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23
agosto

Notas estivais

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

 

UM OBSERVADOR OBSERVADO

O Núcleo Cultural da Horta lançou, no início deste mês, o livro Um observador observado. Depois de, há alguns anos, ter dado à estampa O Faial e os Portugueses, de Thomas Wentworth Higginson (cujos méritos e interesse o levaram a que hoje faça parte do Plano Regional de Leitura), novamente o Núcleo Cultural vem dar a conhecer “um texto da autoria de um viajante americano [Silas Weston], escrito a meados do século XIX e no qual as ilhas do Faial e Pico figuram como objeto exclusivo da narrativa.”

A obra compreende, para além do texto referido (“O que eu vi nas ilhas Ocidentais”), um estudo do Prof. Carlos Guilherme Riley sobre o autor e o seu tempo (“As Ilhas Ocidentais vistas do Ocidente”), um ensaio crítico da Profª Leonor Sampaio da Silva (“As palavras dos outros: escritas, leituras e diálogos à volta de um vulcão” e que foi também a responsável pela tradução do texto para português) e um estudo do Prof. Ricardo Madruga da Costa sobre a visão de Silas Weston (“Por entre neblinas, maresias e vulcões: o Faial e o Pico que Silas Weston conheceu”).

Para aguçar o apetite por mais esta importante obra acabada de editar, importa referir a bela e esplendorosa gravura da época, de Benjamin Russel e Caleb Purrington, que constitui a capa deste livro magnificamente impresso, registe-se, numa gráfica do Faial.

 

FAZER O MESMO COM MENOS RECURSOS

Numa entrevista ao jornal “Correio dos Açores”, José Contente, entre outras afirmações, dizia que “a fase das grandes infraestruturas terá menos peso orçamental no próximo Quadro de Referência Estratégico. Agora chegou o tempo de fazer o mesmo com menos recursos.”

Não é a primeira vez que oiço políticos com responsabilidades executivas afirmarem e exibirem o mesmo tipo de compromissos: fazer o mesmo que faziam no passado, mas com menos recursos, isto é, com menos dinheiro!

E esta afirmação, que tenho ouvido repetidamente e vinda de vários quadrantes, permite, se ela é sincera e verdadeira, uma conclusão imediata: se garantem agora fazer o mesmo com menos dinheiro só pode ser porque antes gastaram mais do que era necessário, gastaram mais do que era preciso, pagaram mais do que o preço real, justo e verdadeiro. E não pode haver perdão nem desculpa por gerir assim os dinheiros públicos!

Todo o sector público português, Estado, Regiões Autónomas e Autarquias, e toda a rede clientelar a eles ligada, deixou-se maioritariamente cegar por esta vertigem do dinheiro fácil, por este pouco rigor em usar dinheiros públicos. Para muitas das verbas que nos vieram, por exemplo, dos programas de apoio comunitários, esta forma de gastar, sem preocupações de contenção e parcimónia, transformou-se quase em norma. O resultado está à vista de todos: investimentos feitos, alguns de duvidosa utilidade, para os quais não iremos ter capacidade de manter o seu funcionamento, investimentos que custaram exageradamente mais do que deviam, e o Estado, Regiões Autónomas e Autarquias, também por causa disso, ficaram a braços com a mais grave, profunda e dolorosa crise das últimas décadas, sem dinheiro para honrar a despesa, os compromissos e a dívida que contraíram!

Mas aquela afirmação pode também encerrar uma nova disposição e uma nova aposta na gestão dos dinheiros públicos, querendo-se genuinamente fazer passar um compromisso nesse sentido. 

Mas, serem os mesmos (que gastaram à tripa forra e que ajudaram decisivamente a arruinar o país e a destroçar o setor público) a virem querer passar a ideia de que a sua ambição é agora esta de fazer o mesmo com menos recursos é… o cúmulo do descaramento! 

 

A GAIOLA DOURADA

Tive a oportunidade de assistir há dias ao filme A gaiola dourada. Realizado por Ruben Alves, esta co-produção franco-portuguesa é uma verdadeira surpresa, não tanto por inusitadas qualidades fílmicas ou artísticas, mas, sobretudo, pela autenticidade e ternura colocadas neste retrato de uma certa emigração.

Dedicado aos seus pais, eles também emigrantes portugueses, o realizador sabe o que filma e nutre especial carinho pela sua condição familiar. Em tom de comédia, ele dá-nos um fresco estimulante, emotivo e terno, sobre uma família de emigrantes portugueses em França e à volta de um conjunto de peripécias que não esqueceremos tão depressa. Apesar da comicidade e da sátira, e até de alguns lugares comuns, o registo é sempre de um otimismo contagiante, sem nunca deixar arrastar o filme para a graçola ofensiva ou para a sátira agressiva e azeda à condição e aos tiques que habitualmente se reconhecem aos emigrantes.  

Sem intelectualismos nem retóricas artificiais, faz bem vermos um filme como este, assumidamente simples e linear, que transpira um orgulho genuíno naqueles nossos compatriotas que um dia decidiram emigrar e que têm entre si muitos que são tão bons como os melhores.

 
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