Sacerdote, político e orador de mérito
Natural da freguesia da Caveira, concelho de Santa Cruz das Flores, onde nasceu em 31 de Julho de 1881, era filho de Francisco de Freitas Coelho e de Leocádia Vitorino Korth. Foi o primeiro padre do curato da Fazenda, onde se manteve até ao seu falecimento.
Depois de concluir o exame complementar da instrução primária na escola da sua freguesia, ingressou no Seminário de Angra do Heroísmo em 1896. Foi um dos melhores alunos do seu curso, como pudemos constatar através do Boletim Eclesiástico dos Açores dos últimos anos desse curso, encabeçando, quase sempre, as listas dos seminaristas. Terá sido seminarista mais brilhante do seu tempo daquele Seminário. Monsenhor Dr. Caetano Tomás afirmou que ele e alguns outros florentinos, só não terão ido frequentar a Universidade Gregoriana de Roma, por conta da Diocese, por serem das Flores. Segundo ele, durante muitos anos, os padres florentinos foram geralmente preteridos e pouco apreciadas as suas qualidades (1).
Em 1905 concluiu o respectivo curso, com a sua ordenação sacerdotal. Regressado às Flores, e já pelas festas do Senhor Bom Jesus, da sua freguesia natal, proferiu o seu primeiro sermão, que foi desde logo muito apreciado por todos os fiéis presentes.
Na igreja dessa localidade, em 28 de Janeiro de 1906, em solene festa eucarística, celebraria a sua Missa Nova, contando então com a presença de muitos fiéis e das principais autoridades da ilha, como era costume nesse tempo em comemorações dessa natureza (2).
Em 13 de Fevereiro desse ano era nomeado para o curato da Fazenda, a criar nas Lajes das Flores, sendo então o primeiro sacerdote daquela localidade, cuja igreja, inaugurada em 25 de Março, contou já com a sua presença. Presidiu à referida inauguração o ouvidor das Lajes, Padre Filipe José Madruga, natural das Lajes do Pico. Contudo, o Padre Korth, para além de ser um dos concelebrantes da eucaristia, foi o respectivo pregador, tendo-o feito de forma brilhante e de “modo arrebatador”, conforme escreveu o Padre Júlio da Rosa anos depois (3).
Como faltassem alguns acabamentos nessa sua nova igreja, nomeadamente os altares laterais, consta-se que esses acabamentos se fizeram já sob a sua orientação entre os anos de 1906 e 1910, bem como a aquisição de algumas imagens. O altar-mor havia sido feito na cidade da Horta, nas oficinas do “Ratinho”, Manuel Augusto Ferreira da Silva, um artista irmão do Padre João Pereira da Silva; os altares laterais terão tido como artistas os marceneiros Manuel Maria da Costa e José Maria da Costa, irmãos, de Santa Cruz das Flores, onde terão sido executados em 1909; as pinturas e douramentos terão estado a cargo dos pintores Cunha de Braga e Félix, supõe-se que da ilha Terceira, executados em 1910, trabalhos já executados com a sua douta opinião (4).
Na localidade da Fazenda, que em 1919 viria a ser elevada a freguesia, o Padre Korth manter-se-ia o resto da vida, nela cumprindo, com invulgar capacidade e competência, as exigências do seu múnus sacerdotal (5). Segundo se dizia, rejeitou convites promocionais e prescindiu colocações noutras localidades maiores e mais importantes, mantendo, contudo, a Fazenda como curato da vila das Lajes. A freguesia só conseguiu ser elevada a paróquia depois do seu desaparecimento, em 10 de Novembro de 1959, pela mão do Padre José Vieira Gomes.
Aí gozava de grande respeito, prestígio e admiração, extensivos a toda a ilha, quer junto das populações, quer junto dos seus colegas e das autoridades florentinas, devido à sua forma altiva de estar na vida, aliada à elevada cultura que possuía e à sua forte personalidade (6).
Era excelente orador, tendo sido considerado um dos melhores e mais prestimosos pregadores da Diocese, fazendo-o com avisada prudência, actualização constante e irrepreensível exigência. Seguia sempre com rigor a doutrina e as orientações religiosas e hierárquicas da Igreja Católica. Escrevia previamente os sermões de maior responsabilidade, fazendo-os com o brio e a dignidade que o caracterizavam, valorizando com os seus dotes naturais. Era um óptimo mestre no português e no latim, possuindo primorosos dotes oratórios, designadamente uma excelente dicção que muito o valorizavam como pregador (7). Terá sido o sacerdote florentino mais solicitado do seu tempo como orador.
