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30
novembro

Austeridade, precariedade e greve

Escrito por  M. Patrão Neves
Publicado em Patrão Neves

Esta não é uma crónica “politicamente correcta”, ou seja, não segue obediente e receosamente o discurso que os grupos sociopolíticos mais activos adoptam e a comunicação social subscreve e divulga como novo léxico ideológico; esta crónica pode ser mesmo considerada “politicamente incorrecta” porque ousa exprimir uma voz diferente da que habitualmente se faz ouvir não sendo necessariamente maioritária. Em todo o caso, trata-se meramente de uma reflexão sobre o tema comum da “greve”, desafiando o discurso monológico que sempre suscita.

Afinal, que a greve é um direito inalienável é já uma verdade interiorizada e respeitada na sociedade portuguesa, desde as últimas décadas. Não insisto pois mais neste truísmo.

O que hoje me parece mais pertinente debater é se a greve consiste no melhor meio, no tempo presente de crise económico-financeira generalizada, para alcançar os fins que o seu anúncio vem apregoando: combater a austeridade e a precariedade.

Comecemos pela austeridade. Como sabemos, toda a greve causa prejuízo na actividade económica em que decorre. Aliás, este é precisamente o efeito de coação desejado para obtenção do que os grevistas pretendem. Porém, na situação económico-financeira em que o país se encontra, a possibilidade de melhoria das condições de trabalho a curto prazo é remota e o único efeito imediato da greve é o próprio agravamento da actividade económica do país, causa da actual austeridade. A greve resulta hoje, sobretudo, no agravamento e no prolongamento da austeridade.

Passemos à precariedade. Entre os primeiros e mais afectados sectores pela greve estão as pequenas e médias empresas. São estas que, quando sólidas, oferecem empregos mais seguros e mais contribuem para o dinamismo económico de um país. Hoje, porém, encontram-se muito debilitadas e são muitas as que fecham quotidianamente. A greve acelerará o encerramento de muitas outras, provocando o aumento do desemprego a este nível, bem como o aumento da precariedade nas empresas maiores, também elas se debatendo frequentemente com problemas de sustentabilidade.

De facto, hoje, na situação em que o país se encontra, os únicos directos beneficiados das greves são os sindicalistas que as organizam, cujo prestigio é proporcional ao número de pessoas que conseguem mobilizar para a greve. Chamam-lhe "investimento" em mais e melhor emprego. Será…, no futuro…? No presente, debilitam a actividade económica do país, agravam a precariedade e aumentam a austeridade; são, por isto, contraproducentes.

E vou ainda mais longe. A greve hoje não poderá mesmo ser ofensiva para 15,8% da população activa portuguesa?! Esta é a percentagem correspondente aos 870 mil de desempregados em Portugal que, enquanto desesperam por trabalho, assistem, impotentes, à abdicação voluntária de trabalhar por quem ainda tem emprego.

Lutemos contra a austeridade e a precariedade, sim, através de manifestações (que têm a mesma expressão de uma greve, sem afectar a economia); mas não as agravemos por meio de greves.

 

www.patraoneves.eu

 

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