Imprimir esta página
20
dezembro

O país que Mandela apaziguou

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira

Conheci a África do Sul no início dos anos ´80, ainda Mandela era “hóspede” da célebre prisão na ilha Robben, e confesso que em toda a minha vida nunca vi tanto ódio espelhado no rosto de seres humanos. A ideologia do apartheid só a posso comparar com o nazismo, na sua segregação, no terror, na intolerância, na desumanidade. Ali, a cor determinava tudo, com uma pequena exceção, segundo se contava, para uns multimilionários pretos que faziam parte do clube dos milionários sul-africanos. No resto tudo o que pude ver era duma violência atroz.

O primeiro choque ocorreu logo na fronteira. Durante a viagem de comboio, com partida de Maputo, eu e a minha mulher, únicos passageiros brancos, conversamos com os moçambicanos sem qualquer constrangimento. Mas mal chegamos a território sul-africano, saíram ordenadamente porta fora e ordeiramente se postaram, mudos e quedos, à frente dum guichet. Meio abananados ficámos sem saber o que fazer, até que dois polícias ultra disciplinados nos conduziram à presença do oficial que nos carimbou os passaportes e nos encaminharam, de seguida, para a carruagem de passageiros brancos. Ali não havia misturas: carruagens para brancos, com empregados brancos ou mestiços claros, e carruagens para pretos. Esta separação era visível e ostensiva por todo o lado: nos hotéis, nos hospitais, nos bancos de jardim ou nas casas de banho, onde estava inscrita a frase: só para brancos. Várias vezes ouvira falar de que havia ruas só para brancos e outras só para pretos. No terreno, em pleno centro de Joanesburgo, percebi o sentido da afirmação. Os autocarros que partiam para os bairros negros saíam de determinadas ruas, enquanto os que se dirigiam para as zonas residenciais de brancos saíam de outras. Daí a impressão de que uns e outros andavam em ruas separadas. 

Num dos museus que visitei, o racismo espelhava-se no seu máximo requinte de malvadez. A história dos africanos era apresentada no prolongamento da vida animal selvagem, enquanto a história da presença branca era feita num espaço completamente distinto. Pretos e animais confundiam-se na sua origem, enquanto a superioridade dos brancos se destacava como símbolo da civilização e do progresso. 

Numa gelataria assisti à reprimenda duma patroa branca a uma empregada mulata, por esta ter vendido um gelado a um preto. E a senhora achou por bem explicar-nos que cenas daquelas não se repetiriam mais, pensando que teria o nosso aplauso. Enganou-se. Virámos as costas sem vontade de comer qualquer gelado. 

A subalternização da população negra era visível por todo o lado. Num supermercado, os “caixas” eram brancos, mas no serviço de limpeza ou de colocação de mercadoria nas prateleiras lá estavam os pretos. Toda esta ideologia refletia-se logicamente nos ordenados. O fraco poder de compra da população negra era notório quando víamos sair dos supermercados os brancos com carros cheios de compras, enquanto o negro trazia um saco com meia-dúzia de produtos. 

Numa das excursões que realizei na zona Sul, província do Cabo, o próprio guia indicava com toda a naturalidade o tipo de pessoas que frequentavam as praias. Uma praia grande cheia de areia, logicamente estava reservada a brancos; nem vale a pena escrever a quem estava destinada uma praia cheia de calhaus.

Mas o requinte do apartheid não se limitava a separar pretos e brancos. Pelo meio havia ainda os indianos, os mulatos, e os asiáticos, com estatutos definidos. Só os japoneses se safavam porque as relações comerciais intensas com a África do Sul levaram a que ficasse registado no passaporte a equiparação a branco. 

A hipocrisia ainda se revelava num bantustão, onde foi implantada uma Las Vegas, de nome Sun City. Ali a convivência era tolerada, para permitir que os brancos pudessem satisfazer os seus prazeres sexuais com as belas negras e mulatas africanas. Não consegui confirmar se a mulher branca ali se deslocava com as mesmas intenções.

Enfim, situações caricatas que parecem inverosímeis nos dias de hoje, mas que faziam parte do quotidiano sul-africano. Não admira, pois, que o ódio se expressasse no rosto, nas palavras e nos gestos. 

Foi contra este tipo de sociedade que Mandela se revoltou, conduzindo a luta do ANC. Uma luta que englobava gente de todas as raças e credos. No seio do ANC havia população branca que também combateu o apartheid e foi vítima da tirania dos boers. Relembro também que, nas longas viagens de comboio, conversei com muitos jovens universitários brancos que se manifestavam abertamente contra o regime, considerando-o uma aberração só comparável ao nazismo.

A pressão internacional levou à libertação de Mandela e à queda do apartheid. Mas o ódio que existia não é fácil de esbater. A sensibilidade do líder e o seu exemplo de tolerância evitaram derramamento de sangue e proporcionaram uma aproximação que foi aliviando as dores e as mazelas do passado. Mas as marcas são profundas e receio que a qualquer momento, setores mais radicais, de ambos os lados, possam ressuscitar rancores incontroláveis. Espero que a memória e o exemplo de Mandela continuem a iluminar os espíritos amantes da paz e da fraternidade independentemente da cor da pele.

 

Lido 1310 vezes
Classifique este item
(0 votos)
Login para post comentários