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13
setembro

O mercado da Horta…as resistentes…

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O  mercado da Horta está agonizante. Caso não seja observado por um bom especialista, ele não sobrevive. Falece. Questão de velhice não será, mas sim de doença prolongada, grave, que o vem minando, sem que surja alguém que, com a devida atenção, o socorra. E é pena! 

Aquele mercado, cujas bancadas estavam totalmente preenchidas, funcionando a todo o vapor, oferecendo-nos os mais variados produtos regionais e outros, foram fechando a pouco e pouco, uma morte lenta, angustiante, uma erosão de todas as células, sem que ninguém se apercebesse. 

A pouco e pouco também os vendedores vindos do Pico, foram desistindo. Aquelas brigas “saudáveis” que dantes havia, à cata da melhor bancada, as corridas à chegada da lancha das nove para ser o primeiro, para ficar no lugar mais estratégico, já não há! Há bancadas para dar e vender. Até as árvores foram-se. Quem sabe, abaladas pela mortandade que as rodeava. Ou mesmo contaminadas por ela. Desapareceram e agora o mercado é o que se vê.

E, ainda falando dos vendedores do Pico, nos tempos que vá lá vão, traziam para além da fruta e hortaliça, produtos da outra ilha, apreciados por todo o mundo. Vinha o pão e o bolo de milho caseiros,  o inhame, morcela, torresmos, linguiça, ovos caseiros, massa sovada e muito mais. Tudo isto seria uma parte daquilo que eles usavam nas suas casas, equivalente por consequência a produtos confecionados com limpeza, requinte e por que não, muito carinho. E, nós, compradores, para além de pagar, ficávamos imensamente gratos por podermos saborear tais produtos. Mas isso também teve o seu fim. Porquê? Penso que devem ter sido “visados pela comissão de censura”. E eles desistiram. Infelizmente! 

E assim, tudo em debandada, o mercado foi-se atrofiando. Resta a estátua, que qualquer dia vai também para o caneco. Bom para ela, porque naquela solidão deve sentir-se um caco.

Mas, como em tudo na vida, há sempre excepções e neste caso lá estão elas. As nossas resistentes. Sobraram duas mulheres rijas, valentes, de cuja  fibra não é feita qualquer pessoa. Ali continuam pés bem assentes no chão, enfrentando adversidades, solidão,  más disposições dos clientes, reclamações, até assaltos, um rol de coisas nada simpáticas, que não mereciam. Sempre de sorriso aberto. Não desespero. Não queixas. Entreajudando-se sem invejas. Prestando favores aos clientes, sempre afáveis, a troco de nada. Devo-lhes muita atenção, muito carinho, muito respeito. São as resistentes! 

Ligia, Maria de Jesus, vocês são umas heroínas. São as nossas padeiras de Aljubarrota, capazes de enfrentar, não castelhanos com a pá do forno, mas portugueses, gregos e troianos, oferecendo agrado, simpatia, generosidade, a todo o mundo, enquanto enviam os próprios problemas para o inferno! Vocês sim, mereciam uma condecoração, diria mesmo uma estátua nesse mercado. Falo sério. Não fossem vocês, já os portões estariam encerrados! Quem reconhece isso? 

Porque terá o mercado chegado a tal extremo? Realmente  houve a preocupação de alindar o exterior. Mas, infelizmente, isso é de somenos importância. Porquê alindar o exterior, quando o interior está vazio? Faz lembrar aquelas pessoas ocas, sem formação, sem inteligência, teimando vestir modelitos de marca. Uma pobreza franciscana.

Quem frequenta o mercado, quer seja da região, quer seja um estrangeiro, vai para olhar os produtos, comprar, porque são eles que atraem. O turista em especial tem interesse em levar produtos da região. E aí, o seu olhar cai sobre o que encontra. Não importa o lugar em que está colocado aquilo que lhe convém. 

O turista que quer apreciar artes vai aos monumentos, mosteiros, palácios, torres. Coisa mais maluca admirar os muros dum mercado, pensando em estilos. Gótico? Barroco? Imagine!

