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24
agosto

SÍNTESE HISTÓRICA DO PADRE JOSÉ ANTÓNIO CAMÕES (V)

Escrito por  José Trigueiro
Publicado em José Trigueiro

A partir dessa data e certamente até ao falecimento, a sua actividade terá sido essencialmente voltada para o ensino. É nesse período que aparecem outros dos seus trabalhos escritos mais relevantes, nomeadamente os seguintes: em 16 de Julho de 1821, o “Soneto”, de louvor aos Faialenses por se desligarem do governo de Angra; entre 1815 e 1822 escreve o “Relatório das cousas mais notáveis que havião nas Ilhas das Flores e do Corvo” a que demos o título de “Memória da Ilha das Flores”; publica vários poemas, designadamente os seguintes sonetos, que constam do seu livro “OBRAS” : em 16 de Julho de 1821 de “Saudação aos Faialenses”; em 14 de Abril de 1822 de “Elogio ao Faial” onde se congratula pela mudança de governo das Flores e do Corvo da Terceira para o Faial; em 15 de Abril de 1822 de “Acusação a Angra” pela forma ingrata como governou as ilhas das Flores e do Corvo; em Agosto de 1823 de “Crítica à Contra-Revolução de Angra”. 

A propósito dos seus trabalhos poéticos e literários, Pedro da Silveira, na sua “Antologia de Poesia Açoriana do Século XVIII a 1975”, para além de nos dar uma curta síntese biográfica do Padre Camões, selecciona alguns excelentes poemas do “Testamento de D. Burro, pai dos asnos” (13). Aí refere “ser ele um liberal confesso”, que depois de regressar às Flores, “daí em diante viveu exclusivamente do ensino” e que, “nos últimos anos, rezam as memórias locais, chegou a passar bastantes necessidades, pois que, em vez de amealhar, gastava todo o dinheiro em livros”.

Entretanto, em Março de 1821, a Câmara Municipal de Santa Cruz prestava informação sobre o préstimo ao seu serviço no ensino.  

Julgamos que os seus trabalhos literários se encontram esgotadas, pelo que se recomenda a leitura do livro “OBRAS”, já referido nesta biografia, editado em 2006 pela Câmara Municipal das Lajes das Flores. Nele pode analisar-se, para além dos pormenores da sua atribulada vida, a forma brilhante como manobrava as letras. 

Sabe-se que tinha uma excelente biblioteca e que, para além de gastar as suas economias com os pobres e com todos os que dele necessitavam, era nela que fazia os investimentos mais significativos, graças ao seu interesse ilimitado pela cultura e pelo saber. 

O Padre Camões faleceu em 18 de Janeiro de 1827, “tendo os sacramentos ao moribundo necessários, não fez disposição alguma, por ter algumas dívidas sabidas e os trastes não darem para pagamento delas. Teve um ofício de corpo presente com a assistência de quatro religiosos de S. Francisco e foi o seu corpo amortalhado com as vestes sacramentais e foi acompanhado com o colégio desta Paroquial Igreja do Apostolo S. Pedro de Ponta Delgada desta ilha das Flores, e nelas está sepultado no cruzeiro Paroquial”, como consta da sua certidão de óbito, assinada pelo Vigário Manuel Luís da Silveira (14). Tinha apenas 50 anos de idade. Não obstante essa certidão indicar que os seus restos mortais foram sepultados na paróquia de Ponta Delgada, Ferreira Drumond, certamente por erro ou por falta de investigação adequada, escreve que “jaz na sua igreja de Santa Cruz” (15). Em face desta informação, Reis Leite comete o mesmo erro, referindo que o Padre Camões faleceu em Santa Cruz. Drumond escreve ainda que “ele mandou por em um epitáfio sobre a sepultura: “Hic ego qui jaceo, tenerorum lusor amorum,/ Ingenio perii Naso poeta meo”, facto que não pudemos confirmar (16). 

