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26
julho

Sobre exames e resultados nos Açores

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

1. A Agência LUSA noticiava, na passada semana que “os alunos dos Açores tiveram notas médias negativas nos exames de Português e Matemática do 6.º e 9.º anos, e sempre abaixo dos resultados a nível nacional, segundo os dados disponibilizados pela Direção Regional de Educação.

Nas provas do segundo ciclo do ensino básico (6.º ano), a média nos Açores foi 44,23% a Português e 35,93% a Matemática, sendo que, no conjunto do país, estes resultados foram 52% e 49%, respetivamente.

Já no 9.º ano (terceiro ciclo do básico), as médias nos Açores foram 39,42% a Matemática e 32,18% a Português - a nível nacional foram 48% e 44%, respetivamente.”

2. Perante estes resultados, o Secretário Regional da Educação afirmou que "não podemos ter de maneira nenhuma os maus resultados que temos” e que “perante os resultados obtidos e as condições que temos, há que fazer autocrítica”.

Estas palavras sensatas daquele responsável não podem, porém, fazer esquecer aquela que tem sido a postura dos sucessivos governos regionais e dos sucessivos titulares da educação (e a dele próprio que, no passado Plenário, não conseguiu resistir à tentação de comentar, porque lhe convinha, resultados parcelares de exames nacionais): pronunciar-se sobre os resultados dos alunos dos Açores numa perspetiva anual e parcelar - se são maus, como este ano, é o alarme no sistema educativo e as condizentes declarações de preocupação; se são bons (basta serem melhores que a Madeira!), então é ouvi-los declarar hossanas ao êxito das políticas educativas nos Açores!

Sempre defendi, ao invés, que, quando analisamos e comparamos resultados escolares, temos de olhar para ciclos mais longos e comparar tendências em vez de resultados anuais, que podem variar muito em função de circunstâncias muito diversas que nem sempre são bem o reflexo da realidade.

3. Isto não invalida que, olhando para os resultados verificados este ano, se possa concluir que, objetivamente, eles são muito maus. Mas o nosso histórico, em qualquer um desses exames, é muito curto, pois só desde o ano passado eles se realizam nos Açores, e, por isso, qualquer análise comparativa à evolução do desempenho dos nossos alunos é ainda muito curta. Até 2011, como se sabe, o governo regional havia decidido não fazer nos Açores os exames nacionais, que eram substituídos pelas PASE (Provas de Avaliação Sumativa Externa) e que, como eu sempre disse, não nos permitia comparar os resultados dos nossos alunos, pois, para além de serem provas diferentes, tinham um efeito muito diverso na avaliação final dos alunos.

4. Sou defensor que não devemos absolutizar a importância e o significado dos resultados dos exames. Eles revelam tendências e são elementos comparativos importantes e com significado. Mas, em circunstâncias normais, dou muito mais crédito à avaliação de um docente, que acompanhou, pelo menos durante um ano letivo, os seus alunos e que os conhece naturalmente muito melhor para poder ser mais justo e abrangente numa avaliação, do que tudo resumir a uma prova que o aluno presta em 90 ou mais minutos onde as contingências são muitas e diversas.

O problema é que se continua a insistir nos equívocos e nas contradições do chamado “eduquês”, sobrevalorizando-se, na avaliação final dos alunos, componentes que não são os "conhecimentos". Em resultado disso, as "notas" que os alunos têm não refletem só os seus conhecimentos, mas uma pluralidade, muitas vezes sobrevalorizada, de outras dimensões (como, por exemplo, as atitudes, o interesse e outros) que acabam por contribuir para inflacionar as suas “notas”. E o equívoco de todo este processo é que estes alunos, nos exames, são avaliados essencialmente pelos seus conhecimentos...

5. Ainda a propósito destes resultados, o Secretário da Educação destacou “a importância do alargamento do projeto Fenix, que tem como objeto alvo os alunos com problemas de aprendizagem” e revelou ainda que os resultados nas escolas açorianas serão analisados na próxima reunião do Conselho Coordenador do Sistema Educativo.

A este propósito apenas dois comentários: 

a) o projeto Fénix pode, efetivamente, ser um bom caminho alternativo. Mas o que o Secretário não disse é que o alargamento desse projeto que vai ser feito para o próximo ano letivo, por exemplo nas escolas do 3ºciclo que pretendam agora contratualizar o mesmo, só foram autorizadas duas turmas "Fénix" do 7º ano de escolaridade. O que quer dizer que pode haver muitos mais alunos com negativas a Português e/ou Matemática que não vão ser abrangidos pelo projeto Fénix, com a agravante de as escolas que optarem avançar para este projeto ficarem impedidas de terem apoios nas turmas que não são Fénix. 

b) Tem sentido e é oportuno que o Conselho Coordenador do Sistema Educativo se pronuncie sobre esta questão. Mas, reconheça-se, que pela sua composição, quando o Secretário diz que vai ouvir o Conselho Coordenador do Sistema Educativo, quase que quer dizer que vai ouvir-se a si mesmo. Quase todo o Conselho Coordenador não dá aulas e não conhece na plenitude a realidade profunda das nossas escolas. Por isso, para além de ouvir esse Conselho, impõe-se, escola a escola, ouvir a comunidade educativa, ouvir os docentes que estão no terreno e colher os devidos ensinamentos sobre as causas dos maus resultados escolares nos Açores e do insucesso estrutural que se verifica. Para depois se poder agir na conformidade!

 

23.07.2013

 
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