1Vivemos tempos difíceis. Apesar do progresso do nosso tempo, apesar das inúmeras conquistas civilizacionais e apesar da generalizada melhoria das condições de vida, que fazem com que o saldo comparativo com o passado nos continue sendo largamente favorável, a verdade é que a crise que nos bateu à porta a todos afeta, a todos constrange e em todos faz despertar um sentimento de nostalgia por um tempo passado recente em que tudo era bem mais ridente, bem mais otimista e aparentemente bem mais fácil.
2 E quem não apreciava esse tempo? Mesmo tendo uma consciência mais aguda e desperta para os riscos de então, quem não aproveitou algumas das facilidades que lhe eram dadas? Quem não cometeu, à conta desse contagiante otimismo, algum excesso?
O tempo presente é o da ressaca desses exageros individuais e coletivos. É o do ajustamento, feito à força e imposto por quem nos empresta o dinheiro de que necessitamos, já que nós, como nação, não quisemos e não fomos capazes de nos autoajustarmos em tempo oportuno. E agora pagamos todos, quer tenhamos ou não contribuído individual e diretamente para os excessos cometidos.
3 Alguns alimentam falsas expetativas para 2014, com a previsível saída da “Troyka”, sugestionando um gradual regresso à “prosperidade” passada, dando a ideia de que esses “tempos loucos” que vivemos são um modelo e um exemplo a retomar!
O que esses arautos se esquecem é que necessariamente o nosso destino individual e coletivo se tem de manter nos parâmetros de uma máxima que nunca devíamos ter perdido: a de vivermos com o que produzimos.
Ninguém consegue, nem individual nem coletivamente, sobreviver por muito tempo quando gasta mais do que recebe. Por isso, se há lição a retirar do presente é a de que temos todos (governantes, políticos, mas também cada um de nós, cidadãos) de ter os dois pés na terra e abandonar a mentalidade irrealista que nos trouxe, como País, ao estado de bancarrota que obrigou a que, para sobrevivermos, tivéssemos de pedir ajuda financeira externa.
Lembramo-nos todos das grandes expetativas colocadas na eleição em França do socialista François Holland e das suas promessas de que a crise se vencia não com a austeridade, mas com o crescimento, uma fórmula que já havíamos provado em Portugal nos últimos anos dos governos de José Sócrates.
Mas, a situação atual da economia francesa mostra, ao invés da promessa, resultados negativos sucessivos de tal forma desanimadores que já nem António José Seguro invoca o exemplo do seu amigo francês para fundamentar as suas propostas.
4 O combate à crise em que mergulhámos devia ser um desígnio nacional. A união das principais forças políticas à volta de um núcleo essencial de medidas a implementar e a manter como forma de garantir o equilíbrio das contas e a sobrevivência de Portugal como País viável na Europa, devia ser uma obrigação ética e um imperativo do ser-se Português.
2014, que agora começa, pode ser a oportunidade, embora os sinais não sejam nada animadores.
Olhemos, por isso, para o caso recente da Alemanha e aprendamos enquanto é tempo.
E a esse propósito, não resisto em concluir com as palavras escritas por Pinho Cardão:
“Aí está a grande coligação entre os dois maiores partidos alemães (ou dos três, se incluirmos o CSU da Baviera, partido irmão da CDU), que se puseram de acordo para governar a Alemanha durante os próximos 4 anos. Negociações demoradas, em que cada qual cedeu um pouco, em prol da governabilidade e progresso do país. Coligação aprovada por 75% dos militantes social-democratas, consultados em referendo para o efeito.
Por cá, os barões e baronetes dos partidos, ávidos de poder pessoal e para quem o povo nada conta, o que fazem é cavar diferenças, aumentar hostilidades, inventar, a cada dia, novos pontos de confronto.
Na Alemanha, e mais uma vez, os grandes partidos puseram o povo à frente dos seus interesses egoístas; em Portugal, sempre e todos os dias, coloca-se o interesse partidário à frente do bem do povo.
Também por isso, ou muito por isso, a Alemanha é o que é e nós somos o que somos. Seguramente!”
30.12.2013