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13
março

O espaço público europeu

Escrito por  Maria do Céu Patrão Neves
Publicado em Patrão Neves

No nosso regime democrático, numa democracia que já tem idade para se afirmar como amadurecida na sua consistência e sustentabilidade, a participação dos cidadãos é a única garantia efectiva para a continuidade do regime De facto o nível de participação dos cidadãos e o da atenção que os poderes instituídos lhes atribui constituem o verdadeiro barómetro da saúde de uma democracia.

Lamentavelmente, o nível de participação dos cidadãos é regra geral baixo e o nível de atenção que lhes é dada pelas instituições também não é significativo.

Com efeito, a democracia participativa não se reduz a manifestações ou protestos, mas exige conhecimento (dos temos sobre os quais se quer debater e as competências dos vários órgãos de poder para os resolver), organização (para uma ampla implantação e eficácia) e mobilização (na recolha de apoios para construir a sua representatividade). Também a atenção dos políticos e instituições  implicadas não se reduz à manipulação de alguns aspectos em prol dos seus próprios interesses, mas antes em acolher o que são também os novos contributos da sociedade civil e, sobretudo, dar-lhe sequência. Quando, sucessivamente, as iniciativas dos cidadãos resultam inconsequentes, estes desmotivam-se e desmobilizam e, claro, a democracia participativa atrofia-se. Esta é, em traços reais, a nossa realidade. Por exemplo, este mês de Fevereiro foi entregue na Assembleia da República uma petição de cidadãos com 48.000 assinaturas validadas (o mínimo são 35 mil) a favor de um Projecto de Lei de “Apoio à Maternidade e à Paternidade – Do Direito a Nascer” o que inclui, entre as várias propostas, uma revisão da lei do aborto que ofereça reais alternativas à mulher grávida que quer ter o seu filho. Só o CDS manifestou algum interesse...

Por isso, pela importância vital que reconheço à participação dos cidadãos na sociedade e também como meio para alterar o seu actual deficit, entusiasmei-me com a prerrogativa que o Tratado de Lisboa instituiu, em 2009, de uma Iniciativa Europeia de Cidadãos/ IEC. Esta consiste na possibilidade dos cidadãos europeus introduzirem novos temas na agenda política europeia, desde que assinados por um mínimo de um milhão de cidadãos de 7 Estados Membros.

Ora, esta expectativa também saiu gorada em 2014. Ao longo de 2013 e 2014 houve vários movimentos de cidadãos que se organizaram e que se propuseram  fazer uma petição europeia de cidadãos. Várias conseguiram milhares de assinaturas mas não em número suficiente para se poderem apresentar formalmente. Algumas outras conseguiram até reunir o número de assinaturas necessárias em cada um dos sete países sem, todavia, terem cumprido os complexos requisitos processuais. Raras lograram ultrapassar todos estes crivos e chegaram a ser apresentadas à Comissão Europeia e ao Parlamento Europeu para  virem depois a ser depois rejeitadas, aparentemente de forma arbitrária. Eis o caso da petição Um de Nós, a qual propunha tão-somente a proibição de utilização de dinheiros públicos para a investigação com células estaminais embrionárias e que reuniu perto de dois milhões de assinaturas em 20 Estados Membros e que a CE simplesmente recusou.

Perante esta situação, que me atrevo a qualificar de frustrante, a Comissão das Petições do Parlamento Europeu organizou esta semana uma audição entre os vários promotores das Iniciativas Europeias de Cidadãos, na qual estive presente. O objectivo era o de recolher informações para - espera-se - vir a alterar o regulamento da IEC de forma a permitir a construção efectiva de uma democracia participativa. Afinal, as estatísticas mostram que, depois do entusiasmo inicial com a IEC e de uma significativa mobilização dos cidadãos em várias temáticas, o resultado dos seus esforços conduziu ao desalento e a uma queda abrupta da mobilização dos cidadãos na União Europeia. 

A prerrogativa da IEC criou formalmente as condições para um espaço público europeu através da partilha de uma mesma preocupação por cidadãos em vários Estados Membros e de uma mesma iniciativa, de uma iniciativa conjunta para lhe dar resposta. Eis no que consiste um espaço público europeu. A nível nacional, como a nível europeu, há uma preocupação evidente acerca da vida humana na fase mais vulnerável da sua constituição, a qual continua sistemática e ostensivamente a ser ignorada. Para que este espaço público europeu, como um genuíno espaço público nacional, se possa vir a tornar realidade é necessário que todos os cidadãos possam ser ouvidos e respeitados nas suas pretensões. Tal não obriga ao cumprimento das pretensões de cada grupo de cidadãos, mas exige certamente o debate alargado das suas ideias nos fóruns que supostamente os representam. 

www.mpatraoneves.pt

 

 

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