Imprimir esta página
25
maio

Manuel de Arriaga, quando o ideal se sobrepõe ao material

Escrito por 
Publicado em Fernando Faria

 Nascido na cidade da Horta a 8 de Julho de 1840, no seio de uma família com ancestrais pergaminhos aristocráticos, Manuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue foi educado, bem como os seus irmãos, por uma preceptora americana que, não só lhes ensinou a língua inglesa, mas lhes abriu horizontes para os ideais de liberdade, de justiça e de fraternidade que, frontalmente, colidiam com os tradicionais princípios praticados pelos seus progenitores.

A nobre família Arriaga, que alguns historiadores afirmam erradamente ser parca em “cabedais”1, possuía, pelo contrário, avultados bens urbanos e rústicos situados nas ilhas Faial e Pico. Na Horta destacavam-se duas “casas nobres” (a do Arco, na Travessa de S. Francisco, que constava de jardins, quinta de laranjeiras, cisterna de água doce, poço de maré, pátios, cocheira, quintal contíguo, escritórios e anexos agrícolas, e a da Rua Direita de S Francisco, com cozinha, armazéns e reduto de quarta e meia de terreno) uma “morada de casas nobres e jardim” no Pasteleiro, uma “casa nobre com granel e muitos arranjos de lavoura com um serrado de terras lavradias”, na Feteira; no Pico detinha duas casas nobres com lagares, uma no Lagido e outra no Guindaste; nestas duas ilhas era ainda possuidora de muitos bens rústicos, designadamente 496 alqueires de terras de pão e de pastagens no Faial (Horta, Feteira, Flamengos, Castelo Branco e Cedros) e de 925 alqueires de vinhedos e matas no Pico (Lagido, Guindaste e S. Mateus), além dos rendimentos provenientes de rendas e de foros que, no ano de 1854, ascenderam a 3. 161$594 reis, “quantia que seria hoje equivalente a cerca de 10.000 contos”2.

A riqueza desta família ajuda a explicar que, aí por 1860, o casal Sebastião José de Arriaga Brum da Silveira e Maria Cristina Pardal Ramos Caldeira tenha podido enviar os três filhos mais velhos para a Universidade com a finalidade de concluírem os seus estudos superiores. O mais velho, Sebastião (1837) seguiu para França a cursar agronomia em Grignon, e os outros dois, Manuel (1840) e José (1844), foram para Coimbra onde se formariam em Direito. Este desafogo financeiro mostra também como terá sido rude o golpe sofrido por Manuel de Arriaga quando, por ter aderido ao ideário republicano, se viu privado da mesada paterna. Foi logo no primeiro ano da Universidade que fez esta opção política, diametralmente contrária à de seu pai, e dela assumiu todas as consequências, sendo uma, a de ter de dar explicações de Inglês para se manter e a seu irmão José que fizera igual escolha, e outra, a de ser forçado a cortar relações com o seu progenitor. Aquela escolha política, resultante do contacto com professores e estudantes e da assimilação de outras formas de pensamento, trouxe grandes privações a Manuel de Arriaga, inclusive de uma fácil e lucrativa carreira profissional. É ainda neste período e por estas razões que deixa de usar os sonoros apelidos Brum da Silveira e Peyrelongue, passando a ser apenas Manuel de Arriaga!

No fim do curso faz as pazes com o pai, facto que leva o amigo José Júlio Rodrigues a felicitá-lo, em carta de 12 de Julho de 1866: “Dou-te os meus cordiais parabéns pelo acabamento lisonjeiro das tuas maçadas de estudante; ao mesmo tempo sinto também que te despeças dessa vida modelo de paz e sossego, por mais que digam os que nela estão é porque não conhecem o mundo com todas as suas asperezas. Mas sobretudo, meu caro Arriaga, o que me alegrou e satisfez o coração a par do teu livramento de uma doença perigosa foi as pazes que fizeste com o teu pai e que de certo será para ti a mais poética festa e a mais grata comemoração da tua formatura. Teu pai fez muito bem em te estender o coração através desses mares que tanto tempo te tem dele separado, porque um Pai é sempre amigo de seu filho e para o filho bom, generoso e puro como tu és, deve ser bem triste viver-se separado e longe do amor de sangue e verdadeiro afecto de quem lhe deu a vida (…) Aqui te espero para te abraçar antes de partires para a ilha.”3 Efectivamente, e após seis anos de ausência, Arriaga chegou à Horta no dia 2 de Setembro e disso dá conta o semanário O Fayalense: “Chegaram a esta cidade no vapor ‘Leal’ os srs. Manuel de Arriaga, bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra, e António Emílio Severino de Avelar, que acabou os seus estudos na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Foram ambos estudantes de alta distinção”. Quase dois meses se demorou pelas ilhas Faial e Pico, regressando a Lisboa, no mesmo vapor a 28 de Outubro de 1866. Haveriam de passar 21 anos para que voltasse à terra natal e ao convívio dos seus. Entretanto, seu pai falecera em 1881 e, antes da morte, voltara a deserdar os dois filhos republicanos.

