Imprimir esta página
01
março

O Futuro Hipotecado

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira
Todos nós sabemos que para se ultrapassar a situação de crise é preciso reestruturar, redefinir e, logicamente, cortar. Todos nós temos vindo a tomar consciência de que perante esta realidade nada será como dantes, pelo menos na próxima década. Conscientes da situação, os portugueses assumiram os sacrifícios que lhes foram pedidos e agiram dentro desses parâmetros, mas as trapalhadas em catadupa do governo arrasam qualquer esperança duma solução eficaz para os nossos problemas. 
Começando pelos nossos credores, constata-se que a receita que nos estão a aplicar não é a mais correta, como foi reconhecido por Christine Largarde, ao admitir erros nas previsões; erros que podem alterar a vida de um povo, mas, nem por isso, os proponentes dessa receita mudaram o rumo nem se dignaram avançar com um pedido de desculpas.  
Para cúmulo da nossa desgraça, os executantes da política proposta pela Troika ainda são mais obstinados. Ultrapassam o que nos é pedido e parece não se preocuparem com as consequências a médio prazo. O interesse pelo imediato conduz a políticas desastrosas como, por exemplo, as que estão sendo aplicadas na saúde e na educação. Quem analisar estas políticas, mesmo só na vertente economicista e contabilística, constatará que essas medidas trarão consequências nefastas para a sociedade portuguesa. 
Tudo isto acontece numa altura em que o país estava a descolar de forma positiva em virtude dos investimentos efetuados nos últimos anos. Como exemplo, refira-se para a área da educação o grande salto qualitativo na investigação científica ou os resultados positivos na aprendizagem da Matemática; no campo da saúde aponte-se a descida da taxa da mortalidade infantil, o aumento da esperança média de vida e a melhoria dos cuidados de saúde prestados à população, com reflexos imediatos no seu bem-estar. 
Dir-se-á que o nosso nível de desenvolvimento não sustenta tamanha despesa. Aceito que o Serviço Nacional de Saúde possa e deva sofrer ajustamentos, de forma a racionalizar a gestão e reduzir desperdícios, mas não aceito o aumento brutal que está a ser lançado sobre os utentes. Os resultados estão à vista e poderão parecer ótimos para as contas do governo, dada a menor procura de consultas nos centros de saúde e hospitais. Mas a médio prazo, as poupanças do presente irão representar despesas no futuro: aumento do número de baixas médicas ou menor rentabilidade no trabalho por debilidades várias, resultantes do aumento da pobreza. Estes custos serão muito superiores aos ganhos obtidos com esta política de cortes e de aumentos exigidos aos cidadãos.  
O caso torna-se mais grave, quando a um país de gente doente se junta um país de analfabetos ou de cidadãos pouco preparados. As medidas apontadas para a área da educação revelam um futuro bem sombrio. O anunciado despedimento de professores, o acréscimo da carga horária, o aumento do número de alunos por turma, são fatores que em nada contribuem para o sucesso escolar. O programa da formação de adultos que tem sido desmantelado e o aumento das propinas no ensino superior, que tem levado ao abandono dos estudos, são outros sinais muito preocupantes. A educação pode ser cara, mas a ignorância não fica mais barata. 
Arrasar benefícios que haviam sido alcançados nos últimos anos nas áreas da saúde e da educação é um caminho que terá fortes repercussões negativas no futuro. Um país de gente doente, mal alimentada, analfabeta ou com fraca preparação académica, é um país que não progride. O afã do governo em querer cumprir a todo o custo as metas que foram traçadas por alguém que errou nos prognósticos, é um erro que nos vai sair caro. 
 
Lido 1144 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários