Falar de Álamo Oliveira é falar da força telúrica de uma escrita que, ainda e sempre, parte ao encontro das raízes e fica entre a ilha e a viagem.
Acabo de ler o seu último livro, Marta de Jesus, a verdadeira (Letras Lavadas edições, 2014), com 190 páginas atravessadas por um sopro bíblico. Esta é, sem sombra de dúvida, uma obra audaz, original e sem equivalente no panorama da ficção portuguesa contemporânea, pois que reconstitui, reinventa e subverte algumas passagens do Novo Testamento – mero pretexto para um sério ajuste de contas do autor com o nosso passado histórico, o nosso presente incerto e o nosso futuro de bruma... Essencialmente aqui se narram as vivências, os ritos e os rituais de um povo que, nas açorianas ilhas, existe e resiste há mais de cinco séculos.
Mas atenção: se a escrita de Álamo por vezes se ancora no texto bíblico, nunca o faz para o parafrasear, mas para sobre ele produzir um discurso eminentemente irónico e ideológico. De resto, existe uma evidente tensão interior entre literatura e religiosidade, através das quais se inflama o imaginário deste autor que da Terceira escreve para o Mundo.
Tal como no seu anterior livro, Murmúrios com Vinho de Mesa (2013), também nesta obra a inventiva criadora alamiana dificilmente se ajusta a definições, códigos e conceitos da tradição literária bem pensante. Escritor em trânsito pelas diferentes áreas da criação literária, Álamo é a poética da sua prosa pejada de imagens e magias, numa procura constante do dizer renovado. Digo, o poder de encantar e comover os sentidos: uma engenhosa arte literária, uma escrita enérgica e requintada (“O sol não apareceu na linha do horizonte, mantendo a ilha coberta por um manto de nevoeiro da cor do luto. O mar saiu das marés de janeiro, para se suicidar em marés de raiva contra as pedras da rocha. Lá de cima da montanha, os bordões de pedra caíram, estilhaçando-se como mortos em combate”. pág. 188), um estilo dúctil eivado de fina ironia:
“Marta de Jesus, por sua vez, tinha sessenta e cinco anos, um metro e sessenta de altura e cinquenta e nove quilos de peso, solteira e virgem, que uma desgraça nunca vem só”. (pág. 11)
As personagens funcionam como uma espécie de intérpretes de figuras bíblicas, com um destino por cumprir e uma missão a desempenhar, num contraponto de registos muito estimulante. Duas personagens captam, desde logo, a nossa atenção: Lázaro (“amparo e tutor das suas irmãs orfãs”, Marta e Maria) e João Baptista. Este último refugia-se no (edénico) Poço da Alagoinha e, olhando as suas águas, faz estranhíssimas previsões…

Romance sobre a mundividência açoriana e sua carga simbólica, Marta de Jesus, a verdadeira revisita um espaço e um tempo que nos remetem para a ilha das Flores. Todos os capítulos do livro começam por “Naquele tempo…” – referente a um tempo português em que se vivia entre parêntesis e a preto e branco, uma época fascizante marcada pela repressão, opressão e intolerância do Estado Novo e caracterizada por um profundo mal-estar social.
Lê-se, com ávido prazer, as peripécias, os incidentes e as atribulações de um grupo de florentinos que, nos anos 60 do século XX, recebe como mentor um outro florentino rebelde e anti-regime exilado, de nome Pedro, que acaba por convencer Emanuel Salvador, filho unigénito de Maria Nazaré e lavrador de ofício, a espalhar a palavra redentora de um “programa ideológico” entre os seus conterrâneos. É formado um grupo de 12 seguidores, cada um com um nome de apóstolo de Cristo, decididos a embarcar para Lisboa e aí de novo espalhar a “doutrina” até à libertação final. Ao grupo juntam-se quatro mulheres: Maria Nazaré, Marta e sua irmã Maria e ainda Maria Madalena. Embarcam todos no “Lima”, mas não chegam ao seu destino, já que recebem ordem de prisão na ilha do Faial…
Obviamente que não contarei o que se segue… O que interessa reter é que, neste entrelaçar do texto bíblico na ficção narrativa, e vice-versa, estamos perante personagens de grande espessura humana e fundura psicológica, muito solidárias e emotivas que, por detrás de uma aparente normalidade e conformidade, vivem em zonas de sombra e de conflito. Sendo entidades fictícias, são também elas revelações da idiossincrasia da comunidade açoriana, isto é, refletem, em maior ou menor grau, os condicionalismos geográficos, socioeconómicos e culturais dos Açores.
Como um Jano de duas faces, Álamo de Oliveira mergulha fundo no imaginário açoriano, para logo regressar à superfície, de olhar apontado à ficção moderna sem ceder às lusas modas literárias do indizível e do desconstrutivismo… Estamos perante um livro com grande poder evocativo e boa capacidade expressiva. Saudemos este escritor que, com domínio técnico e uma carpintaria hábil (de realçar a riqueza dos diálogos e a recorrência à fraseologia popular), faz uma sábia dosagem do real e do fantástico, do humor e da emoção, do popular e do erudito. E, ao fazê-lo, engrandece e dá luzimento à literatura portuguesa.