Durante este ano de 2011, no mês de Agosto, estive uns dias na ilha do Corvo, onde pude observar, com pormenor, algumas das defesas que os antigos corvinos construíram, para se protegerem da pirataria que durante anos ou talvez séculos os perseguiu. Aliás, a ilha do Corvo foi talvez a que mais investidas sofreu dessa escumalha de gente, talvez pela pouca defesa que dispunha.
Subi e desci várias vezes as ruas estreitas antigas e fiz o mesmo com as escadas de pedra, também antigas, que dão acesso às casas que os antigos corvinos habilmente construíram
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Esta é uma vista parcial da vila do Corvo, demonstrativa da parte antiga das casas em anfiteatro, onde o acesso é feito pelas escadas de pedra referidas neste trabalho.
Quer as ruas, quer as escadas estão devidamente conservadas pela municipalidade corvina. Os corvinos melhoraram as suas casas. Onde Raul Brandão encontrou estábulos com cabeças de vacas às janelas encontram-se casas de banhos e divisórias ampliando o conforto das habitações, e onde existiam currais de porcos há agora esplanadas ou pátios de casa dando asseio e bom gosto.
Mesmo assim pude ver as ruas estreitas, com casas de dois pisos de empenas voltadas para elas, ora num lado, ora no outro. Ainda hoje é notório que a grande maioria das casas antigas eram construídas nessas ruas uma em frente da outra e que em cada uma existia, e geralmente ainda existe, uma janela voltada para a rua. É notório que interessava essencialmente que uma pessoa de braço estendido numa janela pudesse facilmente trocar objectos com outra que estivesse na janela da frente, como revelam os antigos investigadores históricos, nomeadamente o investigador histórico florentino Jacob Tomás. Apesar da evolução verificada através dos séculos, esta visão é ainda hoje patente em cada rua estreita e antiga da vila corvina.
Na parte edificada em anfiteatro, as casas foram construídas umas atrás das outras, estando as de trás sempre num nível superior às da frente. Estas habitações são servidas por escadas comuns de pedra, de acesso para às outras, de tal forma que as escadas são públicas, embora destinada quase essencialmente a dar passagem à habitação do vizinho ou vizinhos mais próximos que por ali se servem. Trata-se de um labirinto que certamente a pirataria não se atrevia a passar e ou a enfrentar.
Estas constatações ainda são bem visíveis para quem percorre as ruas e escadas da vila do Corvo, na expectativa de observar a sua tradição histórica.
A este propósito lembram-se o que o escritor faialense, Ernesto Rebello, escreveu no Capítulo V, ‘Notas Açorianas’, do “Arquivo dos Açores”, Volume VII, pp.98-102, 1885, edição fac-similada pela Universidade dos Açores de 1982.
Embora habituados aos textos romanceados e habilmente ficcionados desse escritor, o seu trabalho intitulado “A Ilha do Corvo” confunde-se facilmente com as realidades históricas da ilha.
O escritor, que deve ter escrito esse trabalho por volta de 1885, começa por referir que a data do descobrimento do Corvo foi, efectivamente, “em
Esclarece que «As ruas é que são estreitíssimas, em algumas das quais nem pode passar carro de bois e formando um verdadeiro labirinto de difícil saída para quem ali for pelas primeiras vezes». Isso visava a sua melhor defesa, já que a ilha era infestada antigamente por corsários argelinos.»
Ernesto Rebello conta que “Uma certa vez, numa invasão de corsários, das quais as mais notáveis foram as de 1632, por dez lanchões de turcos, de uma frota que por ali passou, e em 1714, pela gente de quatro navios argelinos; estava toda a população da ilha atemorizada pelo desembarque daqueles malvados, que nada respeitavam e que não se limitavam a roubar os frutos da terra, mas chegando a ousadia de furtar as mais bonitas raparigas, que consigo levavam, como infiéis que eram, para lhes perder o corpo e a alma».
Nesse dia, quando já os corsários estavam na rua principal para iniciar as suas tropelias, alguns corvinos mais ousados, afrontando o terror da inerte população, «foram aos pastos cercar uma manada de bois bravios e espantando-os e espicaçando-os até à Vila, conseguiram introduzi-los já furiosos pela estreita passagem [rua] apinhada de corsários». «As portas estavam todas fechadas e trancadas e das janelas, à míngua de outros mais mortíferos projecteis, caía sobre os assaltantes um chuveiro de pedras». «Os toiros esbaforidos e rijamente fustigados, para lhes aceder a cólera, embocaram com raiva pela rua abaixo,[…]lançaram-se[…]em vertiginosa carreira». «Era uma onda viva, mais terrível do que as soberbas ondas do mar, uma verdadeira ‘razia’». «Dentro em poucos instantes homens e animais confundiam-se em encarniçada luta»
Reza a história que numa dessa refregas ficaram mortos cem inimigos, embora seja difícil acreditar, pela originalidade, mas a vitória desta vez terá sido corvina. […] Acrescenta a seguir várias considerações e escreve que «Grandes são ali as criações de godo, especialmente suíno, havendo também grande fartura de galinhas, variada e excelente fruta, melancias e melões, peras e figos, água nativa e afamado leite».
Depois de descrever várias formas de vida dos corvinos, refere que «Botica e médico também ali não há, nem um único estabelecimento de vendagem, apesar de haver muitos frascos com medicamentos americanos trazidos pelos rapazes da ilha que andam nas baleeiras ou dos Estados Unidos».
Tal como acontece agora, naquele tempo o escrivão de fazenda residia
Evidenciando assuntos relativos à vida corvina e o seu relacionamento com vida florentina, Ernesto Rebello termina praticamente a referir que «As raparigas da ilha, formosas e de cutis finíssima, cantam, na Primavera, por entre giestas e urzes […]».