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26
abril

Retalhos da nossa história – LXXV

Escrito por  Fernando Faria
Publicado em Fernando Faria


No Centenário da República Portuguesa (5) 

7. As grandes festas do 1.º aniversário 

À semelhança do que aconteceu nos centros urbanos de todo o País, também na cidade da Horta se promoveram actos de celebração dos primeiros doze meses do regime republicano. Várias manifestações, preparadas minuciosamente pela comissão distrital do Centro Republicano e a que aderiram as principais autoridades, organismos culturais, recreativos e desportivos, “revestiram-se duma imponência raro vista, concorrendo todas as classes sociais, do melhor grado numa espontaneidade admirável e com um entusiasmo indescritível, para que elas fossem além de toda a expectativa e para que a sua significação se tornasse iniludível.”1 Este ambiente de entusiasmo surge relatado nos três jornais faialenses que então se publicavam, com uma adjectivação presumivelmente exagerada, mas sendo todos unânimes em classificar de “bastante imponentes os festejos realizados nos últimos quatro dias”2, mesmo de “imponentíssimos festejos” ou de “a festa mais imponente a que o Faial tem assistido”3.

Na madrugada do 5 de Outubro de 1911 houve alvorada, na Praça da República, com salva de 21 morteiros seguindo-se desfile com muito povo pelas principais ruas da cidade abrilhantado pelas filarmónicas União Musical e União Faialense. Uma sessão na Câmara Municipal, a que compareceram “diferentes comissões republicanas, professores primários e alunos, representantes das associações operárias e comercial, das sociedades Amor da Pátria e Luz e Caridade, da Misericórdia e asilos, repartições, magistrados e funcionários públicos, oficiais de terra e mar, corpo consular, corpo docente do liceu e grande concurso de povo”4, deu o toque solene às comemorações. Naturalmente, também estiveram presentes os membros da Comissão Municipal – Manuel Joaquim Dias, presidente em exercício, Florêncio José Terra, João Pereira Gabriel, Manuel Peixoto de Ávila, Francisco Ferreira da Silva, José da Silva Cardoso e Olímpio Raposo de Oliveira. Enaltecendo as virtualidades do novo regime e as qualidades de carácter e de alma do primeiro Presidente da República Dr. Manuel de Arriaga, discursaram o presidente da comissão municipal, o governador civil Augusto Goulart de Medeiros, o Dr. António Emílio Severino de Avelar e o primeiro-tenente da armada Artur Sales Henriques, comandante da canhoneira “Açor”. Não deixa de ser curioso assinalar que um destes quatro oradores fora o último governador civil monárquico do distrito da Horta e o líder local do partido regenerador que, em massa, aderira ao regime republicano no fim de Outubro de 1910. Esta circunstância não escapou ao sagaz António Baptista que, ao descrever os festejos do primeiro aniversário da República no seu jornalJustiça de 6.10.1911, e referindo-se àquela sessão solene regista que “falou também o sr. conselheiro Severino de Avelar, aludindo a uma viagem que, em estudante, fizera com o sr. dr. Manuel de Arriaga e avançando que ‘a natureza é boa, que o homem é bom por natureza, e que só a educação o perverte’. E, de forma ácida e jocosa, adianta que foi isto que “nos contaram porque não tivemos o gosto de o ouvir”. Avançando abertamente numa verrinosa crítica a quem servira a monarquia e agora louvava a república, escreve “que sua ex.ª falou muito a contento de certos talassas, os quais, tendo já perdido as esperanças nos manejos de Paiva Couceiro, as põem agora na entrada dos velhos caciques para o serviço do novo regime”. E, lamentava esses “coitados, que vão vivendo de esperanças, e vão caindo de desilusão em desilusão, até que a lepra do ódio os consuma”. Era o sinal de que a festejada República se estava dividindo, que os “históricos” e os “conversos” se não entendiam e que as lutas fratricidas no campo republicano se iriam acentuar.

Voltemos, porém, às comemorações do primeiro centenário. Após a sessão solene, realizou-se mais um inevitável e “imponente cortejo cívico, em que tomaram parte todas as corporações oficiais e particulares” que se dirigiu à casa da família Arriaga, onde o governador civil e o presidente da Câmara desvendaram uma lápide com a seguinte inscrição: Casa onde nasceu o primeiro Presidente da República Portugueza Dr.Manuel d’Arriaga. Daqui prosseguiu o desfile até ao largo de Santa Cruz, sendo aí descerrada pelas mesmas entidades outra lápide com a legenda: Largo Dr. Manuel d’Arriaga. A multidão, que se incorporava no préstito juntamente com as diversas autoridades e com as filarmónicas União Faialense, União Musical, Nova Artista Flamenguense e Artista Faialense, levantava constantes saudações à Pátria, à República e ao Dr. Manuel de Arriaga. As principais ruas estavam ornamentadas com bandeiras, flores e balões, encontrando-se à entrada da rua Vasco da Gama, um grande arco de verdura, feito pela guarnição da canhoneira “Açor”, ornamentado com aprestos marítimos e de guerra, tendo ao alto em letras vermelhas e verdes as expressões “Viva a República / Pátria e Liberdade”. Jantares aos pobres, às crianças das escolas, regatas, fogo de artifício, arraiais, iluminações e quermesses, sempre animadas pelas filarmónicas que, no Jardim Público, executaram em conjunto a grande marcha Rotunda, especialmente composta pelo maestro Francisco Xavier Symaria, foram igualmente elementos preponderantes das festas do primeiro ano da República. 
 

