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21
março

Solidariedade açoriana

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira

Uma boa parte das contradições que enfrentamos nos dias de hoje, no que respeita ao posicionamento face à autonomia, foi vivida e pensada por outras gerações. Sobrepondo-se às mais variadas divergências, houve linhas mestras que se foram consolidando e que chegaram até nós, como uma candeia que pretende alumiar o presente, sempre com os olhos postos no futuro. Aprender com o passado é uma boa maneira de evitarmos cair em erros que acabam por ter preços elevados e desnecessários.

Em 1920, o Correio dos Açores, fundado e dirigido por José Bruno Carreiro, foi um grande defensor do açorianismo e da autonomia regional. Nas suas páginas colaboraram distintas personalidades dos Açores e do Continente, fazedores de opinião e formadores de consciências. Entre elas, destaco o terceirense Luís da Silva Ribeiro (1882-1955), que analisou de forma profunda os mais variados problemas que afetavam a sociedade açoriana. E fê-lo de tal forma que se transformou na “alma e consciência da nossa ilha e dos Açores”, como escreveu Vitorino Nemésio.

Estávamos no ano de 1920 e, a propósito do espírito regional, dizia ele que este se circunscrevia a cada ilha e daí “vem o desprezo pelos interesses comuns, que ficam abandonados, e a falta de união, que só nos pode ser prejudicial”. Acrescentava ainda que ante o chauvinismo de cada ilha, se abafavam iniciativas atrofiando o desenvolvimento integral do arquipélago. E um dos erros mais frequentes na época era a noção errada de que cada ilha devia ter tudo o que a outra tinha. 

Concluía o seu raciocínio apontando um caminho: estudar os interesses comuns, principalmente sob o ponto de vista económico; procurar soluções para os problemas respeitando os interesses de cada ilha, mas fazê-lo “com sinceridade, sem desconfianças quiméricas, sem veleidades de predomínio, sem pruridos de superioridade, sem preconceitos ou fantásticas rivalidades”.

Num outro artigo, ainda a propósito do espírito açoriano, advertia que “separados como estamos, ignorando-nos sistematicamente, indiferentes, olhando-nos com desconfiança e mesmo por vezes com ódio, iremos, separados, entrar nesse somatório como frações que se desprezam ou arredondam. Ligados por um espírito coletivo pelo menos por uma consciente solidariedade moral, passaremos a ser um valor representado por um número inteiro, maior ou menor, mas valor de certa importância, número inteiro que cuidadosamente se adiciona a outros”. 

Na altura, discutia-se a realização de um Congresso Açoriano, que só veio a realizar-se muitos anos depois, em 1938, em Lisboa. Mas a esse propósito escrevia Luís Ribeiro: “tenhamos pelo menos o espírito açoriano, se não pudermos ter uma comunhão de interesses económicos e sociais; sejamos solidários, se outra coisa não puder ser, no campo moral unidos pelos afetos. (…) Só são grandes os povos que têm um ideal vigoroso a norteá-los: - só podem ter esse ideal os povos que conhecem o seu valor coletivo”.

Este ideal foi defendido por José Bruno Carreiro quando, nos anos 20, surgiram propostas para a criação da “Província Açoreana”. Consciente da necessidade de se esbaterem as diferenças, defendia que se devia aplicar o princípio das ilhas mais ricas ajudarem as mais pobres, quando os rendimentos destas não bastassem para as exigências do seu progresso e do aperfeiçoamento das suas condições de vida social e material.

Como se pode constatar, as afirmações de Luís da Silva Ribeiro e de José Bruno Carreiro, proferidas há quase um século, permanecem atuais. A Autonomia Democrática, com verdadeiro espírito regional, não se compadece com atitudes divisionistas. A solidariedade entre todos, reflexo duma consciência açoriana que tem vindo a ser construída nos últimos anos, é fundamental para prosseguir a caminhada.

 

 

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