Retalhos da nossa história – LXXXV
Prosseguindo o que já era habitual na República – que neste ponto, como em outros, seguia os costumes vindos da Monarquia – o poder político sofreu uma mudança radical. Deste modo, o ministro do Interior, coronel Gomes Teixeira, nomeou governadores civis da sua confiança política, os quais, por sua vez, se encarregaram da substituição dos administradores de concelho e dos restantes membros das autarquias locais.
Para o cargo de governador civil do distrito da Horta a escolha recaiu no histórico e respeitável republicano Caetano Moniz de Vasconcelos. Invocando o já tradicional “motivo urgente de serviço público” o titular da pasta do Interior nomeou-o a 9 de Fevereiro, ocorrendo o acto de posse a 22 desse mês. Desse evento dá ele conta a múltiplas autoridades, em circular datada do mesmo dia, e assim redigida: “Havendo tomado posse e entrado no exercício do cargo de governador civil deste distrito tenho a honra de assim o comunicar a V. Ex.ª, assegurando-lhe a mais franca e leal colaboração em tudo quanto depender das minhas atribuições legais”. No respectivo processo, são muitas as respostas a esta mensagem que, também protocolarmente, agradecem a participação e, obviamente, se “disponibilizam para total colaboração”[1]. Seguindo o ritual da governação portuguesa, logo tratou de substituir os administradores de concelho por outros da sua confiança político-partidária, de preferência unionistas como ele. Assim, entre os dias 8 e 20 de Março, assinou as ordens de serviço de nomeação dos seguintes cidadãos para aqueles cargos: João Machado Teixeira, Horta; Francisco Cruz Ribeiro da Silva, Madalena; João Maria Álvares, Santa Cruz das Flores; Manuel Rodrigues Luís, São Roque, Pico; Manuel Rodrigues Amaral, Lajes do Pico e Joaquim Pedro Nunes, Corvo.
Mas, factores vários, como sejam os decorrentes da 1.ª Guerra Mundial, as constantes dificuldades económicas e sociais, com subidas de preços e falhas de abastecimento de produtos essenciais, conjugados com o anúncio de Pimenta de Castro do adiamento de eleições (o que era prejudicial para os três partidos republicanos, sobretudo para os democráticos de Afonso Costa) levou a que uns abdicassem de apoiar aquele Ministério – caso do partido Unionista de Brito Camacho – e que outros, em especial os afonsistas, pusessem em marcha uma fortíssima campanha que culminou no golpe de Estado de 14 de Maio de 1915, com centenas de mortos e feridos e com a resignação do Presidente Arriaga.
Entretanto, Caetano Moniz de Vasconcelos, líder distrital dos unionistas havia requerido a demissão do cargo de governador civil da Horta quando, em finais de Abril, o seu partido retirara o apoio ao gabinete de Pimenta de Castro. O diploma que o demite, “a seu pedido e por motivo urgente de serviço público” tem a data de 1 de Maio, dia em que foi nomeado o seu substituto engenheiro António Birne Pereira.
Um interessante percurso de vida
Na verdade, tinha 27 anos quando, pela primeira vez veio residir para o Faial, assumindo as funções de adjunto do engenheiro director das obras de construção da doca da Horta. Disto nos dá notícia um extracto da sessão de 26 de Janeiro de 1876 da Junta Administrativa das Obras do Porto da Horta, presidida pelo governador A.J.V. Santa Rita que, apreciou uma “recente portaria do Ministério do Reino, na qual se lembrava que conviria chamar para a repartição das obras públicas deste distrito o amanuense desenhador de obras públicas do distrito de Ponta Delgada, Caetano Moniz de Vasconcelos, na qualidade de condutor de obras públicas, para o que se acha devidamente habilitado pelo respectivo Ministério”. O objectivo era o de que “este empregado” fosse “encarregado da superintendência dos trabalhos do porto artificial, sob a direcção superior do engenheiro Kopke”[2]. [Álvaro Kopke Barbosa de Ayala] Nomeado adjunto do engenheiro director, Vasconcelos veio residir para o Faial, cabendo-lhe a efectiva condução dos trabalhos com o vencimento mensal de 96$250 reis. A partir de certa altura – e porque a baixa política em tudo se intrometia, como, aliás, ainda se intromete – as paragens e as modificações dos trabalhos da doca da Horta tê-lo-ão levado com mais frequência a São Miguel. Quer em Ponta Delgada, quer na Horta, destacou-se pelas suas convicções republicanas que jamais cessou de divulgar. Na década de 80 do século XIX foi membro da Comissão Executiva do Centro Republicano Federal de Ponta Delgada e director do seu jornal oficial, o semanário A República Federal. Quando, em 1888, Caetano Moniz de Vasconcelos voltou definitivamente ao Faial, aquele periódico sofreu um golpe tão forte que o levou à extinção, confirmando-se as previsões dos outros responsáveis daquele projecto quando admitiram que “a lacuna que nele deixou aquele carácter inquebrantável, aquela vontade de ferro” que “só pelo mesmo poderia ser preenchida”[3].
