Imprimir esta página
05
julho

Políticas europeias in fieri

Escrito por  Maria Patrão Neves
Publicado em Patrão Neves

Estas últimas semanas terão sido certamente das mais intensas nas instituições europeias, com reuniões sobrepostas ao longo dos dias, algumas delas terminando pela madrugada adentro.

A razão prende-se com uma confluência de elementos importantes: a fase final de negociação de várias políticas comunitárias, como a Política Agrícola Comum, a mais emblemática da Europa; a tentativa de resolução do impasse sobre o Quadro Financeiro Plurianual (2014-2020), aprovado pelo Conselho em Fevereiro mas rejeitado pelo Parlamento Europeu; o fim da Presidência Irlandesa da União Europeia, que pretende fechar o maior número de dossiers possível, especialmente os mais importantes como os referidos; a proximidade das férias de Verão e a iminência do atraso de todas estas políticas para Outubro ou Novembro, dado então o reinício das negociações com a futura Presidência Lituana, com graves problemas orçamentais e económicos

O frenesi negocial que dura até ao fim da semana, teve o seu início há cerca de dois anos, quando a Comissão Europeia apresentou as suas propostas legislativas para políticas comunitárias. O Conselho e o Parlamento, co-legisladores, fizeram a sua respectiva apreciação destas propostas, após o que importa tentar conciliá-las. Têm assim lugar os trílogos, reuniões entre o Parlamento e o Conselho, com a presença da Comissão, com o objectivo de obter uma única posição. Eis o que, por exemplo, se alcançou na passada quarta-feira na Política Agricola Comum, na sequência de 42 trilogos.

Com este longo, complexo e francamente difícil processo negocial que, pela primeira vez na história da Europa, envolve 27 Estados-membros e exige a conciliação entre dois co-legisladores, o documento final acordado não pode satisfazer ninguém plenamente tal como não pode desagradar absolutamente. Trata-se de um documento equilibrado que limou os excessos da proposta da Comissão em termos de reforço de medidas ambientais e de supressão de medidas de mercado numa orientação liberal. Há também uma timidamente favorável redistribuição das ajudas directas e um claro e assumido reforço do poder das Organizações dos Produtores.

Após uma apreciação genérica favorável, a crítica segue-se inevitável quando nos centramos no Estado-membro, na Região, e em alguns sectores. Queríamos então necessariamente mais em termos de orçamento para Portugal, queríamos medidas específicas para as RUPs e assim para os Açores, queríamos  um acréscimo de regulação para alguns sectores, nomeadamente para o do leite. Mas não é fácil fazer valer as nossas pretensões quando somos pequenos e estamos divididos. Mas então porque é que não nos tornámos maiores, unindo-nos? Porque é que os dois anos de negociações da PAC decorreram sem que, uma única vez, tivesse havido uma reunião entre o Governo Regional e os eurodeputados para identificar e priorizar objectivos e articular estratégias…? Porquê?

A longa duraçao e multiplicidade de protagonistas na complexidade dos processos europeus, isto é, o palco democrático em que a União Europeia se fundamenta e estrutura, constituem afinal também uma oportunidade excelente de intervenção de todos nós no condicionamento e modulação das políticas europeias.

 

 

 

Lido 1171 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários