante saber que brevemente encontraria seu pai, cujos braços o cingiriam alegremente e lhe serviriam de protecção amiga, afável e confiante para a longa e espinhosa vida de emigrante.
No dia 15 de Agosto de 1886 chegou à Califórnia, depois de ter passado pelos habituais imprevistos da tormentosa e longa viagem. Tinha 15 anos de idade. Inicialmente trabalhou
Seguidamente foi ter com o pai, com o qual trabalhou em minas de ouro no Estado de Oregon e no Norte da Califórnia, próximo de Arcata, onde ainda hoje se encontram muitos florentinos. Mas, principalmente porque lá lhe faltavam os meios para se instruir e por não gostar do trabalho de mineiro, voltou a San Francisco, onde trabalhou em diversos serviços e continuou os estudos nas horas vagas. Aí tirou alguns cursos de ciências e artes, adquirindo deste modo uma vasta soma de conhecimentos úteis à sua futura vida profissional.
Visitava com frequência diversas empresas jornalísticas californianas, para nelas ler jornais e revistas portuguesas e americanas, adquirindo assim conhecimentos que lhe viriam a ser muito úteis. Chegou mesmo a trabalhar nessas empresas, nelas obtendo bastantes conhecimentos da arte tipográfica.
Nesse tempo publicavam-se na Califórnia quatro jornais de língua portuguesa: “A União Portuguesa”,
E foi precisamente no semanário “A Liberdade”, fundado em 1900, que Pedro Laureano Claudino da Silveira obteve emprego como tipógrafo e colaborador, meses depois do início da sua publicação.
Por vezes, na ausência do editor, e a pedido deste, redigiu alguns editoriais, os quais mereceram a aprovação e o elogio do excelente titular do cargo, Guilherme S. Glória – o célebre Padre Glória – bem como o bom acolhimento dos numerosos leitores do jornal. Deste modo, “A Liberdade” entrou numa situação económica desafogada e clara, transparecendo-lhe assim um sorridente e compensador futuro de prosperidade.
Mas, em 1902, Pedro Claudino da Silveira fixou-se na cidade do Fresno, onde tinha o irmão António. Aí, em 1903, viria a contrair matrimónio com a jovem Maria V. Nunes, filha de naturais da Fazenda das Lajes das Flores. Em 1905, fez a sua primeira tentativa, como proprietário e editor, na fundação de uma revista – “Portugal-América” – que, por falta de recursos, teve vida efémera.
Depois desse fracasso, o jovem casal fixou-se em Sacramento, onde ambos foram alegremente recebidos pelo casal Glória, proprietários do jornal “A Liberdade”, onde ele voltou a desempenhar as antigas funções. Trabalhou em traduções, nomeadamente na do romance “Jacinta”, e escreveu uma secção humorística do jornal, com o título de “Receitas do Dr. Arengas”, bem como diversos artigos de fundo.
Em 1907, havendo uma vaga importante nos quadros do jornal “A União Portuguesa”, a convite do seu proprietário e director, Manuel de Freitas Trigueiro, o casal mudou-se para a cidade de Oakland. Este emprego, para além de ser mais seguro e com maiores garantias de acesso, exigia maiores desafios e responsabilidades. Passados que foram dez anos, com a prática entretanto obtida, resolveu estabelecer-se por sua conta. Assim, adquiriu, em Janeiro de 1917, o “Arauto”, de Oakland e funda, em 8 de Fevereiro,
Com o “Jornal de Notícias”, depois de adquirir “O Imparcial” e “A Colónia Portuguesa”, em 24 de Junho de 1932 fundiu-os e todos deram lugar ao “Jornal Português” que, em 1 de Julho, anexava o “Amigo dos Católicos” que, por sua vez, havia sido criado em 1888. Assim, o “Jornal Português” assumiu-se como a sua grande obra, já que atingiu uma invulgar expansão junto das comunidades portuguesas espalhadas pelos EUA.
Em 1938, com um extenso e bem elaborado número especial, ilustrado com várias fotografias, o “Jornal Português” comemorava 50 anos de existência – as suas “Bodas de Ouro 1888-
Já afectado pela debilidade da doença e da idade, em 1938, apesar de continuar a dar preciosa colaboração ao jornal, tinha entre mãos um importantíssimo trabalho para a comunidade portuguesa desse tempo, que sempre pretendeu ajudar – a elaboração dum “Dicionário Inglês-Português”. Nessa data, a avaliar pela qualidade do trabalho já realizado, previa-se que a referida obra lançaria o seu autor nas páginas da história luso-americana. Infelizmente, faleceu sem concluir tão importante trabalho.
O seu falecimento ocorreu em 28 de Dezembro de 1944, tendo sido um dos últimos grandes obreiros da fundação da imprensa de língua portuguesa na Califórnia.
Pedro Claudino da Silveira era admirado, elogiado e distinguido pelo seu carácter exemplar, pela sua honradez e pela sua sinceridade para com todos.
Por isso mesmo, a comunidade portuguesa da Califórnia soube aproveitar os seus méritos, quer em associações de interesse social, quer nomeando-o, várias vezes, para a representar em comissões de grande responsabilidade, principalmente nas seguintes:
- Comissão do Dia de Portugal, na Exposição Panamá-Pacífico de 1915;
- Comissão de Recepção dos Oficiais e Marinheiros do Cruzador S. Gabriel;
- Comissão de Recepção do Dr. Bianchi, Ministro de Portugal em Washington.
Do seu casamento nasceram: Eloy Silveira, que durante vários anos foi empregado da Empresa American Trust C.ª, com actividade bancária, de San Francisco; e Marie Jane Silveira, que cursou no Roosevelt High School.
Nos últimos anos da sua vida, por motivos de saúde e por se encontrar ocupado com o trabalho de compilação do Dicionário acima referido, a administração do jornal passou a ser feita pela sua inteligente, talentosa e gentil esposa, que tinha como auxiliar Alberto Correia, que muito se distinguiu na comemoração das Bodas de Ouro do “Jornal Português”.
O “Jornal Português”, que habilmente projectou, há pouco anos, continuava a ser publicado na Califórnia,
Pedro Claudino da Silveira entrou na história, não só pelos êxitos da sua persistente luta pela vida e pela cultura, mas também pelo valor literário dos seus escritos e, sobretudo, pela projecção que conseguiu dar à imprensa portuguesa na Califórnia.
___________________
BIBL: “Jornal Português”, Califórnia, número especial 1888-1938; “Jornal Português”, Califórnia, de 29-9-1977; Jornal “Correio da Horta”, de 15-1-1985; Trigueiro, José Arlindo Armas “Florentinos que se Distinguiram”, (2004), pp. 119-124, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores.