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24
maio

O CHUPA-LEITE E O CONSENSO COM SENSO

Escrito por  CARLOS ENES
Publicado em Carlos Ferreira

Nos arquivos da paróquia havia um documento bem revelador da maturidade prolongada dos meus antepassados. Conseguiram chegar a um consenso com senso sem ter sido necessário escrever cartas fosse a quem fosse, sem receber ordens de ninguém. Agiram pura e simplesmente pela sua cabeça, olhos nos olhos e pés assentes na terra. 

Numa caligrafia bem desenhada, o pároco conta a história de uma crise profunda, vivida com angústia, por se ter quebrado a única desmamadeira existente. Isso mesmo: uma desmamadeira. 

Para os que não fazem ideia do que isso seja, passo a explicar: era um objeto de vidro, tipo campânula, com uma extremidade em borracha que, ao ser pressionada, provocava vácuo e chupava o leite da mama das parturientes. 

O relator afirma que só havia uma, pertencente ao senhor morgado, mas quis o destino que ela se quebrasse. A partir de então, gerou-se o pânico entre as mulheres. Não só entre as grávidas com entre as candidatas. Ninguém queria passar pela terrível dor do peito inchado a pingar leite, porque o pimpolho se satisfazia depressa.  

Nos primeiros tempos, o caso foi visto com ironia e candidatos não faltavam para tão nobre e cobiçado ofício, dado que os maridos se haviam revelado uns inábeis. Como nenhuma mulher se queria expor ao desfrute público, surgiu então uma proposta de entregar a tarefa a um rapaz cego que existia na freguesia. Alguém não identificado ia ter com ele, fazia um percurso desorganizado, para o desorientar, até à cama da necessitada, mantendo-se um permanente silêncio. Com todos estes cuidados, pretendia-se evitar que o rapaz andasse a publicitar os predicados dos seios desta ou daquela. 

Durante algum tempo o ceguinho cumpriu a sua incumbência sem contratempos e toda a comunidade parecia satisfeita. Passados uns meses, as coisas mudaram: o chupa-leite apurou a técnica do chupanço, estimulou o prazer das mulheres e tornou-se guloso. Quanto mais chupava mais elas queriam e mais ele desejava. De tal modo que o ceguinho magricelas se foi tornando num latagão seboso e anafado. O bem dele era o mal dos outros: com tanta promiscuidade acabou por transmitir um vírus que enfraquecia não só as mães como as criancinhas. E o povo começou a temer o pior: a freguesia definhava nas mãos do chupa-leite, sem solução à vista.  

A raiva e o temor misturavam-se no confronto com o ceguinho. A maioria considerava-o uma encarnação do diabo, com poderes insondáveis, e ninguém se atrevia a enfrentá-lo.

A comunidade abatida pelo desânimo vivia de braços caídos, dominada pelo pavor. Foi preciso o grito de alerta dum jovem rapaz acabado de casar para que todos tomassem consciência da importância da unidade e da determinação. A proposta implicava sacrifícios, mas ponderados os prós e contras, chegaram a um consenso com senso. Era a sobrevivência de todos que estava em jogo. A única forma de derrotar o monstro era cortar-lhe a fonte dos seus desejos, da sua ganância, do seu poder. A partir de então, as mulheres não podiam engravidar. Cada um que se amanhasse como pudesse. E eu – concluiu o jovem nubente – serei o primeiro a dar o exemplo.

Se bem o disse, melhor o fez. Outros seguiram-no, com muito sacrifício, mas com muita imaginação. Inventaram-se formas de amar, patamares de prazer não experimentados, brincadeiras e reboliços não imaginados. E todo esse estado de espírito ficou sintetizado no desabafo do poeta: “O amor cabe num punhado de parvoíces”. Ninguém o entendeu, a não ser os habitantes da própria freguesia que sabiam, compreendiam e desejavam prosseguir a caminhada, renunciando temporariamente ao que de mais íntimo podiam possuir.

E o franzino rapaz ceguinho, que se transformara num monstro gorduroso e insaciável, começou a definhar. As velhotas, conhecedoras de mezinhas seculares, experimentaram várias combinações de ervas até encontrarem remédio para o mal das mulheres e crianças infetadas pelo mostrengo. 

No meio do desespero, o chupa-leite lançou pernas ao caminho e andou oferecendo os seus préstimos por outras freguesias. Ninguém lhe deu ouvidos. Sobreviveu algum tempo a chupar os próprios seios, até secar no canto de uma valeta. 

A paz, o sossego e a confiança voltaram à freguesia. Com senso e determinação haviam ceifado as raízes do mal que os apoquentava. Não direi que viveram felizes para sempre, mas ficou registado que sentiram orgulho no que fizeram.

 

 

 

 

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