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14
maio

A Euterpe, os Bombeiros Voluntários e a Horta dos Cabos Submarinos

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

1. Entram este mês no restrito número das instituições centenárias a Sociedade Filarmónica Euterpe de Castelo Branco e a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Faial.

Dirigidas com dinamismo e sentido do serviço aos outros, apresentam-se aquelas duas instituições com um Programa comemorativo do seu centenário rico, diversificado e pontuado por momentos cheios de simbolismo.

Na cultura e na solidariedade são duas instituições incontornáveis do concelho da Horta e dos Açores, cuja importância e papel, nas suas áreas respetivas, nunca será demais realçar e enaltecer.

2. Oficialmente fundada a 12 de Maio de 1912, a Filarmónica Euterpe de Castelo Branco fez, nesse dia, a sua apresentação ao público, iniciando um trajeto de intervenção cultural que, como em qualquer outra instituição similar, viveu momentos altos e baixos ao longo deste século de existência, alternando os períodos de maior fulgor com outros menos exuberantes. Desse trajeto, é obrigatório recordar, com vénia e respeito, todos aqueles anónimos que pelas fileiras da “Euterpe” passaram, especialmente as centenas de músicos amadores, todos prescindindo do seu tempo de descanso e da sua vida pessoal e familiar para aprenderem música e para a executarem com harmonia e perfeição. Todos eles cumprimento, com respeito e consideração, nas pessoas daqueles que hoje, nesta data memorável, são os responsáveis primeiros da Direção (Sr. Manuel Humberto Silva Santos) e da Direção Musical (maestro José Amorim Faria de Carvalho). 

3. Criada a 16 de Maio de 1912, a Associação de Bombeiros Voluntários veio a assumir a designação “Associação Faialense de Bombeiros Voluntários”, mas hoje ostenta o nome de “Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Faial”. 

Para além do combate aos incêndios, os bombeiros estão sempre presentes no serviço de socorros a náufragos, nos serviços de saúde e de emergência e no apoio às populações nas intempéries e nas calamidades naturais. Em todas essas áreas, a sua ação é inestimável e, infelizmente, nem sempre acarinhada como merece e se exige. Mantendo uma componente maioritária de voluntariado, os nossos Bombeiros são, frequentemente, o salvador  amigo e disponível que a todos indistintamente ajuda nas situações de maior dificuldade e perigo. A todos eles expresso o meu respeito e consideração, nas pessoas do atual responsável pela Direção (Sr. Hélio dos Santos Teles Pamplona) e Comandante (Álvaro António Pimentel Soares de Melo).

4. No passado mês de Março, o Governo Regional divulgou a sua intenção de classificar a “Colónia Alemã”, como forma de assinalar o “período áureo da construção dos cabos submarinos que, com epicentro na Horta, ligaram os Açores ao mundo”.

Ainda de acordo com o Governo, a classificação “abrange o vitral do edifício residencial e central da companhia alemã Deutsche Atlantische Telegraphengesellschaft que, em 26 de Maio de 1900, fez a ligação por cabo submarino entre a cidade de Borkum e a Horta, marcando uma revolução nas comunicações da época”. Acrescenta ainda o Governo que “após a conclusão da obra de grande reparação da Escola Básica Integrada da Horta está prevista a afetação parcial da Trinity House (“Operating Room”) para núcleo museológico”.

Esta é uma decisão que merece aplauso, pois nela está implícito o reconhecimento da importância histórica e arquitectónica da presença das companhias dos cabos submarinos na Horta, que se manteve durante cerca de meio século.

Mas, infelizmente, como quase tudo o que aqui faz este Governo, é uma decisão que peca por falta de ambição. Desde logo, por restringir o objeto da classificação à “Colónia Alemã”, quando outras e tão ou mais importantes colónias aqui estiveram e deixaram a sua marca. O que devia, efetivamente, ser objeto de classificação, de tratamento museológico e de criação de um roteiro histórico era a “Horta dos Cabos Submarinos”, pois, isso sim, permitiria uma abordagem mais completa à realidade e à verdade históricas.

O ostracismo a que, por exemplo,  a “Horta do tempo dos Cabos Submarinos”, a “Horta dos Dabney” ou a “Horta dos Clippers” têm sido votados em termos de criação de mais valias histórico-culturais é bem demonstrativo, pela negativa, da forma como não temos conseguido aproveitar a riqueza de um passado que não se esvaiu com a memória,  mas que, pelo contrário, permanece presente, visível e palpável na cidade da Horta de hoje.  Quantas pequenas cidades como a Horta, se tivessem um passado rico e multifacetado com o nosso, não o teriam já potenciado e aproveitado?

O que nos resta em oportunidades, riqueza e pluralidade do nosso passado, falta-nos em engenho e vontade de o potenciar. 

Daí que me pareça que, embora positiva, esta decisão do Governo Regional peca por falta de ambição.

E é, também, uma decisão com laivos da mais pura hipocrisia. É que o Governo que, com tão louváveis propósitos, “classifica” (e, portanto, preserva) a “Colónia Alemã” como forma de assinalar o “período áureo da construção dos cabos submarinos”, é o mesmo Governo que toma a iniciativa e assume a decisão de destruir um dos imóveis do património das Companhias dos Cabos Submarinos na cidade da Horta: a “Casa das Baterias”. 

E vai-se demolir a “Casa das Baterias” porquê? Porque, diz o Governo, é “uma edificação secundária” e constitui “oportunidade única de acesso ao complexo escolar da EB 1,2 António José de Ávila”.

Com argumentos destes, estamos conversados.

 

 
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