Qualquer mercado que se preze, tem os produtos expostos num amontoado de cestos pelo chão, caixotes de madeira, caixas de cartão, seja lá o que for, oferecendo os produtos que deles saem,  a sua frescura, beleza, qualidade. Que se lixe o recipiente! Balcão, bancada, cesta, saco, o escambau! Necessário só o que sai de lá! Oferecendo-nos, com elegância um belo postal da terra. E, falando em elegância, sempre achei um charme olhar os produtos espreitando descaradamente a meus pés, mesmo dum simples saco de serapilheira. No Egito fiquei hipnotizada com a imensidade de  sacos carregando condimentos de cores variadas, cujo perfume ainda hoje me persegue. Como guardo no coração o carinho que esse povo me dispensou. Não gostaria que sofressem tanto, meu Deus!

Bem, voltando ao nosso mercado, quando era mercado, era assim. Havia de tudo. Dispostos como disse atrás. Produtos nossos. Agora, porém, ou não temos nada ou o mercado rejeita-os. Será que levaram a volta dos frades? Quem terá sido o Marquês de Pombal d´hoje? Quem será o culpado?

O pouco que aparece hoje à venda, vem cansado após longas viagens. Vem do Brasil, Paraguai, Argentina, Espanha, da casa do diabo mais velho. Precisa que venha de longe. Um pêssego de Alcobaça, um morango do Fundão, uma uva do Douro, um queijo da Serra, não. Tudo importado. Equalizado, normalizado, envernizado, deslavado. E comam lá se quiserem. E o português desconfiado. E o estrangeiro atrofiado. Tudo em “ado”

Ainda temos em Portugal mercados belos, onde se encontra tudo que seja regional. Caso do Bolhão, no Porto, que frequento. Não me perguntem as cores das paredes, se tem pinturas, se tem teto ou esculturas. Sei nada disso. Não. Sei que tem lá uma tremenda desarrumação de coisas arrumadas. Caminhando, vou topando pelo chão com flores lindas, belas hortaliças, saídas não sei donde, bem como outros produtos a quem ninguém resiste, dentro de não sei quê, uma profusão de produtos regionais, num aqui estou, aqui me tens. E perde-se a cabeça lá. Um encanto, uma atração inexplicável.

Nas Caldas da Rainha o mercado é feito todas as manhãs, na Praça da República. Ali eles armam as suas tendas toscas, onde vendem mil e um produtos regionais. Tudo prima pela tal desarrumação arrumada. É um dos meus mercados favoritos. Lá há de tudo. Não tente encontrar figos do Algarve, vinho do Porto, queijadas de Peniche. Seria irrisório. De resto há tudo que uma boa imaginação possa abranger. A uma hora da tarde partem todos casa às costas e lá fica a Praça, limpinha, um primor. Deu-se o milagre.

São estes mercados que chamam os turistas, que saem carregados de compras, recordações da região. Visitando o mercado aprendemos imenso sobre o modo de vida da gente daquela terra. 

E voltando à vaca fria, fico pensando que o nosso actual mercado, não é bem mercado. Dá ares de cemitério. Tudo sempre no mesmo lugar, silêncio, algumas flores que se vão trocando, raras pessoas meio soturnas se  cruzando. Cara de enterro. Onde estará aquela alegria, as conversas sobre futebol e política que animavam aquele local, aqueles produtos bem nossos que no estrangeiro ganham prémios e medalhas? 

O que vale é que os turistas bem formados, inteligentes e cultos, vão apreciando algo que ainda não conseguimos destruir tal como as lagoas, os montes, a luxuriante vegetação, as pedras negras, os maroiços, a montanha do Pico e muito mais, que nós, açoreanos , até desconhecemos, porque muitas vezes falta-nos sensibilidade. 

 

P.S. Terminada esta crónica, tive a informação que o mercado ficará em breve mais pobre.  Lamento muito!

 

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