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17
janeiro

Uma história das Termas do Varadouro

Escrito por  Jorge Costa Pereira
Publicado em Costa Pereira

1O edifício das Termas do Varadouro foi inaugurado em 1954 e, na altura, dotou a ilha do Faial com uma das melhores instalações do género existentes nos Açores. Desde os finais do século XIX, as suas águas haviam ganho fama e as Termas mantiveram-se a funcionar até aos anos 90 do século passado, quando encerraram.

2  Há alguns anos foi novamente reconhecida a importância para os Açores do Turismo Termal e a necessidade de aproveitar as potencialidades existentes na Região. Desde logo, e bem, o governo da altura anunciou a intenção de “recuperar três unidades termais nas ilhas do Faial, da Graciosa e de S. Miguel.”

3 Nessa sequência, e através da Sociedade “Ilhas de Valor”, o Governo Regional recuperou as Termas da Ferraria em S. Miguel e do Carapacho, na Graciosa. No entanto, a intervenção nas Termas do Varadouro acabou por desembocar num processo nebuloso de enganos e falsas promessas cujas principais etapas se impõe recordar, novamente, para que não passem ao esquecimento.

a) Em abril de 1999, em Comunicado do Conselho de Governo, tornava-se público que se havia decidido “mandar elaborar o projeto de reabilitação das Termas do Varadouro, a fim de dotar esta estrutura das condições necessárias ao seu aproveitamento em atividades ligadas à terapia termal, à talassoterapia e ao lazer.”

b) Mas, como em quase tudo o que estes governos decidem para o Faial, as coisas não correram bem. E começaram as desculpas de Duarte Ponte: “a fonte termal desapareceu”; ou “não era fácil recuperar aquele furo”; ou “temos que encontrar outro local para fazer outra perfuração”; ou “ a água não tem uma temperatura elevada”.

c) Assim entretendo os Faialenses, chegou-se a abril de 2005. Nesse ano, Duarte Ponte reconhecia o óbvio: “Em relação às Termas do Varadouro, elas existem tal como estão há muitos anos”, e, como se nunca tivesse anunciado o projeto de reabilitação em 1999, adiantava uma ‘novidade’: “Estamos a fazer um estudo prévio, que pusemos na Câmara Municipal, para rearranjar toda aquela zona. É um compromisso nosso que vamos assumir nesta legislatura”, que, recorde-se, acabava em 2008.

d) Em março de 2006, aqui no Faial, numa sessão com empresários, Duarte Ponte esclareceu que “embora a empresa ‘Ilhas de Valor’ tenha como campo de atuação preferencial as chamadas Ilhas da Coesão, a verdade é que não está impedida de atuar em qualquer ilha dos Açores, sendo que, no Faial, as Termas do Varadouro podem ser uma área em que essa atuação é bem-vinda.”

e) Apesar desta “generosidade” do governante, a verdade é que em junho de 2007 o Governo já a tinha esquecido e deixava para trás as Termas do Varadouro ao encarregar a Sociedade “Ilhas de Valor” de acompanhar apenas os investimentos previstos nas Termas do Carapacho na Graciosa e da Ferraria em S. Miguel.

f) Em janeiro de 2008, ano de eleições regionais, Duarte Ponte, convenientemente, voltou a falar das Termas do Varadouro e, necessariamente, subiu a parada. Garantiu que as Termas do Varadouro “vão ser reativadas”, “mas o Governo pretende fazê-lo integrando aquela estrutura num projeto mais vasto que inclui também a construção de um Hotel SPA”. E havia mais pormenores para comunicar aos Faialenses: “ o novo Hotel do Varadouro” (já tinha nome e tudo…) “terá dois pisos e 50 quartos e será destinado ao Turismo de Saúde”. E o método para fazer tudo isto era apresentado assim: “lançar um concurso para a exploração das Termas. Os privados que concorrerem ficarão obrigados a construir a nova unidade hoteleira”.

