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25
outubro

O corte dos soldadinhos de chumbo

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira

A minha relação com a palavra cortar tem vindo a complicar-se nos últimos tempos. Cada vez que a oiço, na forma verbal ou substantiva, os pesadelos tendem a aumentar.

Viajando pelo passado raramente me causava repulsa ou era encarada como sinal de violência. - Vai cortar o cabelo, ou tens de cortar as unhas, eram ordens recebidas dentro do espírito de negociação. – Hoje não dá jeito, para a semana passo no barbeiro.

Com a costureira ou com o alfaiate, a relação era amigável, pois via no corte da camisa ou do fato uma preocupação de contribuir para o meu bem-estar.  

Na tropa percebi que o corte de cabelo à escovinha já tinha outra intenção: humilhar, despersonalizar e fazer com que os recrutas ficassem submissos à hierarquia.  

Quando fui penetrando os meandros da política, deu para perceber que Salazar cortava o pio a quem o incomodasse e tinha os seus capangas para cortarem a direito.  

Os cortes, hoje, são outros e não são poucos.

Se o cidadão se descuida no prazo cortam-lhe a água e a luz, sem condescendência. E os serviços nem se preocupam em saber se o incumprimento resulta dos cortes que o Governo lhe aplicou no salário, na pensão ou reforma. A banca corta as pernas a quem não consegue pagar a prestação do empréstimo e as universidades cortam as asas a quem se atrasa na propina.

O corte é a palavra mais temida nos dias que correm. E aí está mais um Orçamento do Estado a cortar-nos a respiração. Uma vez mais continua a fazê-lo de forma cega e injusta. Na altura do PREC (Processo Revolucionário em Curso) gritava-se: - Os ricos que paguem a crise!. Hoje com este PREC (Processo Regressivo de Empobrecimento Continuado), os pobres é que pagam a crise. 

Veja-se a taxação progressiva que vai atingir salários bastante baixos, para se fixar nos 12% a partir dos 2 mil euros. Se nos situarmos neste patamar, em 2013, um funcionário público que recebesse 2 mil euros tinha um corte de 3,5%, ou seja de 70 euros. Com o orçamento deste ano, quem ganha acima de 2 mil euros passa a descontar 12%, ou seja, pula de 70 euros para 240, o que dá uma diferença mensal de 170 euros. Mas quem recebia acima de 4 mil euros pagará apenas mais 80 euros em relação ao ano passado, dado que a taxa passou de 10 para 12%. A mesma benevolência para com os mais abonados verifica-se quando se constata que os rendimentos superiores a 80 mil ou 250 mil euros mantêm as suas taxas de corte de 2,5% ou de 5%, respetivamente.  

Para que alguns sejam beneficiados, toca a cortar em quem menos tem, com a desculpa de que é uma situação de emergência. Austeridade em cima de austeridade, eis a receita esquentada, quando já está provado que ela não resulta. O Governo insiste em medidas profundamente inconstitucionais, e as instâncias internacionais já se dão ao desplante de ameaçar despudoradamente com a necessidade de rever a Constituição, a começar por Durão Barroso.  

Vai ficando cada vez mais claro que no Governo PSD/CDS proliferam soldadinhos de chumbo, bem alinhados, bem disciplinados e obedientes aos interesses estrangeiros e ao serviço dos mais poderosos. Assim não vamos lá.

 

 

 

 

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