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22
novembro

Na rota do Atlântico ou as navegações do mar e da vida

Escrito por  Victor Rui Dores
Publicado em Victor Rui Dores

 

“Começa a lua a esconder-se no horizonte e, no lado oposto, os primeiros alvores vão clareando, e o sol nasce todo risonho pelas 06:45 horas” (pág. 44)

 

Não é impunemente que se nasce numa ilha, onde a terra é pequena, o mar é vasto e o sonho é enorme. O sereníssimo José Leal aprendeu, desde muito cedo, o sonho da viagem e o desejo da aventura. E descobriu no mar a essência da visão do mundo. No dia 9 de julho de 2007, na linha da proa do “Ganhoa”, inicia, com seus amigos Luís Cabeceiras (o “comandante”, proprietário do veleiro) e José Carlos uma “viagem de sonho”, zarpando do porto de Velas, ilha de S. Jorge, com destino ao porto de Santa Cruz de Las Palmas, nas Canárias. Três anos depois reincide: no dia 7 de novembro de 2010, a bordo do mesmo iate mas desta vez acompanhado apenas de Luís Cabeceiras, partem novamente do porto de Velas, com rumos diferentes: Canárias, Cabo Verde, Caraíbas e República Dominicana.

O livro “Na Rota do Atlântico” é, por conseguinte, um registo (apaixonado) de vivências relacionadas com essas duas viagens.

Acionando os dispositivos da memória, José Leal larga amarras na aventura da escrita, aparelha o texto, riza as ideias e navega contra ventos e correntes. Ele conhece o ritmo das ondas e sabe que o espreitam furacões, ventanias, borrascas, calmarias, tempestades e outras temerárias tormentas… Mas segue em frente, porque a errância é a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho.

Escrito em forma de diário de bordo, este livro é todo ele uma viagem no mar e em terra. José Leal vai anotando, de forma minuciosa e com grande poder de pormenorização, as aventuras marítimas, as incidências e as peripécias a bordo do “Ganhoa”. E, para mais tarde recordar, regista em fotografia momentos únicos e irrepetíveis. Por outro lado, descreve os locais que vai visitando em terra. No mar é marinheiro e cozinheiro. Em terra é “turista”, faz corridas e caminhadas. Aliás, a viagem sempre foi nele uma forma de procura e de descoberta. Isto é, o autor viaja no mar e viaja por dentro de si próprio, disseca no mar a sua alma – como Vernet agarrado ao mastro do navio para estudar a tempestade.

Nesta obra José Leal não só se confessa, como se revela e revela-se-nos através das suas interrogações, perplexidades, deslumbramentos, angústias, sentimentos, emoções e estados de alma. Atento observador, dotado de discernimento crítico, ele fala de experiências, cumplicidades, convívios e cavaqueiras a bordo do “Ganhoa”. E descreve, de forma viva e detalhada, momentos de mau tempo e dificuldades no Atlântico, quando o mar fica desfeito e a ondulação é comparada a “picos encapelados que parecem empenas de casas”.

E quando a bordo do iate estala o conflito, é o abnegado José Leal que apazigua as situações (lá diz o ditado: “Se queres ganhar ou perder um amigo, viaja com ele”), lançando sobre os seus companheiros de viagem olhares profundamente humanos, de tal forma que eles se tornam verdadeiras personagens. Sobretudo o “comandante”, homem imprevisível e em permanente desassossego, que afoga o nervosismo em cerveja e o mau humor em tabaco e não gosta de fazer quartos… E aquilo que, à partida, seria um mero e factual diário de bordo, torna-se numa narrativa muito fluente que se lê com o mesmo prazer com que se lê um bom livro de aventuras.

Por conseguinte, li esta “Rota do Atlântico” com emoção e dela saí tonto de tanta navegação e com os olhos encharcados de tanta luz marítima. Apreciei esta prosa de afetos, rica de espessura evocativa. Livro singular e envolvente, humaníssimo testemunho de duas viagens inesquecíveis. José Leal escreve a falar connosco, ele que ama a vida porque ama o mundo. Tem um coração grande de mais, está visto.

 
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