O FAIALENSE HILDEBERTO SERPA FOI UM DOS PRISIONEIROS DA UNIÃO INDIANA
Antecedentes históricos
Foi no mês de Dezembro de 1961 que Portugal perdeu, ingloriamente, Goa, Damão e Diu. Era o início do desmoronar do Império Português!...
Como refere a nossa História, foi em 1498 que a frota de Vasco da Gama chegou à Índia. Assim, depois de Portugal ter perdido, em 25 de Julho de 1954, os enclaves de Dadrá e Nagar Aveli invadidos pela União Indiana, perdia naquela ocasião o Estado Português da Índia. Perdia-se uma área de cerca de 4 mil quilómetros quadrados, com uma população cerca de 600.000 habitantes. E isto porque, depois da II Guerra Mundial, os Impérios haviam caído em desuso… Aliás, a descolonização mundial, era norma imperativa da Carta da Nações Unidas desde 24 de Outubro de 1945. Quando em 1955 Portugal entrou na ONU sabia disso!...
A União Indiana, que adquiriu a sua independência da Inglaterra em 15 de Agosto de 1947, tinha como Primeiro-Ministro, o Pândita Nehru, homem, culto, pacífico e bem intencionado. A partir dessa independência Neru começara a proclamar a recuperação de todo o território indiano. Em diversas ocasiões, apelara a Salazar a necessidade de ambos negociarem essa situação. Todavia, como o Presidente do Conselho Português não admitia que Portugal diminuísse, Nehru passou a fazer essas reclamações nas Nações Unidas.
Em 1961, já praticamente todos os países que haviam tido colónias tinham procedido às suas descolonizações. Portugal constituía quase a única excepção, acompanhado ainda nesse tempo pela França, que, todavia, em 1962 foi forçada a dar a independência da Argélia, como referimos noutro trabalho. Portugal entrara na ONU mas não aceitava partes essenciais da sua Carta.
Por outro lado, o Governo da União Indiana – que quisera negociar com o Governo Português, como referi – em Dezembro de 1961 começou a concentrar tropas junto das fronteiras dos referidos territórios. Já em Agosto desse ano, o discurso de Nehru não deixava margens para dúvidas de que a União Indiana se preparava para invadir esses enclaves com o uso da força.
O Estado Português da Índia, cuja capital era na cidade de Nova Goa, tinha como Governador-Geral o General Vassalo e Silva que para ali fora nomeado a 2 de Dezembro de 1958. O Bispo D. José Vieira Alvernaz, açoriano natural da ilha do Pico, era o Arsebispo de Goa e Patriarca das Índias, como entidade máxima da Igreja Católica nesses territórios. Os efectivos militares portugueses eram de cerca de 3000 unidades, mal equipados, como era próprio das nossas tropas desse tempo. Estas encontravam-se distribuídas pelos três distritos ou enclaves e, ancorado no porto de Mormungão, em Goa, estava o navio de guerra “Afonso de Albuquerque” e a lancha “Vega”. Aí também havia postos da Polícia e da Guarda-Fiscal. Nos outros territórios de Damão e de Diu, havia ainda duas lanchas, algumas unidades militares, bem como postos da Polícia e da Guarda-Fiscal.
A aproximação da invasão
Com a concentração de tropas indianas nas fronteiras, intensificada em Novembro e Dezembro de 1961, havia mais de 40.000 militares equipados com armas, carros e blindados de guerra. Assim, começou a fazer-se o regresso a Lisboa dos familiares dos portugueses civis e militares ali estabelecidos. Entretanto, o Governo Português, por intermédio do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Franco Nogueira, procurava, sem êxito, apoio diplomático para a sua política de manutenção naqueles territórios. Acusava-se Nehru de agressor previsível…
Nos primeiros dias de Dezembro, sobretudo no dia 13, houve o “assalto” aos bancos, isto é ao dinheiro neles depositado. Salazar terá pedido ajudas aos EUA e ao Reino Unido, e dizia-se que alegara a nossa “Velha Aliança” com aIglaterra, mas esses nossos aliados fizera-lhe “orelhas moucas”.
Alertado periodicamente da difícil situação, pelo Governador-Geral e pelo Arsbispo de Goa, o Governo Português continuava insensível e convencido de que os nossos aliados iriam actuar em nosso favor, alterando as intenções de Nehru e da Carta das Nações Unidas.
No dia 14 de Dezembro, Salazar determinava, numa longa mensagem ao Governador-Geral, que a missão das forças portuguesas era a de manter os “terroristas” em luta até que chegassem os auxílios externos já solicitados aos nossos aliados. E, textualmente, escrevia o seguinte excerto: “Não prevejo possibilidade de tréguas nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”. A falta de realismo de Salazar era inadmissível, dados os condicionalismos da situação e reflectia a falta de sensibilidade pela vida dos portugueses lá existentes.
No dia 15 de Dezembro, no Palácio do Hidalcão, sede do Governador-Geral, onde nos últimos dias se concentraram algumas chefias civis e militares – sobretudo depois da saída dos respectivos familiares para Carachi, Paquistão, e para Lisboa – procuravam manter a calma e a normalidade de funções, mas havia gente que já não dormia e que trabalhava vinte e quatro horas por dia.