Além do seu empenhamento cívico e político, Caetano de Vasconcelos era um técnico conceituado. É isso que escreve o Chefe dos Serviços Meteorológicos dos Açores, coronel Francisco Afonso Chaves quando, em 1892, procurou determinar a altitude do Pico por meio do nivelamento barométrico, fê-lo com o auxílio de “três dedicados e inteligentes companheiros, os Snrs. Caetano Moniz de Vasconcelos, Director das Obras do Porto artificial da Horta, Francisco Diogo de Sá, 1.º Tenente da Armada e João Pereira Gabriel, chefe de secção das acima citadas Obras da Horta”[4].
Durante o regime monárquico, Vasconcelos jamais fraquejou nos seus ideais democráticos e republicanos e não temos notícia de alguma vez haver colaborado politicamente com os partidos que apoiavam a realeza e dela viviam. Por isso, quando se deu o triunfo do 5 de Outubro de 1910, foi ele um dos mais requestados para assumir funções na República Portuguesa. O governador Machado Serpa, ao nomear a 13 de Novembro, a Comissão Municipal da Horta recorreu aos seguintes cidadãos: Caetano Moniz de Vasconcelos, Manuel Joaquim Dias, José Machado Teixeira, Henrique Garcia Monteiro, Carlos Pinheiro, José da Silva Cardoso e Manuel Peixoto de Ávila. Todos eles eram certamente convictos republicanos, embora alguns de fresca data!
A premiar uma vida de coerência cívica e de competência política o chefe do distrito escolheu Vasconcelos para presidente desse executivo municipal, mas ele não pôde tomar logo posse, uma vez que desde 10 de Outubro estava na ilha das Flores exercendo o cargo de administrador do Concelho de Santa Cruz, nomeado pelo mesmo governador.
Regressou à Horta em 18 de Novembro, assumiu as funções de presidente da Câmara até que, a 4 de Maio de 1911, foi nomeado pelo ministro do Interior, António José de Almeida, governador civil do distrito de Ponta Delgada.
Exerceu essas funções até à posse do Governo de Afonso Costa, sendo exonerado por decreto de 18 de Janeiro de 1913, conjuntamente com outros governadores civis, incluindo o da Horta, Augusto Goulart de Medeiros e o de Angra, António Afonso de Carvalho. Enquanto primeiro responsável político do distrito de Ponta Delgada teve importante papel na iniciação da unidade açoriana. Acolheu com extrema simpatia a embaixada do Fayal Sport Club que em Abril de 1912 foi a São Miguel realizar os primeiros encontros de futebol inter-ilhas. E, ainda governador civil de Ponta Delgada, presidiu à Comissão Iniciadora da Confraternização Açoriana, promovendo a vinda ao Faial, em Agosto daquele ano, de uma embaixada micaelense que foi apoteoticamente recebida, o que o levou a agradecer ao seu congénere do distrito da Horta, confessando-se muito grato “por todas as atenções e carinhos que aos visitantes prestou toda essa briosa cidade, sem a mínima discrepância de classes, todos à porfia procurando demonstrar a sua simpatia aos seus irmãos micaelenses” e fazendo votos para que se “cimentem cada vez mais os laços de união entre os povos insulanos”[5].
Após deixar o cargo de governador de Ponta Delgada voltou ao Faial, reassumindo a direcção dos Serviços Técnicos da Indústria no Distrito da Horta e participando activamente na vida política local, como dirigente do partido unionista, o que, como se salientou, o levaria à chefia deste em Fevereiro de 1915.
