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02
março

Mudar o Ciclo para mudar de prioridades

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

1. Há algumas semanas, o economista Luís Anselmo publicou no jornal “Correio dos Açores” um artigo de opinião intitulado “Estranha noção de prioridade” que, com a devida vénia, não queremos deixar de aqui citar uma parte:

“Os micaelenses têm vias rápidas, na modalidade SCUT (Sem Custos para o Utilizador), até ao Nordeste, de fazer inveja às regiões mais ricas da Europa, que vão custar qualquer coisa como 1.271 milhões (segundo o Tribunal de Contas). O que é fantástico!

Têm em Ponta Delgada um cais de cruzeiros para grandes paquetes de uma dimensão e qualidade invulgares, que deve ter custado perto dos 90 milhões. O que é sensacional!

Têm barcos de passageiros de ilha em ilha, a preços altamente subsidiados, com um custo anual de mais de 12 milhões, para passearem essencialmente jovens de festa em festa concelhia. O que é muito agradável!

Dispõem ainda de equipas profissionais em competições nacionais de futebol, futsal, basquetebol, voleibol, repletas de jogadores de fora, a viajarem por todo o lado e que custam milhões por ano, sob o pretexto de que promovem a Região no exterior. O que é extraordinário!

Os micaelenses vão ter em breve na Ribeira Grande um Centro de Artes Contemporâneas que vai custar 11 milhões, para gáudio de alguns políticos e excitação de uma elite dita cultural. Um equipamento de gente rica!

Os micaelenses têm tudo isto mas não têm emprego, nem dinheiro para a alimentação, calçado, água, eletricidade, lazer, transportes, educação e prestação da casa e do carro.

Os micaelenses têm estes equipamentos fabulosos mas têm cuidados de saúde condicionados por um persistente subfinanciamento do Hospital Divino Espírito Santo(…).

E enquanto os poderes políticos embarcam nestes projetos megalómanos, o tecido empresarial definha a olhos vistos, rumo à insolvência de muitas empresas e ao engrossar do desemprego que está a arruinar as famílias.

Famílias estas que desesperam com os seus rendimentos disponíveis a serem brutalmente cortados. Apesar de terem ricas estradas, barcos, futebóis, arte contemporânea, que nada servem para resolver as suas necessidades mais imediatas.

Estranha forma esta de governar, mais notória ainda nesta conjuntura económica adversa.”

Esta reflexão, se ampliada para uma perspetiva regional, não só mantém toda a sua razão de ser, mas ganha uma preocupante dimensão sobre aquele que tem sido o sentido de grande parte dos investimentos feitos nos Açores pelos governos de Carlos César: investimentos fantásticos, muito caros e extraordinários mas que, agora, se revelam insustentáveis e desadequados numa Região que vive uma riqueza aparente!

Fez-se o mais fácil com os milhões que a Europa nos proporcionou em tempo de vacas gordas. Agora, em tempo de dificuldades, quando precisaríamos de uma economia forte e sustentada, garante de crescimento e de geração de emprego, temos um Estado quase falido e um tecido empresarial exangue e débil.

E esta situação em que vivemos hoje nos Açores é tristemente comprovada pelos números negros do desemprego e é bem a ilustração dos erros das opções dos sucessivos governos de Carlos César no tocante às prioridades do investimento regional.

2. Ao fim de 16 anos no poder, a grande maioria daqueles que vive na órbita e alimenta o aparelho do poder socialista, revela todos os sintomas e tiques de quem perdeu o contato com a realidade e só é capaz de a ver com os “óculos” da sua cor partidária. Perderam o poder da autocrítica, da análise das virtudes e dos defeitos das opções governativas e transformaram-se em autómatos repetidores da visão oficial dos acontecimentos. Basta ver o que se passa na Assembleia Regional onde interessantes iniciativas e propostas de vários partidos da oposição são sistematicamente “chumbadas” com o argumento de que “não são oportunas”, “não são adequadas à realidade” ou de que “o Governo já está a fazer”. Isto para já não falar na sintomática e patética afirmação de uma governante que disse textualmente que hoje não há mais pobres nos Açores!

3. Mas o maior exemplo desta absoluta desconformidade com a realidade foi dado há dias pelo próprio Carlos César. Referindo-se à reforma administrativa do poder local, o Presidente do Governo disse que “…não há freguesias a mais; pode é haver remunerações a mais nos gestores de freguesia”. E Carlos César concretizou: “O problema hoje no País é poupar; se queremos poupar, há remunerações do Presidente de Junta, do Secretário e senhas de presença que podem ser dispensáveis…”.

Para avaliarmos bem a dimensão das afirmações atrás reproduzidas, esclareça-se então quanto recebem aqueles autarcas de freguesia. Sendo que nos Açores a esmagadora maioria exerce os cargos em tempo parcial, temos que o Presidente de Junta recebe mensalmente uma gratificação de 274,77 euros; o Secretário e o Tesoureiro recebem 219,82 euros.

A prova de que este ciclo político está no fim é a de que é o próprio Carlos César que mostra estar a perder o contato com a realidade. Então acha ele que a poupança do Estado está nas gratificações dos autarcas de Freguesia? E se, em vez disso, o próprio Carlos César começasse por poupar no seu Gabinete?

Como pode ele dizer o que disse dos autarcas de Freguesia se só o seu Gabinete custa o seguinte: 3 secretárias a 1.951 euros por mês cada, dá 5.863 euros mensais; 8 assessores a 3.173 euros acrescidos de 583 euros de despesas de representação, dá 30.048 euros mensais; 1 chefe de gabinete a 3.734 euros mais 778 euros mensais de despesas de representação, dá 4.512 euros. Isto é, por mês, só o Gabinete de Carlos César custa 40.413 euros. E não estamos a contar com um fotógrafo a tempo inteiro. Isso significa que anualmente o custo do Gabinete de Carlos César, só em salários, é superior a meio milhão de euros.

Aqui, sim, Carlos César, teria muito a poupar. E a dar o exemplo.

E só a ilusão dos instalados não permite ver isto.

É bem tempo de mudar de ciclo para mudar de prioridades e dar aos Açores uma nova esperança!



 

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