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23
março

A ILHA DO CORVO – UMA VISÃO DE ERNESTO REBELLO (II)

Escrito por 
Publicado em José Trigueiro

É de um texto do escritor faialense Ermeto Rebello que respigamos e baseámos e esta visão da ilha do Corvo, publicada no “Arquivo dos Açores” (1). Mas quem foi Ernesto Rebello? Nasceu na Sé de Lisboa em 26-4-1842 e faleceu na cidade da Horta em 15-4-1890, onde fez praticamente toda a sua vida, como literato, jornalista e funcionário da Repartição da Fazenda Distrital da Horta. O pai, que foi advogado, nascera no Faial e a mãe na Guiana Francesa (2).

            Para quem vivia naquele tempo no Corvo, Ernesto Rebello referia que ali tinha uma existência tranquila, encontrava variedade e grande abundância de víveres, os quais não eram vendidos para consumo público, mas simplesmente trocados por outros géneros. A quem sobrava trigo, por exemplo trocava-o por feijão e vice-versa.

            «Grandes são ali as criações de gado, especialmente suíno, havendo também grande fartura de galinhas, variedade excelente de fruta, melancias e melões, peras e figos, água nativa e afamado leite».

            «Não há família alguma na ilha do Corvo, por muito pobre que seja, que pelas festas não mate o seu porquinho e nas casas que têm toucinho, que tem cozinha maior vão dependurar, até mais não poder, as bandas de toucinho, que ali ficam ao fumo, assinaladas, e das quais diariamente vão cortando a porção que precisam para gasto doméstico».

            E sobre o assunto escreve que «A carne de vaca é, também muitas vezes defumada e com especial sabor. Acresce ainda que a hortaliça é boa, abundante. É que nas terras baixas a plantação da beterraba, para os animais, assegura-lhes sempre farta alimentação»

            E sobre a vida activa da ilha, refere que «O viver dos corvinos é o mais simples possível. Erguem-se ainda de madrugada, indo em seguida todos os homens, diariamente, ouvir missa. Vão depois para o trabalho e ali, das nove para as dez horas, almoçam leite mugido das vacas, com pão de milho e centeio. Nada mais». Contudo esclarece que, «Perto da noite regressa o trabalhador ao seu domicílio, aonde, então o espera, pela primeira vez, comida de panela, geralmente legumes, couves, nabos ou outros produtos da terra. Esta refeição serve-lhes de jantar e ceia».

            Ali, contrariamente ao que acontece noutras ilhas do arquipélago, «o chá e o café são quase desconhecidos», embora seja conhecida e usada em algumas famílias «cevada torrada».

            «Botica e médico também ali não há, nem um único estabelecimento de vendagem, encontrando-se, não obstante, em muitas moradias frascos de remédios americanos “Pain Killer”, importado pelos rapazes da ilha que andam nas baleeiras, ou que têm vindo dos Estados Unidos», escreve Ernesto Rebello.

 

            E acrescenta que «Quatro moinhos de vento e algumas “atafonas” trabalham na moagem dos cereais para consumo e também, de presente, chegam da América, enviados pelos naturais da ilha ali estabelecidos, barris de farinha, camisas de lã, peças de chita, etc...»   

            Depois refere que o maior favor que poderiam fazer aos corvinos era nunca lá lhe aparecer o navio ou barco que levasse notícias de Portugal, que só lhes levam exigências do fisco, para o que reservam o pouco dinheiro existente na ilha. E menciona que os rendimentos da terra não dariam para as despesas com o vigário, cura, tesoureiro, escrivão de fazenda e respectivo escriturário...

            Refere ainda que «O escrivão de fazenda e escriturário não residem na ilha, mas sim nas Flores, em Santa Cruz, que é a cabeça de toda a comarca, indo porém, ali, amiudadas vezes o segundo destes empregados».

            E a seguir menciona: «Ocorre, com relação à ilha do Corvo, um caso singular; quase todos os que se vêem obrigados, por qualquer circunstância a ali ir, vão de má vontade, como para um enterro, com a perspectiva de estar, ao menos seis meses do ano, sem a mínima notícia do exterior, nem saber o que se passa por esse mundo de Deus» E ainda era assim quando eu cheguei às Finanças na década de 1960, onde fiz carreira profissional, já que os meus colegas que para lá eram nomeados, a primeira coisa que faziam depois de chegarem era o requerimento para se irem embora. Todavia, Ernesto Rebello procura informar que se eles lá se demoram uns dias, a dificuldade é fazê-los sair daquela pequena ilha. E esclarece «A vida descuidada que então se goza, a abundância que reina em tudo, a liberdade no trajar, a sincera e carinhosa hospitalidade dos seus habitantes, as magnificas perspectivas do lugar, tudo nos faz esquecer que, além daquele insignificante ponto, perdido no seio dum imenso oceano, hajam grandes, ricas e populosas cidades»

            Depois acrescenta, «Aos navios que então vemos passar ao largo, dizemos, recostados na crista de algum penedo: — “Ide-vos com Deus que eu estou bem aqui!”»

            Para completar a síntese descritiva da ilha, menciona «E em seguida subimos as cumeeiras da formosíssima caldeira do Corvo, que mede 5 500 metros de circunferência e 250 metros de fundo, para completar aquele mágico panorama, cujo seio é um grande lago povoado de pequenas ilhotas e cujas encostas de “frondente” verdura são exuberantes de vida e encantos». E termina «As raparigas da ilha, formosas e de cutis finíssima, cantam, na primavera por entre as giestas e urzes; um sol esplêndido incide ardentemente o lugar; o ar do mato tem “salutífera fragância”, milhões de flores nos cercam por toda a parte e bendizemos a Providencia que ali nos deixa gozar horas de tão tranquila existência».

            E se é certo que o escritor Ernesto Rebello ficcionava com grande facilidade, usando esse sistema de escrita por vezes simultaneamente com a narração, é impressionante o realismo expresso neste seu trabalho sobre a ilha do Corvo.

(1).Rebello, Ernesto, (1885), “Arquivo dos Açores”, Vol. VII, pp. 98 a 102, reprodução Fac-Similada feita pela Universidade dos Açores  em 1982.

(2).Arruda, Luís M., (1992), “Enciclopédia Açoriana”, Internet, Google, Centro de Conhecimento dos Açores.

 

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