Viúvo de Cândida de Vasconcelos, falecida em 1908, residia na companhia da irmã Guiomar de Vasconcelos Moniz na rua Walter Bensaúde, freguesia da Matriz da Horta. Foi aí que, devido a uma forte gripe, se encontrou com a morte a 7 de Janeiro de 1919. Contava 69 anos de idade e para os que com ele privaram era “homem de grande valor moral e intelectual, rígido e inflexível nos seus princípios” que “não transigia em matéria de política, tendo, aliás, amigos devotados em todos partidos”[6].
A Delegação do Faial da Secretaria Regional da Ciência e Tecnologia tem vindo a realizar benfeitorias pontuais na rede de estradas regionais e nas sobras envolventes.
Com a “prata da casa”, a Delegação das “Obras Públicas” tem desenvolvido um trabalho meritório que tem contribuído para algum alindamento da nossa ilha, fruto da sensibilidade dos seus responsáveis locais.
Reparam-se guardas de pontes, substituem-se sinais de trânsito, melhoram-se umas defesas aqui e ali, plantam-se árvores e arranjam-se sobras, quer com parques de merendas quer com miradouros..., e ainda se colocam lunetas..., barbaramente vandalizadas, em actos de profunda falta de civilidade.
Não vou questionar a validade destas acções de cosmética, até porque são consequência de uma motivação dos trabalhadores, que já há alguns anos estava arredada da Rua Filipe de Carvalho nº6.
LEGITIMIDADE
Mas posso questionar a sua legitimidade.
Será legítimo investirem-se milhares de euros em merendeiras (à porta de casa), quando mesmo ao lado, na cidade, o piso em calçada da Estrada Regional nº 1 – 1ª / Marginal, está em péssimo estado, com os paralelepípedos soltos e deitados, mau para os pneus dos veículos, e ainda pior para os peões, que correm o risco de tropeçar e cair?
Será legítimo uns se banquetearem luxuosamente enquanto outros andam descalços torcendo os pés?
OPORTUNIDADE
Como também posso questionar a sua oportunidade, e a má gestão de uma Secretaria Regional, que faz lembrar aquelas famílias que não têm dinheiro para comer, mas tem telemóveis de última geração, som HI-FI e um “papa-reforma” ou carro tuning..., que faz inveja ao melhor bom gosto.
PRIORIDADE
Algo vai mal na definição destas prioridades.
Bem sei que a intenção (superior) é calar o povo com uns milhares de euros, enquanto os milhões são gastos nas Scuts, que todos nós vamos pagar com os nossos impostos, para alguns acelerarem de borla...
Temos assistido à execução de uma politica do “faz que anda mas não anda” que muito bem encobre as lacunas regionais nesta ilha, servindo os interesses da tutela.
Protelou-se a variante, com a conivência da Câmara Municipal e do seu Plano de Urbanização.
Adiou-se a asfaltagem das Estradas Regionais, com as desculpas sucessivas do Sismo, da Reconstrução, do Saneamento, do Porto... e sabe lá se o Golfe e as Termas também darão o seu contributo, neste futuro virtual adiado em que vivemos.
Não é preciso ser vidente, para já se estar a ver, os “Arautos do Poder”, que a soldo defendem o Governo Regional, virem sugerir que os “Arautos da Desgraça”, com as suas politicas de desenvolvimento (do betão e do asfalto) estão a comprometer o sucesso do melhor Rally dos Açores... em terra!
BOLEIAS
A Ilha do Faial e os seus representantes rosa são generosos em dar boleias ao Governo para justificar a ausência de obra nesta ilha, e até branqueiam os seus próprios actos, transformando erros confessos em actos heróicos, emitindo pareceres favoráveis e até elogiosos (à boca miúda) contra todos aqueles que gritam contra as plataformas logísticas...
Quem assim age contra o Faial, um dia será julgado pelo veredicto popular.
O Sismo justificou o adiamento da obra de pavimentação das estradas regionais, pois... não se iriam recuperar, para depois os camiões passarem por cima, e também, porque o Faial não tinha capacidade para absorver mais obras...
Parece que ainda dormem sobre esse argumento, do Sismo de há 12 anos.
É que, são os mesmo que dizem que a Reconstrução já acabou(?).
ATITUDE
Da mesma forma que o “porco”, em vez de se lavar, perfuma-se sobre a porcaria e veste roupa lavada (quando veste), assistimos a uma série de obras complementares, quando o essencial é descurado e relegado para segundo plano.
