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21
fevereiro

"Simplesmente fui e sou o apanhador e apontador daquilo que li na face, no sacudir dos ombros..." - Uanhenga Xitu

Escrito por  João Stattmiller
Publicado em João Stattmiller

Naquele dia a velha Chica do Huambo levantou-se, como sempre, antes mesmo da pontualidade do sol. Depois de deixar um funji de milho pronto para as crianças da casa que haverá de acordar saiu no seu passo miúdinho em direção à lavra banhada pelo orvalho da manhã. Os passáros cantavam sua sinfonia matinal e lá foi ela transportando grandes cestos na cabeça. Era tempo bom, tempo de colheita, as maçarocas de milho abundavam na sua plantação e era tempo de colher. Bem que precisava de uma boa colheita depois dos anos anteriores em que a estiagem não deixou as culturas vingarem e a casa cada vez mais cheia de netos contrastava com o crescente vazio na panela. Os seus cinco filhos homens foram levados para a tropa, apanhados na rusga nem tempo para despedidas houve, um vizinho ainda trouxe noticias de um deles que parece foi parar ao Kuando Kubango, lá nas terras do fim do mundo, carne para canhão. As filhas eram sete mas todas se foram também para outras províncias fugindo da guerra, umas casadas e outras nem tanto. A única de quem tinha notícia e que lhe mandava umas malas de peixe seco de vez em quando era a filha caçule, a Minga, que graças à sua beleza natural um general se tomou de amores por ela e lhe levou como segunda mulher para Luanda. Os netinhos foram-lhe sendo trazidos pelas noras e namoradas dos filhos ali mesmo do bairro para ela os criar. Já viúva e velha de tantos anos que nem sabia quantos não parecia restar naquele corpo franzino qualquer força para o continuado esforço da criação mas ainda assim nenhum neto recusou a velha, recebeu-os a todos e com amor maternal foi buscar forças sabe Deus onde para governar a casa e pôr a comida na mesa. Todos os dias ia para a sua lavra nos arredores da cidade e tinha também um pequeno canto de terra junto ao rio que aproveitava para cultivar horticulas. Na lavra eram os cereais, primeiro o milho e também aqui e ali o massango e a massambala conforme a semente que houvesse. Apesar da fraca produção dos secos anos anteriores nesse ano tinha chovido bem e a tempo, graças a um vizinho caridoso também não lhe faltaram sementes e assim o milho cresceu viçoso desta vez. Estava contente a velha pois tinha chegado o momento de colher e com a graça de Deus haveria de tirar o bastante para fazer a fuba de casa e ainda levar algum milho ao mercado para vender e trazer um pouco de óleo e sal. Com sorte, se o preço for bom, pensou até que desta vez mesmo um pouco de açucar para fazer alguma coisa que adoce a boca da pequenada havia de trazer. Passou a manhã atarefada na colheita das maçarocas e com o pensamento nisso, um timido sorriso iluminando o rosto. Feita a apanha das maçarocas entrou em acordo com um vizinho que com carroça e à força de burros ajudou a colher e transportou a colheita da velha Chica a troco de uma parte do milho, sempre era melhor que nada e sozinha não conseguiria transportar o fruto do seu trabalho para casa. As maçarocas eram gradas e mesmo depois de pagar a parte do vizinho sobrou ainda o bastante para a sua reserva doméstica e um excedente para ir vender na praça. O quintal estava animado com os planos e o amarelo dos grãos de milho que arrancava sorrisos nos netinhos e muita àgua na boca. Logo ali antes de debulhar o milho colocou a velha chica umas maçarocas no fogareiro para alegria geral da pequenada. São momentos assim que quase fazem esquecer a guerra e as desgraças da vida.

Dias depois, já com o milho que sobrou preparado e ensacado, a velha chica pediu ao vizinho mais um empurrão até à praça da Canáta onde costuma vender. E lá foi pela picada fora ao som do ranger das rodas da carroça. Chegada à cidade, na praça da Canàta, houve um distúrbio por causa da mudança da praça para o bairro do Canhe. O administrador municipal decidiu, deu ordem e os fiscais estavam a enxotar as pessoas para que estas fossem para o Canhe, porém as pessoas estavam a reagir pois já tinham o hábito de vender ali e o Canhe era longe, então os fiscais começaram a despejar as quitandas e a bater nas pessoas. A Velha Chica lá estava a vender o seu milho, logo que os fiscais chegaram deram um pontapé naquilo e todo o milho foi parar ao chão misturado com a areia, a senhora começou a chorar, uma vez que ela esperava ter algum lucro para o seu sustento e dos netos. Então debaixo chicotes as pessoas começaram a ir com as quitandas na cabeça até ao Canhe. Logo que chegaram ali encontraram tropas já embriagados que começaram a fazer confusão, dando tiros à toa e as pessoas começaram a fugir, de repente os tropas tiraram a uma senhora um saco de açúcar, como a senhora sabe que o saco de açúcar está muito caro começou a reagir, a pedir que lhe devolvessem o saco, mas infelizmente cada vez que a senhora tentasse falar os tropas faziam tiros, provocando assim intensa confusão às pessoas e por fim a senhora ficou desesperada e eles foram-se mesmo embora. A senhora só de pensar naquilo criou-lhe prantos e dor no coração, uma vez que a vida está difícil e ela foi desgraçada "de um jeito muito bárbaro" como disse quem viu.

 

 

 

 

 

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