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27
fevereiro

Nós e a Grécia

Escrito por  Maria do Céu Patrão Neves
Publicado em Patrão Neves

Quando a amnésia grassa, importa que o óbvio seja dito. E o Presidente da República disse-o com toda a clareza. Portugal, na situação muito difícil que tem vivido nos últimos anos, não deixou de cumprir as suas obrigações para com os seus credores nem faltou à solidariedade europeia, particularmente para com a Grécia. O nosso país emprestou à Grécia 1100 milhões de euros e “tem vindo a transferir o produto dos juros das obrigações na posse do Banco de Portugal”. Eu acrescentaria que, enquanto muito portugueses sofrem o desemprego de longa duração, a diminuição dos apoios sociais e reformas miseráveis, enquanto em Portugal o ordenado mínimo roça os 500€ porque é o que o país pode pagar neste momento em que está ainda fortemente endividado, a Grécia, já sem dinheiro para pagar os ordenados de fevereiro, aumenta o ordenado mínimo para 750€! Para que outros o paguem…!

Os portugueses que ganham o ordenado mínimo, entre os muitos outros que sofrem os efeitos da crise em que o nosso país mergulhou sob o governo Sócrates, terão muita dificuldade em compreender que a Grécia aumente os ordenados dos seus e apresente a factura aos outros, entre os quais a nós. Afinal, quais de nós podem prometer em casa e apresentar a conta ao vizinho?!

Por isso é tão difícil compreender a reacção crítica da esquerda portuguesa às palavras do Presi-dente.

Dir-me-ão alguns que apoiar a Grécia é apoiar também Portugal e combater a austeridade. Mas este raciocínio é infantilmente falacioso. Nós já tivemos a troika, e o dito modelo de austeridade tal como foi implementado no nosso país permitiu também começar a criar emprego e a desenvolver a economia. Os números falam por si. E foram as metas alcançadas, com muito sacrifício de muitos portugueses, que permitiram também que nos tivéssemos libertado da troika. Os factos falam por si.

Não há, pois, semelhança entre Portugal e a Grécia, entre quem aproveitou o programa de assistência externa para começar a recuperar o país e quem apenas gastou o dinheiro da assistência externa. E continua a gastar mesmo quando se está a acabar, querendo agora negociar. Não, não há semelhança. Não há semelhança quando a Grécia ameaça sair do euro e arrastar consigo as economias mais vulneráveis como a nossa e Portugal responde propondo-se pagar antecipadamente uma parte da dívida, assim reforçando a sua imagem junto dos credores e dos mercados, libertando-se da chantagem grega. E querem, mesmo assim, que sejamos solidários com os gregos?! A solidariedade conquista-se com responsabilidade – mas isto também o Presidente o disse!

 

Professora Universitária

 

 

 

 

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