Enquanto os trabalhadores da Delegação de Ilha conseguirem fazer “flores” e oferecer ao secretário da tutela a oportunidade de brilhar e fazer inaugurações ridículas, para quê investir a sério?
Se os Faialenses gostam de migalhas, então dêem-lhes mais migalhas, até porque as Scuts levam tudo... “Eles comem tudo, eles comem tudo, e não deixam nada...”, já dizia o poeta!
Sai muito mais barato elogiar e promover os servidores mais esforçados, do que investir na qualidade da rede viária regional na ilha do Faial.
Perfume e/ou “água benta”, cada um põe o que quer.
Mas o raiz do problema está na “limpeza do corpo”, no trabalho profundo que continua por fazer..., que evidencia uma generalizada falta de atitude, séria e equitativa do Governo Regional, suportada por uma cómoda “bengala” da Câmara Municipal.
As bermas desviam a atenção e disfarçam a má qualidade da via, do piso, do traçado e da falta de bermas de segurança.
Será falta de mais lunetas, para conseguirem enxergar a realidade?
Lunetas..., mas daquelas que Eça de Queiroz usava, e agora revividas no retrato do nosso 1º Presidente da República, na figura de Victor Rui Dores!...
Contributos, para
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1. A vida da nossa comunidade como que se renova e desperta, neste início de Setembro, quando se inicia mais um ano lectivo. São as famílias com filhos em idade escolar às voltas com os gastos e com a preparação do material para os seus filhos; são os profissionais que nas escolas ultimam o arranque de um novo ano lectivo; são as nossas crianças e jovens, umas vivendo a nervosa magia da primeira entrada na escola, outros renovando as expectativas anuais de novos reencontros ou de novos desafios; e é o nosso pequeno burgo que se agita (já foi mais visível, antes da saída da escola Manuel de Arriaga para as suas novas instalações) e ganha um novo bulício com o início das actividades escolares.
2. Um novo ano lectivo que no Faial mantém o signo da perda consistente de alunos que frequentam as escolas, fruto, sobretudo, da queda demográfica que silenciosamente envelhece muitas das nossas freguesias e as vai esvaziando de instituições de referência do seu imaginário colectivo como o são as escolas. Os nossos responsáveis políticos tardam em despertar para este problema. Como tardam as medidas (que não podem ser só de distribuir subsídios) que promovam uma natalidade consciente e solidária. E como tardam as medidas que incentivem a fixação de casais jovens em muitas das nossas freguesias mais envelhecidas e demograficamente debilitadas.
3. Um estudo europeu, realizado em 19 países, divulgado em Junho passado, revelou que as classes profissionais em que os portugueses mais confiavam eram os bombeiros (com 93%), seguidos a curta distância pelos professores e carteiros.
Embora advogue em causa própria, e apesar das campanhas orquestradas para denegrir a imagem da profissão docente, é um enorme conforto ver que os portugueses confiam esmagadoramente nos professores dos seus filhos. Mesmo sabendo que há professores mais competentes que outros. Mesmo sabendo que há professores intelectualmente mais dotados que outros. Mesmo sabendo que há professores com personalidade mais adaptada à sua profissão que outros. E mesmo sabendo da incompreensão de quem carrega a vida inteira os fantasmas que não soube enfrentar e resolver enquanto foi aluno!
4. O Governo da República quer acabar com o Ensino Recorrente e deu já orientações às escolas para encaminharem os alunos para os cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA) ou para o programa Novas Oportunidades. Qual a diferença entre estas modalidades de ensino? Muito simples: um aluno do ensino recorrente demora três anos para concluir o ensino secundário. Um aluno dos EFA demora um ano e meio. Um aluno do Novas Oportunidades demora entre 6 meses e um ano.
Para além disso, nos cursos EFA, como escreve o Prof. Ramiro Marques, os alunos "em vez de Matemática têm uma coisa chamada Sociedade, Tecnologia e Ciência. História? Língua Portuguesa? Nem pensar! Química? Biologia? Física? Qual quê? São disciplinas demasiado marcadas pela selecção social para terem lugar no currículo socialista.
No currículo socialista ensinam-se estas 3 preciosidades: Sociedade, Tecnologia e Ciência; Cultura, Língua e Comunicação; Cidadania e Profissionalidade."
