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02
agosto

Viva a festa do Mar de Agosto

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira

A relação do ser humano com o mar é bastante complexa por todo o nosso planeta. Crenças de vária ordem, nas populações continentais ou insulares, ora as afastam da orla costeira, ora as aproximam numa fusão profunda. Há, por exemplo, insulanos que construíram as suas habitações só no interior da ilha e nem sequer comem peixe, devido a crenças religiosas.

Nos Açores, não chegamos a esses extremos, mas a nossa relação com o mar nem sempre foi muito estreita. Vivemos rodeados de mar por todos os lados, mas vivemos de costas viradas para ele, apesar de importantes mudanças mais recentes. O mar é uma das nossas ligações ao exterior, ao mar vamos buscar alimento, mas o mar contém perigos que o ser humano não domina. Por isso, ele causa-nos inquietação. E logo de manhã quando nos levantamos e o avistamos, a nossa preocupação é saber se está manso ou bravo. E se está mansinho até parece que o nosso espírito também se amansa. O mesmo acontece com o vento ou a chuva, que nos põe a cabeça em turbilhão.  

Mas do mar também nos chegaram e chegam outros pesadelos. Antigamente eram os piratas que nas suas investidas fustigavam e roubavam as populações ribeirinhas; nos dias de hoje, o flagelo do mar bravo é um cutelo pendente sobre os pescadores e respetivas famílias que vivem com o coração na boca.

O mar está presente nas nossas vidas, consciente ou inconscientemente, mas o facto de sermos uma população essencialmente agrícola, fez com que as nossas atenções se virassem predominantemente para terra. Antigamente, a plantação de milho e trigo absorviam a atividade humana, hoje, temos a criação de gado a consumir as energias de quem anda pela lavoura.

Mesmo nos espaços urbanos, os burgueses viravam as costas ao mar. Na marginal da cidade da Horta, as entradas principais dos prédios estão viradas para o interior; na cidade da Praia da Vitória, até há bem pouco tempo o burgo só espreitava a enorme baía que a circunda dos poucos quintais que lhe ficavam sobranceiros. Estes exemplos podem multiplicar-se por muitas outras vilas e cidades do nosso arquipélago.

Durante o século XX, podemos ir registando sinais de mudança. As relações com o exterior trouxerem novas perspetivas de encarar o mar, com destaque para os contactos com a navegação baleeira americana e com a emigração bastante acentuada a partir dos finais do século XIX. Mas é no século seguinte que o mar começa a ser encarado como um espaço de lazer, um espaço onde o homem pode tirar prazer nessa relação. As ligações com comunidades estrangeiras que se fixaram na Horta, na sequência da instalação dos cabos submarinos, tornaram esta cidade pioneira na sua relação desportiva e recreativa com o mar. Homens e mulheres, para escândalo de muitos, praticavam a natação ou faziam regatas, hábitos que se foram generalizando noutras cidades e vilas locais. Os clubes náuticos ou navais foram alastrando por todas as ilhas e hoje ultrapassaram-se aquelas barreiras ancestrais que nos levavam a encarar o mar apenas como uma fonte de perigo. Outro sinal de uma maior abertura ao mar pode registar-se na própria urbanização, com a abertura de avenidas marginais que se espalham por cidades e vilas.

Aos poucos, esta familiaridade com o mar passou a transferir-se para as festas. De tal modo que nos dias de hoje todos procuram tirar proveito dessa ligação para enriquecer o programa festivo. 

Na minha perspetivam Faial e Pico, são as duas ilhas onde a presença do mar faz parte da memória coletiva de forma mais enraizada. A intensa atividade baleeira, a ligação ao mundo através do porto da Horta e da sua marina introduziram vivências que marcam a vida das suas populações. Essa ligação ao mar consubstanciou-se nos últimos anos através de uma festa que leva a Horta a vários cantos do mundo: a Semana do Mar.

E esta festa terá nascido precisamente nessa ligação ao mundo, quando, em 1975, se realizou a Regata Portsmouth-Horta. A receção feita à regata, no início de Agosto, acabou por durar uma semana. Se os da casa gostaram, os visitantes lamberam o beiço. E entre um caldo de peixe e um bom verdelho do Pico foi fermentando a ideia de uma festa que hoje é uma referência náutica mas também cultural e recreativa.

O exemplo da Horta frutificou e muitas outras festividades dedicam uma atenção especial à componente marítima. Agosto é um mês de festa, da festa do mar que ajuda a retemperar energias. Para desgraças basta o inverno.  

 

 

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