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20
agosto

Rastreio do Cancro da Mama no Faial - Prevenir para não remediar

Escrito por  Marla Pinheiro/fotos: Susana Garcia
Publicado em Reportagem
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Diz a sabedoria popular que mais vale prevenir do que remediar. No que toca à saúde, esta é uma regra de ouro, pelo valor do bem em questão. Em determinadas situações, a diferença entre prevenir e remediar é a diferença entre a vida e a morte. O cancro da mama é uma dessas situações. Sendo o tipo de cancro mais comum no sexo feminino, em Portugal, e de acordo com dados disponíveis no site da Liga Portuguesa contra o Cancro, morrem anualmente 1500 mulheres com cancro da mama. Na Região, os últimos dados oficiais remontam ao triénio 2000/2002, e indicam que anualmente são detectados em média 95 casos de cancro de mana, 36 dos quais fatais.

É precisamente com o intuito de agilizar a prevenção do cancro da mama na Região, de forma a diminuir a mortalidade, que o Centro de Oncologia dos Açores procede desde Novembro de 2008 ao Rastreio Organizado de Cancro da Mama no arquipélago. No âmbito deste rastreio são monitorizadas todas as açorianas entre os 45 e os 74 anos. Neste momento, a unidade móvel de rastreio está no Faial, onde permanecerá até 23 de Setembro.

Instalada no Largo do Infante, a Unidade Móvel de Rastreio do Cancro da Mama não passa despercebida. Até ao final de Setembro, tem as suas portas abertas às cerca de 2700 mulheres faialenses entre os 45 e os 74 anos. Em 15 minutos, aquelas que compareçam à chamada fazem um exame rápido e gratuito. Não custa nada, e pode revelar-se uma medida preciosa na detecção precoce de cancro da mama.

Raul Rego, coordenador geral do rastreio e presidente do Conselho de Administração do Centro de Oncologia dos Açores, falou ao Tribuna das Ilhas da importância desta iniciativa: “este é um rastreio organizado de base populacional. Isto significa que envolve todas as mulheres açorianas na faixa etária dos 45 aos 74 anos de idade, em todas as ilhas”, explica.

O rastreio já cobriu as ilhas das Flores, Corvo, Graciosa, Pico, e Santa Maria. Neste momento, as unidades móveis estão no Faial e em São Jorge. 

A unidade móvel que está actualmente no Faial está equipada com a tecnologia mais avançada disponível no mercado mundial na área da imagiologia, no que concerne aos exames da mama. Este novo equipamento, para além de permitir imagens com muito mais qualidade, possibilita maior rapidez na execução do exame. A grande vantagem, contudo, está na diminuição da radiação a que a paciente fica exposta, como nos explicou Raul.

As mulheres da faixa etária alvo de análise são convocadas formalmente, por carta. Na véspera do exame, são contactas pelo Centro de Saúde, para confirmar a sua presença. Raul garante que, caso alguma não possa comparecer no período indicado, é fácil reagendar o exame. O importante, ressalva, é que todas façam o rastreio.

De acordo com o coordenador, as imagens recolhidas nestas mamografias são depois transferidas para uma das duas estações de leitura especializada da Região, em Ponta Delgada e na Terceira. Lá, são vistas por dois imageologistas. Em caso de divergências na leitura do exame, o “tira teimas” caberá a um terceiro imageologista.

 Depois desta análise dos resultados, cada caso recebe uma classificação. Os casos em que não são encontradas razões para alarme deverão continuar a ser rastreados de 2 em 2 anos. Se houver motivos para preocupação, a mulher em questão é convocada para uma consulta de aferição.  Esta ocorre em média cerca de 3 semanas depois. Depois, o tempo entre a aferição e a intervenção hospitalar é de cerca de uma semana. Raul garante que “estes tempos de espera estão dentro dos parâmetros internacionais”.

O coordenador explica que a mamografia de rastreio tem o objectivo de “detectar precocemente micro calcificações”. “O rastreio não existe para detectar evidências. Existe para detectar situações escondidas. Serve para prevenir e não para remediar”, reforça, lembrando que os caroços são facilmente detectáveis através do auto exame da mama e nas consultas regulares.

 Ora, se o que se pretende é detectar casos de cancro mais cedo, isso significa que a taxa de incidência de cancro nos Açores irá aumentar. No entanto, com a detecção precoce vem uma maior facilidade de tratamento, daí que Raul esteja optimista em relação a uma diminuição da mortalidade por cancro da mama na Região.  

Apesar do elevado grau de importância deste rastreio e da facilidade com que as mulheres a ele podem aceder, a verdade é que a taxa de adesão não é muito animadora. Segundo Raul, a média regional ronda os 50%. No entanto, está optimista em ver estes números subir, principalmente no Faial.

Prevenir é curar

O risco de desenvolver cancro da mama é mínimo antes dos 30 anos, e elevado a partir dos 45/50 anos. No entanto, se detectados a tempo, mais de 90% dos casos de cancro têm cura. Para fazer essa detecção precoce. O auto-exame da mama e o rasteio são fundamentais.

O auto-exame da mama deve ser feito todos os meses, no banho, deitada ou em frente ao espelho, na semana seguinte ao período menstrual. A forma correcta de o fazer é colocando uma mão atrás da cabeça e, com a outra, palpando a mama do lado oposto. Depois, deve-se trocar as mãos e repetir a operação na outra mama. Com movimentos suaves verticais e circulares, a mulher deve estar atenta a qualquer caroço. Se detectar algo, deve procurar o médico.