Não há dúvida que estamos no bom caminho: quando Sócrates deixar o Governo vai seguramente deixar, como uma das suas maiores heranças, uma multidão de ignorantes diplomados e um país com a educação na bancarrota da competência e da qualidade.
Esperemos que na Região prevaleça, ao menos nisto, o bom-senso!
5. Há ocasiões em que, quando assisto aos telejornais, dou comigo a ver em José Sócrates uma espécie de Dom Quixote de la Mancha dos tempos modernos. Ao invés do alucinado fidalgo castelhano, o nosso jovial e contemporâneo Primeiro-Ministro não investe contra moinhos. A sua cruzada é mais a de um ilusionista: procurar no palheiro da governação nacional a agulha que nos faça acreditar que estamos no melhor dos países e que temos o melhor dos governos. E nesta insana tarefa em que se lançou, indiscutivelmente partilha com Dom Quixote a obstinação e o afastamento da realidade. Em vez de falar verdade, Sócrates especializou-se em negar, iludir ou apresentar os factos pela perspectiva que lhe permita concluir que temos o melhor dos governos.
Exemplo desta postura foi a leitura (repetida acriticamente por muitos órgãos de comunicação social) que o Primeiro-Ministro e Governo fizeram do último Relatório da OCDE sobre Educação (Education at a Glance 2010: OECD Indicators, 07.09.2010): "Portugal em franco progresso na Educação", escrevia-se no Portal do Governo; "Foi um feito Portugal ter ultrapassado a média dos países da OCDE na taxa de cobertura do ensino pré-escolar", afirmou José Sócrates.
Mas, como escreve Paulo Guinote, "há mais coisas interessantes no relatório da OCDE para além dos dois únicos indicadores que o Governo decidiu servir à comunicação social para consumo geral (aumento do valor médio gasto por aluno e alargamento da rede escolar)."
Na verdade, nem o Governo, nem o Primeiro-Ministro pronunciaram uma palavra sobre o facto do mesmo relatório revelar que Portugal é o único país da OCDE em que o investimento (em relação à riqueza produzida e usando preços constantes) na Educação não-superior recuou, de um índice 100 para 97.
Por outro lado, depois da campanha insidiosa e condenável que o anterior governo de José Sócrates lançou contra os professores insinuando, entre outras coisas, que trabalhavam pouco tempo nas escolas, este estudo prova agora que os professores portugueses, desde o 1.º Ciclo do Ensino Básico até ao Ensino Universitário, todos eles afinal têm uma carga de trabalho (horas em sala de aula) 10 a 25% superior à dos professores da OCDE. Também sobre estes dados, nem uma palavra.
Na política como na vida, acredito que a verdade é sempre um bem supremo. Sem a verdade ilude-se as pessoas. Sem a verdade não se mobilizam as energias nacionais para a necessária recuperação nacional.
O grande problema é que este Primeiro-Ministro de tanto iludir, já acredita que é verdadeira e real a ilusão em que vive.
13.09.2010
O nosso país tem um significativo atraso no que se refere à qualificação dos recursos humanos em relação aos outros países da União Europeia; por sua vez, os Açores têm um atraso relativo ao continente português e entre as ilhas existem as naturais disparidades! Há, assim, que dar ao sistema educativo e à formação profissional o máximo de atenção político-económica, pois é crucial para uma perspectiva de competitividade da economia e, consequentemente, do bem-estar de todos.
Numa breve análise, constata-se que ao nível do secundário, o ensino continua demasiado generalista, com demasiadas aulas teóricas e académicas, em muitos casos afastado da realidade e daquilo que é o mercado de trabalho que se avizinha.
Deste modo, os empregadores não vão olhar para este nível de ensino como uma mais valia para as suas empresas, pois os níveis de produtividade e competitividade que se pretende no mercado de trabalho serão dificilmente alcançadas, pelo que urge mudar este rumo.
O facilitismo que impera e aumenta no ensino regular é contrário a todo este sistema, o caminho é exactamente o oposto, deve-se rever os vários níveis de educação, à semelhança do que fazem países e regiões mais desenvolvidos que a nossa, isto é, com critérios de maior exigência, de mais qualidade e principalmente virando o ensino para as necessidades do mercado. Na verdade, na economia actual, os novos activos já não têm lugar no Estado/no sector público da Região, daí que o ensino tenha que ser pensado para as empresas.