8. O Fayal Sport nas comemorações republicanas 

Nascido ainda em “tempo de reis”, (2.2.1909) o Fayal Sport Club também se associou às comemorações da implantação da República. Em meados de Julho formou uma comissão que se encarregou da elaboração de um vasto programa desportivo e cultural e que era composta pelos sócios Florêncio José Terra Júnior, Franklin Dutra, José de Macedo, Luís Morisson de Oliveira, Manuel Stattmiller e Thiers de Lemos. Como era de prever, foi bem sucedida a iniciativa do actual decano dos clubes desportivos açorianos. A imprensa da época não lhe regateou elogios, escrevendo-se mesmo que “foram deslumbrantes de entusiasmo e imponência as festas que o FSC promoveu [no Domingo, 8 de Outubro] para comemorar o 1.º aniversário da República Portuguesa”5. O programa que foi escrupulosamente cumprido teve estas cinco partes:

a) alvorada às 6 horas, na Praça da República, pela filarmónica Artista Faialense, salva de 21 morteiros, e cortejo pelas ruas da Horta;

b) música na Praça da República das 10.30 às 12.30 e corridas pedestres para crianças; c) certame de desportos atléticos, pelas 14.30 horas no campo de futebol da doca presenciado por cerca de três mil e quinhentos espectadores e que constou de 12 provas, nomeadamente corridas, lançamentos, estafetas, barreiras, lutas de tracção, saltos em comprimento e altura. Além dos atletas portugueses, participaram equipas das companhias telegráficas inglesa e alemã, sendo o júri destas provas formado pelo governador civil Augusto Goulart de Medeiros, Florêncio Terra, António da Cunha Menezes Brum, F. Chevalier, S. M. Wood, Carlos Pinheiro e H. Sauer.

d) Pelas 19.30 horas realizou-se uma sessão solene, no salão do Grémio Literário, sendo entregues os prémios aos vencedores das provas realizadas e discursado o chefe do distrito e o padre José Osório Goulart que “saudando em primeiro lugar a República Portuguesa, fizeram a apologia da agonística pela influência que exercia sobre o revigoramento das raças, sendo no fim levantados calorosos vivas à Pátria, à República, ao dr. Manuel de Arriaga, ao governador civil, aos deputados pelo distrito da Horta, ao clero liberal e ao Fayal Sport Club”6.

e) O derradeiro acto desta festa constou, como era usual ao tempo, de uma marcha “aux flambeaux”, com grande participação popular, abrilhantada pelos acordes da filarmónica Artista Faialense entremeados dos habituais vivas às instituições e às individualidades que personalizavam o regime que se elogiava.

Assinalando esta efeméride, o FSC editou o jornal Sport – número único com a data de 8 de Outubro de 1911 – e que, em artigo de fundo, faz uma excessiva apologia da República, que “nos livrou da ignomínia e da escravidão”, e em outras prosas, tece os maiores elogios ao presidente Dr. Manuel de Arriaga, “o grande homem que o País venera”, ao governador civil Goulart de Medeiros “uma bela alma, exuberante de vida”, e ao senador Dr. José Machado de Serpa, “orador de palavra límpida e austera, bom e preclaro homem honrado”. Insere ainda o “Hino Nacional”, poesia de Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil.

O que em Outubro de 1911 se festejou foi um regime ainda tutelado e dirigido pelo Partido Republicano Português (PRP), a única força política que dominava o País. Mas, já neste ano, a luta decisiva pelo controlo da direcção do PRP deu a vitória aos radicais de Afonso Costa, obrigando os moderados a constituírem outras associações políticas,  precisamente o Partido Evolucionista, de António José de Almeida, e o Partido Unionista, de Brito Camacho. Desunido para sempre o bloco republicano, com os monárquicos de Paiva Couceiro em furtivas e desgastantes incursões no norte de Portugal, com a intensificação do terror e “das entusiásticas perseguições à ‘reacção monárquico-clerical”7, entrou-se numa fase de desvario, aliás bem demonstrado pela sucessão de governos e pela agudização da crise económica e social. Se era nos grandes centros que acontecia muito do “tumulto da demagogia desvairada”, a periferia também lhe sofria as consequências. Daí as dificuldades que atingiram as ilhas dos Açores. Daí a razão porque em 1912, decorridos apenas doze meses sobre as grandes festas do 1.º aniversário da República, a Câmara Municipal da Horta, presidida por Manuel Joaquim Dias e com os mesmos vogais do ano anterior, não tenha promovido qualquer acto para recordar a efeméride, chegando ao ponto de se haver esquecidode, pelo menos, a assinalar no Livro de Vereações!

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