A Invasão
No dia 16 de Dezembro, forças navais da União Indiana aproximaram-se e ficaram fora da “barra” do porto de Mormugão, em Goa, designadamente: um porta-aviões, um cruzador, três fragatas, um caça minas e três “destroyers”. No porto continuava o velho navio português “Afonso de Albuquerque”. Nesse dia Vassalo e Silva recebia os órgãos de informação – que intensificaram a sua presença em Goa – e afirmara-lhes, com aparente calma, que tudo estava preparado e que não havia motivos para receio ou para se perder a calma. No dia 17 de Dezembro, nas fronteiras as forças indianas entraram e detiveram-se a curta distância.
No dia 18 de Dezembro, cerca das 00:00 horas, as forças da União Indiana avançaram por todo o lado e, no porto de Mormugão, iniciaram a luta. No navio “Afonso de Albuquerque”, que procurou resistir durante cerca de quatro horas de combate, o seu comandante, António da Cunha Aragão, foi gravemente ferido. Outros redutos militares isolados também terão tentado resistir. Registaram-se, sobretudo aí, alguns mortos e feridos.
No dia 19 de Dezembro, com a tomada da cidade de Nova Goa, terminava praticamente a ocupação do Estado Português da Índia. O General Vassalo e Silva – que estava com o seu Estado-Maior num barracão próximo do porto, juntamente com D. José Vieira Alvernaz – rendeu-se cerca do meio-dia, depois de ter a percepção que a ocupação havia terminado. Hasteada a bandeira da União Indiana no Palácio do Hidalcão, foram feitas as prisões dos jornalistas portugueses. Todavia, noutras localidades, nomeadamente em Damão e Diu, como as comunicações eram muito precárias, às 16 horas as tropas portuguesas ainda estavam debaixo de fogo. Todos os prisioneiros, constituídos por militares, marinheiros, agentes fiscais e policiais e jornalistas, foram concentrados em Goa até à sua libertação. O último prisioneiro a sair de Goa, em Maio de 1962, foi o General Vassalo e Silva, fazendo-o de avião para Karachi, Paquistão na companhia de um ajudante e de um enfermeiro, com todas as honras e respeito por parte dos militares e autoridades indianas.
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O Furriel Miliciano Hildeberto da Rosa Serpa, em 1961, prestava serviço no antigo território português de Damão, quando o território da Índia foi invadido pela União Indiana.
O Faialense Hildeberto da Rosa Serpa
Com o patente de Furriel Miliciano, o faialense Hildberto Serpa viveu ali todos os acontecimentos muito intensamente, visto ter tido conhecimento de algumas das comunicações trocadas com o exterior, face à sua especialidade militar. Foi oportunamente detido e, depois de estar uns meses prisioneiro com os demais colegas em Goa, onde todos foram tratados de forma humilhante, acabou por regressar a Portugal. O seu regresso a Lisboa foi feito no navio “Pátria”, através do Canal de Suez.
Como prisioneiros todos eram sustentados com alimentação pobre e escassa proveniente da União Indiana. Para melhor descrição da sua passagem pela vida militar e para melhor conhecimento da sua visão sobre a invasão, voltaremos a este tema no próximo mês.
Conclusões
Depois de libertadas todas as tropas portuguesas, o General Vassalo e Silva apresentou ao Governo Português um relatório exaustivo, constituído por trinta volumes, contendo a descrição fundamentada e documentada dos acontecimentos.
Assim, o Conselho de Ministros, sem que tenha sido organizado qualquer processo disciplinar e sem ouvir ou inquirir os militares envolvidos naquela invasão, aplicou em Março de 1963 as seguintes punições, mais ou menos “cozinhadas” por militares do regime, sem adequadas qualificações para o efeito:
- Demitidos: 9 oficiais com responsabilidades de comando ou chefia, incluindo o General Vassalo e Silva e um 1.º sargento;
- Reformados compulsivamente: 5 oficiais com responsabilidades de comando ou chefia;
- Inactividade por seis meses: 9 oficiais diversos.
Foram agraciados ou louvados vários militares ou marinheiros, entre os quais o Comandante do navio “Afonso de Albuquerque” e, a título póstumo, o Comandante da lancha “Vega”, falecido em combate.
Assim, os militares demitidos ficaram com a sua vida destruída, alguns já de avançada idade. A Vassalo e Silva (demitido), valeu-lhe o seu curso de engenheiro que lhe permitiu, aos 62 anos de idade, iniciar vida nova numa empresa de construção civil; D. José Vieira Alvernaz, demitido, veio para os Açores onde terá sido protegido pela família, já que não lhe deram a pensão a que teria direito por lei.
Depois do “25 de Abril” de 1974, o novo regime instituído fez, em Dezembro desse ano, a reabilitação dos militares demitidos, na sequência daquela invasão.
Ao sacrifício inútil atrás descrito foi acrescido o de 25 ou 26 mortos da parte dos portugueses, cujos familiares devem ter sido miseravelmente compensados.
De qualquer forma, aquela invasão foi mais um erro das opções políticas e ditatoriais de Salazar. Talvez um dos seus primeiros grandes fracassos… Para maior humilhação do Governo Português, Jacqueline Kennedy, mulher do presidente americano, John F. Kennedy visitou pouco tempo depois da invasão a União Indiana. Era um gesto de concordância americano!...
BIBLI: Entrevista e Hildeberto Serpa, de 26-9-2001, Silva, Botelho da, “Dossier Goa - Vassalo e Silva a recusa do sacrifício inútil” 1975, edição: LIBER; Morais, Carlos Alexandre de, “A Queda da Índia Portuguesa - Crónica da Invasão e do Cativeiro”