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08
julho

Uma noite de Reis na Fajãzinha, de Ernesto Rebello (1878) (I)

Escrito por 
Publicado em José Trigueiro

HISTÓRIAS DAS FLORES

«Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha - Ilha das Flores», é um dos melhores trabalhos que conhecemos do escritor faialense Ernesto Rebello, quer literariamente, quer como história tradicional brilhantemente imaginada na ilha das Flores,  constante do «ARQUIVO DOS AÇORES», Volume VII, pp. 159-175, (1).

Para facilitar o seu conhecimento generalizado aos leitores, designadamente dos florentinos, vamos sintetizar os principais temas do texto, actualizando o português dos respectivos os excertos, uma vez que o mesmo esta escrito no português arcaico do século XIX. Meio verdadeiro e meio fictício, trata-se de uma excelente trabalho imaginado e romanceado pelo autor. 

            Ernesto de Lacerda de Lavallière Rebello, nasceu em Lisboa a 26-4-1842 e morreu na Horta em 15-11-1890. Era filho de Francisco Peixoto de Lacerda Costa, advogado, natural do Faial, e de Maria Elisa Nunes de Lavallière, natural da Guiana Francesa. É considerado um dos mais distintos escritores faialenses, quer em prosas, quer em poemas, tendo deixado o seu nome a várias instituições de cultura, nomeadamente ao Grémio Literário Artista Faialense, ao Grémio Literário Micaelense e ao Grémio Literário de Angra do Heroísmo. Deixou vasta obra literária, em livros, jornais e notas açorianas diversas (2).  

            Deste modo, é com base naquele trabalho que procurarei sintetizar aquele texto, dado o interesse que o mesmo tem para os florentinos. Não por se tratar de factos históricos integralmente verdadeiros, mas de factos habilmente imaginados pelo autor que, efectivamente, se poderiam ter passado naquele tempo na ilha das Flores. Assim, tentarei não desvirtuar o realismo excelentemente e imaginativo que o autor deu ao texto da deslocação da filarmónica de Santa Cruz das Flores à freguesia da Fajã Grande.

Ernesto Rebello começou por descrever o cuidado que os músicos da filarmónica da vila de Santa Cruz das Flores tiveram em limpar os metais e os pistões do respectivo instrumental. Refere que o acontecimento se terá verificado aí por volta de 1878, logo, segundo os meus cálculos, na vigência da “Filarmónica Amizade” que terá sido fundada em 1875 (3). E, embora os músicos fossem apenas 12, de vinte a vinte e cinco primaveras, a preparação da sua saída para a Fajã Grande, onde a filarmónica ia exibir-se nas Festas dos Reis, revestiu-se de grande e importante azáfama, com a junção das cavalgaduras que os iam transportar, e, sobretudo, com a aglomeração de pessoas que quiseram estar presentes à sua saída: namoradas, familiares e pequenada que os acompanharam pelas ruas da vila. Depois das despedidas das «formosas» florentinas, «os velhos desdenhando» […] «gabavam muito o seu tempo», enquanto que os novos que «não podiam acompanhar» os músicos «os olhavam invejosos» e «em que as meninas choravam  nas adufas» das janelas, os cães ladravam a todo aquele burburinho (4). Ao atravessarem a vila, ouviam-se «as risadas dos alegres excursionistas, os adeuses das namoradas, a vozearia dos gaiatos, os latidos dos cães e os sorrisos dos velhos relembrando-se do seu tempo e das suas turbulentas africanadas».

Para os sítios em que a filarmónica seguia, no interior dos matos da ilha, o caminho era em parte de estrada mas, como haviam saído já tarde, previa-se que só com grandes diligências  poderiam chegar ao seu destino antes da noite fechada.

Refere o autor que «os matos da ilha das Flores são formosíssimos, o tempo estava sereno, verdejantes colinas e algumas planícies, de prazenteiro aspecto, apesar da estação invernosa, tornavam muito aprazíveis aqueles sítios, com sete caldeiras, mais ou menos profundas, dispersas aqui e além […] extasiavam a vista com o seu encantador aspecto». Todavia, «naquela breve tarde de Janeiro, o Sol começou a declinar-se no horizonte, com algumas nuvens nocturnas, negras e ameaçadores que surgiram por detrás das mais altas serras […] a fazer murmurar os arbustos do mato, ou tirar gemidos dos arvoredos».

            Os grossos pingos de água vinham manchar a nitidez, pelo que os burros cruzavam as orelhas e seguiam mais vagarosos (5).

 A noite desceu rápida e tenebrosa e os músicos seguiam calados embrulhando-se como podiam nos casacos e virando para baixo as abas dos chapéus de feltro para a água não lhes entrar no pescoço.

 « — Isto vai tornando-se sério — gritou entre as sombras um tocador de contrabaixo  — o instrumento já me apanhou uma amolgadela e tem bebido água que nem um funil, é capaz de não querer toar».

«— Cala-te, toleirão — respondeu o do rufo — eu cá botei o meu casaco por cima da pele desta caixa […]».

 O do bombo soltando uma forte risada, exclamou:

«— Imaginem vocês se as nossas meninas da Vila nos vissem neste belo estado, que lágrimas não chorariam…»

            O mau tempo crescia sempre, e a ventania nem os deixava seguir. Fizeram alto e reuniram, numa espécie de conselho de guerra, para decidirem o melhor partido a tomar.

                                                                                                                      (Continua)

_______

(1). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), pp. 159-175, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.

(2). Arruda, Luís M., biografia na “Enciclopédia Açoriana”, Centro de Conhecimento dos Açores, Internet.

(3). Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade”, 2003, p. 487, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores; Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), pp. 159 e 160, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.

(4). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), p. 161, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores - Ponta Delgada.

(5). Rebello, Ernesto, “Uma Noite de Reis na Freguesia da Fajãzinha”, “Arquivo dos Açores”, (1885), p. 162, republicado em 1982 pelo Universidade dos Açores -Ponta Delgada.

 

Foto 1: Vista parcial da vila Santa Cruz das Flores, em 1950, que se julga não ter estrutura muito diferente, relativamente à do tempo de Ernesto Rebello. O navio “Carvalho Araújo”, ligava a ilha com Lisboa. Foto da Jovial -  Horta (de Júlio Vitorino).

 

                                 Coordenação de José Arlindo Armas Trigueiro

 

 

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