Citando Ferreira Drumond e Jacob Tomaz, Francisco António Gomes escreve que, “vivendo então somente de ‘esmolas da missa e de alguns sermões que escrevia aos pregadores da ilha’”, morreu tão pobre que não fez qualquer testamento e que dos “trastes referenciados não estaria incluída, certamente, a sua biblioteca, que um inventário chegado aos nossos dias quantifica em 241 livros que vão da filosofia à gramática, da teologia à medicina, da história ao direito canónico, da poesia à geometria” (17).  

A sua secretária, que terá sido trazida em 1926 da freguesia de Ponta Delgada pelo Padre José Francisco Soares para a vila de Lajes das Flores quando este ali paroquiou, encontra-se hoje na posse de João António Gomes Vieira, que oportunamente a adquiriu para si aos herdeiros deste sacerdote. 

Nos últimos anos de vida, depois de poderosas forças e interesses pouco claros haverem destruído a sua dignidade e o seu prestígio, pouco se sabe da forma como conseguiu sobreviver; a partir de que data terá deixado de leccionar como professor régio? Sabe-se apenas que faleceu abandonado e pobre, e o seu fim terá sido semelhante ao do distinto poeta português, Luís Vaz de Camões, que, como referimos, esteve na origem do seu nome. 

Da sua biblioteca pouco se sabe, não obstante Jacob Tomaz me ter dito que uma parte dos livros que me ofereceu, aí por volta de 1989 – constantes hoje da minha biblioteca, editados nos séculos XVIII e XIX nas línguas portuguesa, latina, italiana, francesa e espanhola – terão pertencido ao Padre Camões. Essa é também a nossa opinião, comparando a sua letra nos registos de nascimentos com a de alguns apontamentos ou notas que constam desses livros. Por outro lado, as temáticas desses livros enquadram-se na sua vocação profissional, já que os mesmos são essencialmente de natureza religiosa, de instrução e de poemas. Trata-se de livros que Jacob Tomás recolheu da biblioteca de Lino Augusto Santos (1892-1961) que, nalguns deles, também deixou referências suas.

Com coordenação de Machado de Oliveira, o jornal “As Flores” iniciou em 13 de Outubro de 1994 a publicação da “Biografia e transcrição das suas obras, conhecidas” que, embora com várias interrupções, se encontra dispersa ao longo de vários exemplares. Essa publicação, que constituiu uma excelente divulgação da obra do Padre Camões, manteve-se até Julho de 2000, mas não estou certo que tenha sido totalmente feita (18). 

A figura do Padre José António Camões, que se distinguiu pelo sucesso que obteve nas letras, como poeta e como professor – partindo da mais miserável existência – merece o respeito e a admiração de todos os que conhecem o prestígio que atingiu na sua atribulada e polémica vida, essencialmente vivida na ilha das Flores, onde nasceu e morreu. 

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BIBL: “O Padre José António Camões uma Tentativa de Bibliografia - Separata do Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira”, Vol. XLV, 1987, de José Guilherme Reis Leite; “Anais do Município das Lajes das Flores”, 1970, de João Augusto da Silveira; “Arquivo dos Açores - O Padre Camões” Vol. VIII; “Anais da Ilha Terceira”, 1859, Vol. III, p. 254 a 257, de Francisco Ferreira Drumond; Jornal “Correio da Horta”, de 8-5-1984; Jornal “O Monchique”, de 30-4-2002; Jornal “As Flores” de 13-10-1994 a 29-7-2000; “OBRAS - Memórias da Ilha das Flores, Testamento de D. Burro Pai dos Asnos, Os Pecados Mortais e Poemas Dispersos”, 2006, pp. 21 a 35, do Padre José António Camões, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores. 

 (14). “Anais do Município das Lajes das Flores”, nota 62 à p. 89, de João Augusto da Silveira e fotocópia do livro de registos de nascimentos que temos em arquivo.

(15). “Anais da Ilha Terceira”, 1859, Vol. III, p. 257, de Francisco Ferreira Drumond.

(16). “Anais da Ilha Terceira”, 1859,  Vol. III, p. 257, de Francisco Ferreira Drumond. 

(17). Jornal “Correio da Horta”, de 8-5-1984, artigo de Francisco António Gomes.

(18). Jornal “As Flores”, edição de 13-10-1994 a 29-7-2000, coordenação de Machado de Oliveira.

 

 

 

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