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13
abril

Molhado

Escrito por  Frederico Cardigos
Publicado em Frederico Cardigos

 

Por inerência ao meu trabalho, tenho seguido com muita atenção tudo a que ao mar se refere, incluindo também os seus aspetos turísticos. Neste domínio, ao longo dos últimos anos, as diferenças são abissais e para melhor. À dinâmica das empresas para a observação de cetáceos, têm-se juntado as empresas de passeios marítimos, de mergulho com escafandro autónomo, de mergulho para observação de jamantas e de observação de tubarões. Tudo isto e muito mais é permanentemente analizado em detalhe pelo departamento do Governo a que pertenço.

Não obstante, nos últimos meses comecei a notar que, no conjunto, me faltava uma componente. Depois de muito tempo atrás da secretária, esmiuçando em cartas e documentos a orla costeira das diferentes ilhas do arquipélago ou participando em reuniões de trabalho um pouco por toda a parte (muitas por videoconferência), senti, sinceramente, falta de ver o que se passava debaixo de água. Tinha de ir para o terreno, que, no meu caso, é, está bem de ver, a água do mar. Bem pensado, melhor feito.

Aliciando companheiros de longa data, decidimos qual o local de imersão. Apesar das condições meteorológicas instáveis, as experiências combinadas do Norberto Serpa e do Marco “Foca” apontavam para um determinado local da Ilha do Faial. Pelas razões que explicarei à frente, não poderei dar detalhes sobre a localização.

Após revisão do equipamento e dos procedimentos de mergulho, obscurecidos por um longo período sem imersões, lá fomos. Antes da entrada de costas, uma última verificação à pressão de ar na garrafa e um teste ao regulador. Tudo bem. Vamos à água!

Ao contrário do que esperava, não houve choque térmico. O meu fato de mergulho semi-seco é realmente impecável. Ou então, a água do mar não está tão fria como isso. Negativo; vejo o ar arrepiado dos meus colegas de mergulho e percebo que a temperatura ainda é de época baixa. No decorrer do mergulho, a falta de peixes pelágicos migradores, como lírios, encharéus e bicudas, confirma a temperatura da água.

Junto ao fundo, centenas de rainhas e dezenas de vejas dão um imediato colorido à imersão. Apesar da curta visibilidade de apenas 20 metros, a luz consegue penetrar o suficiente para, a pequena distância, vermos os vermelhos que distinguem as fêmeas vejas. Nota explicativa: 20 metros é um sonho de visibilidade para o mergulho em qualquer sítio do mundo, mas nos Açores é apenas normal!

Dita a experiência do meu companheiro de mergulho, Fernando Jorge Cardoso, que se deve espreitar para as frinchas que vamos encontrando. Aí, as algas são substituídas por anémonas e outros magníficos invertebrados sésseis. Sobre eles, muitas vezes deambulam moreias das espécies pintada ou preta, moreões e, por sorte neste mergulho em particular, uma moreia-víbora. Apesar do nome e do mau aspeto, é uma moreia ainda mais pacífica que as restantes, permitindo habitualmente boas fotografias. Apesar de ter levado uma máquina fotográfica emprestada, a falta de ensaio prévio fez com que as fotos deste peixe ficassem, com simpatia, miseráveis… É pena.

Melhor ficou o retrato de um cavaco. Este crustáceo é híper-apetecido pela pirataria subaquática o que, imediatamente, obriga a esconder o avistamento ou o local de mergulho. Penso, escondo o segundo. A fotografia do cavaco, até para acalmar as más-línguas, indicia que aqui o Mar dos Açores está em boas condições e uma nota positiva é importante.

Em época de renascimentos, esta foi uma ótima maneira de celebrar a Páscoa e revitalizar a energia que me ajudará a melhor defender o mar dos Açores. Viva o Mar dos Açores, cheio de vida e fascinante beleza!

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