É preciso reconhecer que ao nível da formação profissional a Região evoluiu muito, muitas ilhas têm escolas profissionais e o número de formandos é considerável. Mas é preciso continuar a evoluir, não está tudo feito e há imperfeições a corrigir.
Por exemplo, é precisa mais participação de todos na definição da estratégia e das medidas necessárias para alcançar os objectivos e, para isso, têm de estar todos sentados à mesma mesa. Desconheço que governo, associações empresariais e estruturas sindicais se sentem com esta agenda, que tenham comissões de acompanhamento muito menos, pelo que é normal que, infelizmente, haja uns a falar grego e outros troiano.
Ao nível das escolas profissionais, que se expandiram e cobrem minimamente o mercado ao nível geográfico, à excepção do grupo Ocidental, o seu desempenho é avaliado ou estão à deriva quanto à classificação? Os resultados do número de alunos, cursos, nível de empregabilidade são premiados? Ou uma boa escola e uma má escola profissional têm os mesmos direitos?
Outra questão que provoca arrepios a quem trabalha em organização prende-se com a falta de sentido em gastar-se o nosso dinheiro em guerras de mercado entre as escolas profissionais e o ensino profissionalizante público.
Faz sentido haver tutela governamental distinta, isto é, as escolas profissionais terem a tutela da Direcção Regional do Trabalho, Qualificação Profissional e Defesa do Consumidor, da Secretaria Regional do Trabalho e Solidariedade Social, e o ensino dito regular público encontrar-se sob a alçada da Secretaria Regional da Educação e Formação? Será que esta situação não provoca gastos desnecessários, descoordenação e falta de objectividade?
Com tantas escolas profissionais e algumas próximas geograficamente e, por isso, de alguma forma concorrentes, será que têm uma visão única do mercado regional de formação profissional, será que promovem reuniões para acertar agulhas, será que têm um interlocutor entre eles e o governo, para que haja sintonia e eficiência, ou são elas próprias células isoladas e por conseguinte mais frágeis?
As novas obrigações do recente código de trabalho que prevêem, entre outras, a obrigação das empresas disponibilizarem formação aos seus activos e o direito destes a receberem está a ser cumprida? Obviamente que não.
Tantas interrogações deixam perceber que muito há a fazer ao nível da educação e da formação nos Açores. No próximo artigo, focalizarei este tema na ilha do Faial.
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(Continuação)
Como o tio Juan do Nascimento faleceu em 3 de Fevereiro de 1917, sem ascendentes nem descendentes, os diversos sobrinhos ou seus representantes foram seus herdeiros. Resolvida a contenda então existente, entre ele Manuel Carlos e os herdeiros ausentes, que também queriam herdar, ele acabou por adquire a parte da livraria dos restantes herdeiros. Assim, o casal Nascimento passou então a residir em Santiago, onde conseguiu renovar e rentabilizar a Livraria Nascimento então recebida. Nesse ano de 1917, funda a Editorial Nascimento, nessa mesma cidade. Procura então assessorar-se dos mais distintos especialistas na matéria, tendo acabado por fazer sociedade com dois dos seus melhores amigos, mantendo o domínio das empresas.
Na Editorial Nascimento editam-se, assim, livros dos mais distintos escritores do Chile, entre os quais se salienta Pablo Neruda, com diversas obras ali editadas, Gabriela Mistral, Andrés Sabélia, Francisco Encina, Pedro António González e muitos outros. Não é fácil imaginar o prestígio editorial que, em relativamente poucos anos, a Editorial Nascimento conseguiu obter. Por outro lado, na Livraria Nascimento vendiam-se livros escolares, de direito, de medicina, de história, de divulgação científica diversa, de poesia, romances, e de literatura vária, nacional e estrangeira.
Todavia, Nascimento, que dizia ter as portas abertas da sua editorial a todos os escritores, declarava não ser um homem de dinheiro. Em 21 de Maio de 1923 mudou a sua empresa para a Rua Arturo Prat, 1432, em Santiago, onde os seus negócios continuaram a florescer.
Mas na vida real da família Nascimento nem tudo são rosas. No ano de 1944 sua mulher, Rosa Elena Marquez, com quem trocava sempre impressões sobre as suas grandes decisões e gostos de leitura e de cultura, viria a falecer nesse ano.