 

A experiência na primeira pessoa

“A família é um pilar”

Noélia Pinheiro tem 53 anos. Alegre e confiante, a sua energia ao entrar na sala contagia de imediato as restantes pessoas. De risadas prontas, ninguém diria que há cerca de um ano Noélia vivia o pior pesadelo da sua vida. Em Abril de 2008 foi-lhe diagnosticado cancro da mama. O mundo, como o conhecia, fugiu-lhe de baixo dos pés, e Noélia viu-se obrigada a enfrentar uma batalha diária, repleta de provações e sofrimento. Hoje, apesar da ameaça do cancro ser uma sombra constante, trata de a sacudir para longe. Professora reformada, Noélia sente-se bem, feliz, e está apostada em assim continuar.

Em conversa com o Tribuna, Noélia confessa que não esquece o dia em que, durante o banho, o encontrou. Um simples caroço, pequenino, mas que Noélia sabia que podia ser um problema de proporções enormes. Estávamos ainda em 2006 e Noélia correu para a médica. A primeira biópsia disse-lhe que estava tudo bem, e Noélia suspirou de alívio. Por pouco tempo. Em 2007 fez uma mamografia, e o caroço voltou a preocupar os médicos. Na segunda biopsia Noélia conheceu finalmente o “seu” cancro, companheiro indesejado dos tempos seguintes.

Em menos de uma semana Noélia foi ser operada, em Abril de 2008. Em Maio começou a quimioterapia, no serviço de hemato-oncologia do Hospital da Horta. Se achava que o seu calvário não podia piorar, a químio veio mostrar-lhe que estava errada: “sentia-me muito mal, vomitava lá, estava sempre enjoada e fraca. Queria estar sempre deitada. Foi uma fase muito má”, recorda.

Ficar sem cabelo é uma das consequências do tratamento que não esquece: “o cabelo começou a cair após o primeiro tratamento. Perto do segundo, o cabelo já me caía muito no banho. Eu já tinha uma cabeleira para usar, mas não estava a saber lidar com a situação, então não lavei o cabelo nos dias antes do segundo tratamento, para que este não caísse. Quando voltei do tratamento tomei banho, e ele acabou por cair”, lembra. A sensação é indescritível: “sair da banheira e encontrar o espelho na nossa frente é um choque muito grande".

Depois da quimioterapia seguiu-se a radioterapia. Noélia deslocou-se à Amadora, no continente, e lá permaneceu durante dois meses, durante os quais fez 33 sessões de radioterapia na Clínica de Santo António. “São sessões rápidas, que demoram cerca de 15 minutos, sendo que apenas estamos sujeitos à radiação durante dois minutos”, lembra.

O marido de Noélia acompanhou-a a Lisboa, como, de resto, a acompanhou sempre ao longo desta provação. Sem ele, e sem a ajuda dos dois filhos já adultos, Noélia garante que teria sido ainda mais difícil. “A família é um pilar”, frisa.

No entanto, não dúvida de que a maior esforço teve sempre de ser o seu: “a família e os amigos ajudam muito, mas se nós não fizermos força podemos ter todas as ajudas do mundo que não serve de nada”, refere.

Durante este calvário Noélia nunca pensou que o cancro a iria vencer. Sempre acreditou que seria ela a cantar vitória no final: “sempre pensei que isto ia acabar, e que eu ia ultrapassar. Há alturas em que nos sentimos em baixo e choramos, principalmente à noite. Mas eu pensava sempre que tinha de ultrapassar”, conta.

Para tal, Noélia entende que um dos segredos foi nunca ficar parada: “nunca me deixava ficar na cama, fazia a minha vida toda devagarinho, mas ia fazendo. Nunca me escondi em casa, o que é muito importante”, conta.

Ao olharmos para Noélia, jovial e activa, dificilmente diríamos que a ameaça do cancro ainda não ficou verdadeiramente para trás. Mas a verdade é que ela aí anda, ainda, a rondar. “Só depois de cinco anos saberei. Continuo a fazer uma medicação, e a ser vigiada, até agora de 4 em 4 meses. Em pouco tempo passará a ser de 6 em 6 meses”, conta. No entanto, Noélia não pensa nessa hipótese. Para ela, o martírio acabou.

Agora, Noélia usa esta experiência traumática de uma forma positiva. Membro do Movimento Vencer e Viver, é uma das várias mulheres que já foram vítimas do cancro da mama que agora se voluntariam para apoiar outras mulheres, que se vêem a braços com o mesmo pesadelo.

Assim, às terças-feiras de manhã, Noélia está no Hopital da Horta, a dar força, conselhos e ajuda preciosa a mulheres que foram operadas: “são mulheres com pensamentos negativos sobre esta situação, e eu tenho de mostrar-lhes optimismo com o meu exemplo. Digo-lhes que olhem para mim, que vejam como já passou e como estou bem agora”, explica.

Noélia incita todas as mulheres a vigiarem-se, e a aproveitarem todas as oportunidades de prevenção, como é o caso da mamografia de rastreio. “Temos de ser nós a dar o primeiro passo e a levantar a cabeça”, afirma, dizendo que “as mulheres não devem ter vergonha, e devem ir e fazer a mamografia”. “Assim que sentirem um sinal de alerta devem reagir, correr para o seu médico, e conversar. Quanto mais depressa melhor”, aconselha.

A antiga professora admite que é difícil não ser invadida por uma sensação de medo ao encontrar um caroço, no entanto “ não é o medo que vai fazer com que aquilo desapareça, e também não é por o ignorarmos que vai embora”. “Quanto mais cedo formos tratadas mais hipóteses temos”, lembra.

Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 20.08.2010

 

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