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23
novembro

A Cartografia da nossa Herança

Escrito por  Alzira Silva
Publicado em Alzira Silva

Estamos a cinco semanas de terminar o Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e Solidariedade entre Gerações. Muitas foram as atividades, iniciativas e ações que pontuaram no Faial, nos Açores, em Portugal e em toda a Europa. Objetivos cumpridos, sensibilizadas populações para as temáticas inerentes à chamada terceira idade, legislação apurada, impõe-se, contudo, uma reflexão.

Os projetos desenvolvidos são importantes para chamar a atenção a esta nova realidade que a evolução demográfica determinou: um número crescente de idosos e uma diminuição de crianças e jovens e para abrir novas perspetivas sobre esta mesma realidade. Uma realidade que se proclama de futuro com os jovens. Impõe-se desde logo a pergunta: estando os idosos a crescer em número estaremos perante o risco de uma sociedade envelhecida e sem futuro? De modo algum. Porque os idosos hoje têm futuro ao contrário do que era comum pensar-se. E porque o número crescente de idosos corresponde também a um crescimento qualitativo das suas funções sociais, culturais, económicas (designadamente ao nível de apoio familiar) e até da sua missão de vida.

 A sociedade, no seu cunho ocidental, deixou de “ouvir a sabedoria dos velhos”. Agora que se percebe que, sem os idosos, as nossas sociedades ficariam a um passo do colapso, há que lembrar a sua relevância não apenas na sabedoria mas nos contributos concretos que, quotidianamente, dão à sustentabilidade familiar, social e cultural (designadamente a nível de voluntariado e formação cultural).

Em muitos países para além da Europa (dou como exemplo o Brasil) emanam propostas e concretizam-se projetos fundados na Identidade Cultural, na consciência dos valores sociais e culturais passados de pais para filhos e de geração para geração. Emergir e estimular a partilha e divulgação de memórias, registar e socializar esta Memória contribuindo com o desenvolvimento social e cultural das comunidades é um desafio que enfrentamos e a que teremos, brevemente, de dar respostas.

Este património imaterial exige uma âncora para não se perder. Uma âncora que não vamos “oferecer” apenas às entidades oficiais mas convocar a chamada sociedade civil porque é responsabilidade de todos e de cada um de nós. Com grande interesse e de viva voz temos entre nós a matéria-prima das vidas e dos testemunhos riquíssimos, que nos permitem enveredar pela premissa cultural como vetor de inclusão.

Pelos caminhos da diáspora, nós chegámos longe. Impõe-se igualmente resgatar as memórias dessas gerações em risco de desaparecimento. As Comunidades emigradas levam algum avanço nesta matéria; no Brasil, no Uruguai, no Canadá e nos Estados Unidos, muitas têm sido as iniciativas para registar e fruir os bens patrimoniais em risco.

O objetivo destes projetos é, na sua maioria, dar voz, cara, endereço à pessoa idosa com os seus saberes e fazeres, salvaguardando a sua/nossa identidade cultural. Mostrar o seu valor cultural, registrando e difundindo os seus conhecimentos e a riqueza que encerram antes que se percam nas dobras do tempo. E, principalmente, contribuir para o desenvolvimento social e sustentável das comunidades a partir do conhecimento e da difusão da cultura popular tradicional: os Saberes e Fazeres de nossa gente, informando, conhecendo e colhendo informações sobre as manifestações mais significativas da nossa cultura e do público-alvo – os Idosos – para, afinal, traçar uma cartografia da nossa herança. É o bordado das palavras, como numa grande almofada de renda de bilro em que se entrelaçam de fios, o tempo tecido, registando mundos aproximados, partilhando semelhanças e diferenças num desenho que vai do imaginário ao mundo real dos açorianos de todo o Mundo - permitam-me que parafraseie a socióloga Lélia Pereira Nunes - que circulam nas Esquinas das Ilhas.

 

 

 

 

 

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