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20
março

TOIRO PICADINHO (2)

Escrito por  Carlos Enes
Publicado em Carlos Ferreira

Os defensores da introdução da prática de picar o toiro insistem que faz parte da tradição e que é um fator de promoção do turismo.

Utilizar o sofrimento dos animais para justificar a entrada de verbas na região, não me parece o caminho mais correto, mas a afirmação revela um desconhecimento completo do perfil de quem visita a região. Quem nos procura, seja nacional ou estrangeiro, vai ao encontro da natureza, vai ao encontro do equilíbrio entre o homem e essa mesma natureza, coisa rara nos dias de hoje, vai ao encontro do valioso património humano edificado e de um ambiente único no mundo, pautado por uma certa calma e doçura na forma de viver.

A imagem dos Açores que tem sido apregoada, e muito bem, congrega estes valores e são eles que atraem forasteiros. Introduzir toiros picados vai gerar uma onda de protestos com consequências graves no turismo. E não se julgue que as pessoas são indiferentes a estas questões. Quem ler os jornais do início do século XX já encontra críticas de estrangeiros aos nossos “brutos” costumes por maltratarmos os animais domésticos; o que não dirão da brutalidade que agora se quer introduzir… 
Os Açores têm um passado histórico a preservar, uma cultura que nos honra, uma imagem positiva em todos os cantos do mundo, uma forma de estar reveladora do processo civilizacional que constitui a longa caminhada da humanidade. O que se defende agora é um retrocesso.  
Quanto à recuperação da tradição, folheei ao longo da vida muitos jornais e não encontrei nada que refira a prática de picar os toiros, como uma componente da festa taurina. Não se invoque Luís da Silva Ribeiro, porque ele não o afirma e nem sequer era defensor dessa barbaridade. Recordo, por exemplo, que, quando foi administrador do concelho de Angra, deu ordens à polícia para não permitir maus tratos aos animais, nem que os carros fossem puxados por cães, conduzindo pessoas ou cargas excessivas.
Ainda nos princípios do século XX, os nossos homens do campo iam às touradas acompanhados do seu bordão, com um aguilhão cravado na ponta. A brutalidade que caracterizava muitos deles levava a que espetassem o animal, para que a ferroada provocasse a correria do bicho. Trata-se de atos individuais, isolados, que não faziam parte da estrutura da festa. Não se confunda estas atitudes como uma prática generalizada. E a prová-lo estão precisamente as críticas que foram feitas na imprensa a estes atos, considerados bárbaros.  
Os defensores dos toiros picados argumentam que só vai à tourada quem quer, como se o problema fosse esse. Independentemente de quem vê, o animal sofre quando é picado. A questão centra-se no animal e não no espetador. 
Para nós, açorianos, nunca foi uma tradição cultural e mesmo que o fosse o que a humanidade tem feito é combater o que há de negativo no comportamento do Homem. É por isso que se combate o alcoolismo, a violência doméstica ou a prostituição apesar de serem uma prática que se enraizou. A defesa dos direitos humanos e a defesa dos direitos dos animais são uma conquista que marca a era moderna, que nos distingue da barbárie de outros tempos. 
Não inventem tradições culturais que nunca existiram na Terceira e muito menos nas outras ilhas. Há   uns séculos atrás, picámos o gado  por uma justa causa - escorraçar os castelhanos na Batalha da Salga; hoje, querem picar toiros para  atrair turistas espanhóis. Será isto progresso? 
 
 
 
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