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16
março

O teatro Micaelense como exemplo

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

Já escrevi nas páginas deste jornal que a construção da unidade político-administrativa dos Açores à volta da solidariedade partilhada no crescimento e nas dificuldades é um desafio permanente e nunca plenamente atingido. Assegurar o desenvolvimento económico e social dos Açores, a concretização do crescimento harmonioso e integral de todas as ilhas, respeitar os seus ritmos próprios, assumir como objectivo da prática política a justiça e a equidade no direito ao desenvolvimento e ao progresso, tudo isto, mais do que reivindicações do tempo presente, são questões fulcrais para a sobrevivência da nossa Autonomia regional enquanto nela quisermos ter implicadas as nove ilhas dos Açores.

E promover uma Autonomia açoriana geradora de desenvolvimento e progresso só será conseguido enquanto nela todas as ilhas se sentirem tratadas com justiça e equidade. Por isso, governar os Açores é olhar para todas as ilhas e definir estratégias equilibradas e complementares de desenvolvimento. Governar os Açores é respeitar essa realidade única e inultrapassável de que a nossa riqueza reside também na nossa diversidade, que cada ilha é um mundo de igual dignidade e que a harmonia se faz de investimento repartido.

Infelizmente, estes dezasseis anos de liderança do Partido Socialista ficarão a marcar a História dos Açores por terem aprofundado a distância no desenvolvimento entre ilhas, privilegiando umas em detrimento da grande maioria, que se vê estagnada e a cada dia que passa esvaziada da sua maior riqueza: a dos seus filhos que saem e não voltam.

E essa opção política foi deliberada, consciente e realizada em todos os sectores. Até na cultura ela se verifica e é disso exemplo a Sociedade Teatro Micaelense, S.A.

Esta Sociedade Anónima foi criada pelo Governo Regional para explorar o antigo Teatro Micaelense, em Ponta Delgada. A Região Autónoma dos Açores detém 99,77% do capital desta sociedade, o que quer dizer que a esmagadora maioria dos dinheiros que nela circulam, são dinheiros públicos.

Desde 2004, ano em que esta sociedade foi criada, o Teatro Micaelense tem apresentado um cartaz de espectáculos de grande luxo e qualidade: coros, orquestras, companhias de bailado, de teatro, de ópera, exposições internacionais e muitos dos mais sonantes nomes do mundo musical nacional e internacional por lá já passaram.

            Os últimos dados públicos da Conta de Gerência do Teatro Micaelense – Centro Cultural e de Congressos, relativos a 2010, são os seguintes: a) foram realizados nesse ano 130 eventos; b) estiveram presentes 23.185 espectadores; c) a conclusão é que o Teatro Micaelense teve, em 2010, uma média de 178 espectadores por espetáculo, para uma sala que tem uma lotação de 738; ou seja, a média de espectadores por evento equivaleu a 24% da sua capacidade; d) Os custos de exploração foram nesse ano de 2 milhões e 250 mil euros; e) Os proveitos foram de 1 milhão e 994 mil euros; f) O resultado da exploração foi, portanto, negativo no valor de 255 mil euros; g) Em 2010, o total do passivo do Teatro Micaelense era de 1 milhão e 400 mil euros e havia recebido subsídios do Governo Regional no valor de 1 milhão e 150 mil euros; h) Resta acrescentar que o Teatro Micaelense tem 18 funcionários, em 2010 as despesas com pessoal totalizaram 428 mil euros e no Orçamento aprovado para 2011, havia uma previsão de  um deficit de exploração de 360 mil euros. 

A questão que se coloca é muito simples: esta sociedade pública regional denominada “Teatro Micaelense SA” tem contribuído para o desenvolvimento cultural das várias ilhas dos Açores? Tem promovido espectáculos e actividades culturais nas várias ilhas dos Açores? Tem patrocinado e rentabilizado a apresentação em outras ilhas dos Açores do magnífico cartaz que tem trazido a S. Miguel?

Não! Não! Não! A sua actividade circunscreveu-se exclusivamente a S. Miguel. Somos todos nós, contribuintes, a pagar a grande fatia do cartaz a que só alguns têm tido acesso.

Há circunstâncias especiais que justifiquem que o Governo Regional seja dono de um Teatro que consome um tal orçamento? E sem que esse Governo nunca tenha mostrado disponibilidade ou vontade para optar por um caminho semelhante em outras ilhas? Ou, pelo menos, porque é que, por uma questão de justiça elementar, por uma questão de desenvolvimento cultural integrado e harmónico, não se faculta às outras ilhas a possibilidade de usufruir pelo menos de alguns desses espectáculos numa itinerância que ajudaria a fortalecer a solidariedade entre ilhas? Isso sim, seria partilha do desenvolvimento e do investimento na área da cultura. Isso sim, seria olhar para os Açores e ver nove ilhas. Isso sim, seria a essência da nossa Autonomia: o desenvolvimento integral e harmonioso de todas as ilhas.

Mas não: é óbvio que o actual poder já há muito pôs de parte o objectivo de construir a unidade político-administrativa dos Açores à volta de uma solidariedade partilhada no crescimento. Até mesmo na cultura, estes 16 anos do Partido Socialista aprofundaram a prática de haver umas ilhas filhas e outras enteadas. E, neste caso, com uma única e censurável justificação: alimentar, com os dinheiros públicos, uma tonta e provinciana rivalidade com a Câmara de Ponta Delgada e o seu Coliseu!


12.03.2012

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