Assim, quando desembarcou no porto da Horta no dia 27 de Agosto de 1887, a bordo do paquete “Funchal”, era já “um dos mais ilustres filhos do Faial e o seu talento como orador, como poeta”, tinha “uma merecida e larga fama em todo o Portugal”4.

Essa distinção era uma realidade, pois a par do exercício da advocacia e da docência, Arriaga, que entretanto casara em 1874 com Lucrécia Augusta de Brito Berredo Furtado de Melo, já havia sido deputado republicano, num parlamento monárquico, eleito pelo círculo do Funchal (1882-1884). Nesse interim, foi autor doProjecto de Organização Definitiva do Partido Republicano Português (PRP) e, em Junho de 1883, no decurso do primeiro Congresso é eleito para o Directório do PRP. Volta a disputar, no ano seguinte, o lugar de deputado pela Madeira; é, porém, derrotado pelos candidatos monárquicos, numas eleições violentas e manipuladas, de que resultam mortes e prisões arbitrárias de correligionários seus que, graciosamente, irá defender nos julgamentos que os absolverão. Em 1885 é eleito vereador republicano da Câmara Municipal de Lisboa. No decurso da segunda visita à Horta é homenageado pelo Centro Republicano Federal da Horta, no domingo, 25 de Setembro de 1887, “com uma ceia política” servida nas “salas do Grémio Literário Artista Faialense”. Como era previsível, “o dr. Arriaga encantou e prendeu deliciosamente a atenção daqueles que o escutavam, com os muitos recursos da sua bela palavra sempre fluente, com o inimitável condão daquela sua voz harmoniosa, que é toda uma música adorável”5. Os convivas não excederam as três dezenas e também discursaram dois republicanos faialenses, João Augusto Laranjo (fotógrafo e empresário) e João Raposo de Oliveira (comerciante). Antes dessa intervenção política, Arriaga fizera a ascensão do Pico acompanhado de Artur Avelar e de três guias, dela nascendo o seu primeiro livro de poesia, Canto ao Pico. 

Uma terceira e última vez, Manuel de Arriaga visita o Faial e o Pico. É em Agosto de 1905 e já voltara a ser deputado eleito pelo círculo de Lisboa (1890-1892), fora membro do Directório do PRP (1891 e 1897) e publicara dois livros de poemas: Cantos Sagrados (1899) e Irradiações (1901). A imprensa dá grande destaque a essa viagem, assinalando que “como se esperava chegou no ‘Funchal’, o nosso ilustre conterrâneo sr. dr. Manuel de Arriaga. Há 18 anos que não vinha à terra natal; há 18 anos que não via a casa em que nasceu, as irmãs que o adoram e por quem ele sente o mais acrisolado afecto. Avaliamos a alegria que vai hoje na antiga e nobre casa Arriaga e, saudando respeitosamente o notável jurisconsulto, desinteressado defensor dos pobres e grande homem de bem, felicitamos ao mesmo tempo sua exma. família, tão justamente querida e venerada de todos os faialenses”6. Como sempre, Manuel de Arriaga deslocou-se ao Pico, desta vez acompanhado pelo amigo Barão de Roches, e ali foi obsequiado com um jantar, onde estiveram presentes Florêncio Terra, Emerson Ferreira, Barão de Roches, Amélia Berredo Machado, Sofia Monteiro e Roque Furtado de Melo. Correspondendo às instâncias de O Telégrafo, escreveu o poema O Homem e o Universoque aquele jornal inseriu na primeira página da sua edição de 16 de Agosto. Também na festa de aniversário da sobrinha Maria Berta de Arriaga Linhares, que reuniu algumas famílias das relações dos pais desta – Augusto César de Sá Linhares e Adelaide Sofia de Arriaga - houve música, baile e poesia. Manuel de Arriaga recitou “uma bela poesia, produção sua; o padre Osório Goulart, mimosos versos originais e António Baptista sonetos de Bocage e de António Feijó”7.

Viajando no vapor ‘São Miguel’ regressou a Lisboa a 29 de Agosto de 1905.

Passados cinco anos era proclamada a República que, em 24 de Agosto de 1911, elegeria Manuel de Arriaga para seu primeiro Presidente.

Lido 2388 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários