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06
março

TOIRO PICADINHO 1

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira

Voltou novamente à baila a história dos toiros picados por iniciativa de alguns deputados da Assembleia Regional, apoiados por alguns aficionados. Nem todos, evidentemente. Na tentativa anterior de aprovar legislação favorável, pronunciei-me contra e volto a fazê-lo com a mesma convicção, pois considero que o respeito pelos homens, o respeito pelos animais foi uma conquista da humanidade, bem expressa no pensamento de muita gente. 

Humboldt dizia que o grau de civilização de qualquer povo se avaliava pelo modo como tratava os seus animais; Vítor Hugo asseverava que a proteção aos animais fazia parte da moral e da cultura dos povos; Clémenceau afirmava que propagar o amor pelos animais e assegurar-lhes a proteção devida era uma obra de justiça que dignificava e merecia todo o incitamento. 

Muitas citações podiam ser trazidas aqui a favor de uma causa que já tem mais de um século. Por exemplo, o Regulamento Geral de Saúde Pecuária, de 1889, já punia com multa e prisão (se fosse reincidente) quem espancasse, flagelasse, ou maltratasse animais domésticos, ou quem empregasse no serviço animais extenuados, famintos ou doentes. O mesmo espírito transitou para as posturas municipais que foram sendo produzidas. 

Foi dentro destes princípios que se criaram as sociedades protetoras dos animais. Na Terceira, tenho conhecimento da existência de uma, em 1911, fundada pelo major Manuel Caetano, entre outros. Na mesma altura, em Ponta Delgada essa missão foi tomada pela imprensa: Diário dos Açores, Correio Micae-lense, Revista Pedagógica, A Persuasão e A Folha. Entre os fundadores encontrava-se Alice Moderno, uma incansável lutadora pela causa. Ou seja, a imprensa da época não se limitava a abrir as páginas à colaboração dos seus leitores, mas ela própria tomava a iniciativa de promover a defesa das causas que considerava justas. Não se limitava a informar, mas também a formar cidadãos, uma postura que ficaria muito bem a alguns órgãos de comunicação dos nossos dias. 

Quanto ao facto de no distrito da Horta se não ter fundado a respetiva associação, Alice Moderno esclarece o motivo, dizendo que havia ficado impressionada com a forma fraternal como os animais eram tratados no Faial e no Pico. Outros exemplos podiam ser retirados da imprensa do século XIX e XX protestando contra a barbárie do mau trato dos animais. Quando em 1895, ocorreu na Terceira a morte de um toiro, numa quinta particular na Terra-Chã, o jornal A União teve a coragem de enfrentar um setor da elite angrense que participou no evento. Curiosamente uma elite que andava a esforçar-se para mostrar a sua civilidade, procurando alterar costumes que considerava retrógrados e brutos, como por exemplo o Carnaval.

Sou da Terceira e por isso falo à vontade. Gosto de touradas mas não do mau trato infligido aos animais. Nem eu nem o nosso povo. Basta estar atento no arraial duma tourada à corda para ouvir o bruá quando o animal cai por causa de uma pancada mais forte dos pastores. É um eco de desconforto contra um gesto considerado impróprio que provocou sofrimento no animal. Esta é que é a nossa postura cultural: brincamos com o animal, em igualdade de circunstâncias, mas não temos prazer no seu sofrimento.  

 

 

 

 

 

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