g) A Câmara da Horta, sempre pronta para ser parte destas encenações, regozijou-se com tais anúncios e até suspendeu o PDM na zona do Varadouro para poder acolher tão importante promessa de investimento.

h) Em junho de 2008, perante o Conselho de Ilha do Faial, à porta fechada, Duarte Ponte já revelava menos entusiasmo: tinha havido um contratempo – impunha-se alterar o projeto para afastar o imóvel da arriba, devido a um parecer do Laboratório Regional de Engenharia Civil. Apesar disso, não hesitava: “o Governo tem o terreno; o Governo tem o estudo prévio e deixa o desafio aos empresários faialenses para avançarem”, esquecendo-se sempre de explicar porque é que em S. Miguel e na Graciosa esse cometimento foi para a Sociedade “Ilhas de Valor” e no Faial tinham de ser os empresários locais a concretizá-lo.

No final de 2008 realizaram-se as eleições regionais, com mais uma vitória do PS na Região e no Faial.

i) Em abril de 2009, já depois das eleições, regressa a frieza da verdade. Carlos César declarava que mantinha o desejo do seu governo em desenvolver o potencial do termalismo na Região, mas referindo-se às Termas do Varadouro, afirmava que se estava na fase do “estudo das possibilidades que encerram.” 

j) Seguiu-se, no final de 2009, o anúncio de um projeto de investigação que abrangeria as Termas do Varadouro (o “Termaz”), feito já sob o consulado de Vasco Cordeiro na Secretaria da Economia, mas cujos resultados são desconhecidos.

l) Depois de mais de um ano no limbo, a questão das Termas do Varadouro voltou a ser tema com a revelação, feita por Vasco Cordeiro (já putativo candidato do PS a Presidente do Governo), de que “há privados interessados nas Termas do Varadouro.”

m) Seguiu-se, em novembro de 2011, a Resolução do Conselho do Governo que cedia “a título definitivo e gratuito, ao Município da Horta” os prédios urbanos e rústicos afetos à remodelação e requalificação das Termas do Varadouro, num negócio que nunca chegou a ser bem explicado em todos os seus contornos.

n) Volvidos cerca de dois meses, em janeiro de 2012, idêntica resolução do Governo Regional desistia da cedência dos terrenos à Câmara e entregava-os à SPRHI – Sociedade de Promoção e Reabilitação de Habitação e Infraestruturas, SA!

o) No mês seguinte, em resposta a um requerimento dos deputados do PSD eleitos pelo Faial, o Governo Regional informava que o processo da recuperação das Termas do Varadouro estava em marcha e que o Governo “selecionou um parceiro privado, que é um investidor externo à Região, com experiência na área do termalismo.”

p) O nome do empresário, até essa altura guardado em segredo, foi deixado cair e ele prestou-se a falar à Comunicação Social sobre o assunto, reconhecendo a existência de negociações, partilhando a sua satisfação com a forma como os contatos se têm processado e garantindo que para aquele investimento “será necessária uma união de esforços.” Estávamos novamente em ano de eleições regionais! E a tática repetia-se: prometer, aumentando a parada…

Em 2012 as eleições regionais deram mais uma vitória ao PS na Região e no Faial.

p) A caminho do fim da primeira metade da vida deste Governo Regional, o assunto, para não variar, caiu novamente no esquecimento ou, se se preferir, na ausência de decisões. A exceção foi dada, em março passado, pelo Diretor Regional de Turismo que, num contato de “cariz informal” com o empresário em causa, ficou sabendo que ele “mantém interesse nas Termas do Varadouro.”

4 Esta história não precisa de conclusão. E se os Faialenses, as instituições e as forças que os representam efetivamente defendem este investimento não podem novamente esperar que chegue ao ano de eleições de 2016 para exigir a sua concretização, porque aquilo que irão novamente ouvir são as velhas promessas que aqui se recordaram… 

13.01.2014

 

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