Não obstante o cuidado que sempre tinha no usava da palavra, certa ocasião, aí por volta de 1916 ou 1917, quando se encontrava a proferir no púlpito da igreja Matriz de Santa Cruz o sermão da Paixão na Sexta-Feira Santa, certamente por ter visado o poder constituído, foi-lhe dada voz de prisão pelo Administrador do Concelho. Este seria o santacruzernse Fernando Amorim Armas. Mesmo do púlpito, depois de afirmar calmamente que se apresentaria logo que concluísse o sermão, o Padre Korth continuou a sua pregação. Seguidamente, descendo as escadas do púlpito e despindo as vestes religiosas, apresentou-se logo àquela autoridade. Em face das várias diligências feitas junto desta, acabou por não ser entregue a juízo, considerando o espírito de solidariedade que logo se movimentou. Os fazendenses mais importantes, ao saberem da sua prisão, logo se deslocaram para a vila de Santa Cruz, onde diligenciaram na sua libertação. Estava-se no tempo da 1ª. República, período em que a Igreja e os seus ministros foram muito perseguidos e vexados pelo poder instituído depois da queda da monarquia. Julgo que no tempo o pai daquele Administrador, Fernando Joaquim Armas, era a autoridade máxima do Distrito, isto é, Governador Civil da Horta. Meu avô, Francisco Manuel Armas, fez parte daquele grupo de fazendenses que intercedeu pela sua libertação. Anos mais tarde, por ocasião do falecimento trágico de Fernando Amorim Armas, ocorrido em Outubro de 1923, que se terá enforcado em sua casa, houve logo quem quisesse relacionar esse facto como um castigo da Providência face àquela prisão arbitrária (8).
Assim, com a revolução do Estado Novo, sempre preocupado em conquistar as boas graças da Igreja Católica, o Padre Korth acabaria por assumir em 1928 o cargo de Administrador do Concelho das Lajes das Flores (9). Ocupou esse lugar por mais de uma vez, sempre com isenção e justiça, não obstante nenhum outro benefício concelhio lhe ser particularmente atribuído nessa qualidade.
Vestia com rigor e com rigor se mantinha sempre, sem se envolver demasiado, respeitando todos para assim também ser respeitado e admirado por aqueles que com ele conviviam, quer fossem colegas ou superiores hierárquicos, quer fossem simples paroquianos ou amigos. Com estes nunca se sentava lado a lado, mantendo-se de pé nos diálogos que com eles travava. Embora mantendo-se um pouco distante, era um excelente e credível conselheiro dos seus paroquianos e amigos e, muito especialmente, de todos os que para esse efeito o procuravam.
Era austero e também temido, já que havia jovens que não fumavam nem namoravam na sua frente, não obstante alguns deles o fazerem diante dos pais, mesmo depois de serem maiores de 21 anos. Certa vez, estando na Missa a proferir a homilia, ao aperceber-se que havia fora da igreja um grupo de jovens, foi lá de livro na mão para lhes ler o Evangelho. Nas suas homilias, era demasiado disciplinador e educativo nas repreensões quase directas que fazia aos seus paroquianos.
Há, contudo, quem considere que o progresso educativo, instrutivo e cultural dos jovens fazendenses – nomeadamente das duas ou três gerações que lhe sobreviveram – se ficou a dever, directa ou indirectamente, à sua influência como educador e disciplinador. A professora faialense, Maria Manuela Nóbrega, que leccionou na Fazenda durante toda a sua vida profissional, assim como o marido, o lajense José Gonçalves Gomes, afirmavam publicamente que, na sua opinião, os jovens fazendenses tinham aquelas qualidades, graças às influências deixadas pelo Padre Korth.
Mas lá havia também quem lhe apontasse falhas – quem as não tem? – sobretudo de, nada ter feito, durante 4 cerca anos, de obras de progresso ou empreendimentos de significativo interesse público, quer na igreja, quer na freguesia.
Entre 1 de Julho de 1938 e 1 de Abril de 1940 visitou a Califórnia, onde então tinha familiares e amigos e onde proferiu brilhantes e fluentes sermões, deixando em todos os que o ouviram saudosas recordações açorianas (10).
O seu falecimento ocorreu subitamente em 16 de Janeiro de 1946, e os seus restos mortais, assim como os da irmã, encontram-se sepultados no Cemitério de S. João da freguesia da Fazenda, em campa de mármore mandada edificar pela família que tinha nos EUA (11). Deixou o seu nome ligado a excelentes poemas religiosos que foram e ainda são muito cantados nas igrejas florentinas.
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BIBLI: “Padres das Flores”, 1999, ed. da C. M. de Lajes das Flores, de José Arlindo Armas Trigueiro.
(1) – Trigueiro, José Arlindo Armas, “Monsenhor Dr. Caetano Tomás, ao Serviço de Deus e dos Homens”, (2010), p. 133, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores; (2) - Entrevista a Luís Armas Gomes, de 27-7-1989; (3) - Documento em arquivo na igreja da Fazenda da Lajes e “Revistas da Academia Mariana dos Açores”, pág. 137; (4) - “Revista da Academia Mariana dos Açores”, págs. 137 e 138; (5) - Jornal “A União”, de 23-1-1946; (6) - Jornal “As Flores”, de 26-1-1946 e de 2-2-1946; (7) - “Revista da Academia Mariana dos Açores”, pág. 138; (8) Jornal “O Florentino”, de 6-1923; (9) – Jornal “O Florentino” , de 31-12-1927; (10) - Jornal “As Flores”, de 9-7-1938; (11) - “Jornal do Ocidente”, de 10-7-1992.