Já meio recomposto daquele abalo, em 1948 decide visitar a ilha do Corvo onde parece que nem terá reconhecido, de início, as próprias irmãs e demais famíliares e amigos ali deixados quando partiu em 1905. Todavia, na estrutura da ilha pouco havia mudado nesses 43 anos de ausência.
Regressado ao Cilhe, a vida continuou, com o filho Carlos a assumir, desde os 21 anos de idade, a gerência da Editorial Nascimento.
Manuel Carlos George Nascimento acabaria por falecer em Santiago em 12 de Janeiro de 1966, longe da ilha que o viu nascer, mas junto dos familiares que ainda possuia nesse país, onde soube
Convém esclarecer, quem não conheça o livro do Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia del Postigo, intitulado “O Corvino Carlos G. Nascimento, co-arquitecto das Letras Chilenas” que essa obra tem, efectivamente, grande profundidade histórica. Aborda caminhos, em certos casos previsíveis, de vários elementos da família de Manuel Carlos George do Nascimento, quer dos seus ascendentes, quer dos seus descendentes. Dá especial relevo à vida deste prestigiado corvino, figura ímpar da cultura e das letras chilenas, essencialmente pela forma com venceu as precárias condições de emigrante com que chegou ao Chile.
Nele o autor refere que Manuel Carlos foi o mais fervoroso dos editores chilenos, em livros limpos, preciosos na sua elegância, honrando desse modo a tipografia nacional. Refere que ele recordaria muitos anos mais tarde que, “Em princípio, a sua maneira lenta de falar, dava a impressão que era um jovem carente de vontade”. Evidencia a portugalidade de Nascimento, considerando-a como a “mais genuína porque mais marítima… e muito ferida pelas despedidas dos emigrantes e das lágrimas caídas…” (2)
Mais adiante acrescenta que, segundo o filho, “Júlio George Nascimento, o pai lia até altas horas da madrugada e depois passava os textos para a mãe, Rosa Elena, para conhecer a sua opinião. A selecção baseava-se nos seus gostos literários. Como ambos gostavam de poesia, a editorial foi exclusivamente dos poetas durante longo tempo” (3).
Escreve também que Manuel Carlos “Era um homem alto, mais para o magro, de rosto comprido e com calvície incipiente, fontes grisalhas, de sobrancelhas espessas, lábios grossos, como a armação dos seus óculos, de falar rouco e pausado, com sotaque especial que fazia sobressair a sua natural simpatia e bondade. Vestia escuro com correcção e simplicidade” (4).
Salienta que “O seu labor pela literatura transcendeu os cenáculos e o público selecto. Para isso, criou a Colecção Popular Nascimento, onde incluiu obras de grande qualidade a baixo preço com grandes tiragens para que muitas pessoas pudessem ter acesso a elas” (5).
Refere também que “o senhor Nascimento raramente se zangava com os autores” e que “era dono dos direitos de edição de centenas de títulos” (6).
Todavia, depois do seu falecimento, terminaram em 1986 as suas actividades, quer a Livraria, quer a Editorial Nascimento.
Estas são algumas das muitas referências elogiosas com que aquele autor se refere este ilustre corvino.
Em 24 de Maio de 2010, Manuel Carlos George Nascimento foi agraciado, a título póstumo, com uma medalha da Região Autónoma dos Açores, numa sessão solene, no dia da Autonomia, que teve lugar na sua terra natal, a ilha do Corvo. Essa medalha visa homenagear essencialmente todos os açorianos que se distinguiram, dentro ou fora da Região, e que pelos seus feitos sejam merecedores de tal distinção.
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Bibl: Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), edição da Direcção Regional da Cultura, por especial deferência do autor e da mencionada Direcção Regional da Cultura, do Governo Regional dos Açores; Jorge, Padre Lourenço “Notas do Corvo”, Organização de João Saramago, Fotografia de Jorge de Barros e Design de João Machado (2001), edição da Câmara Municipal do Corvo; fotocópia do registo de nascimento do próprio existente na Biblioteca Pública e Arquivo da Horta.
(3). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), p. 105, edição da Direcção Regional da Cultura;
(4). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), p. 131, edição da Direcção Regional da Cultura;
(5). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), p. 137, edição da Direcção Regional da Cultura;
(6). Del Postigo, Prof. Doutor Vásquez de Acuña Marquês Garcia, “O Corvino Carlos G. Nascimento – co-arquitecto das letras chilenas” (2004), pp. 144 e 145, edição da Direcção Regional da Cultura.