O mundo em que vivemos já não é fácil para quem detém todas as suas faculdades, imaginam como será para quem não as tem? A sociedade tem-se formatado egoísta, preconceituosa e pouco preparada para aqueles que, quer por acidente quer pela natureza, são portadores de deficiência.
Com o surgimento da rubrica “Pessoas” no Tribuna das Ilhas, comecei a pensar quem, dos faialenses, mereceria este destaque… comecei a observar as pessoas. As pessoas comuns, não os políticos ou “grandes nomes” da nossa terra, mas aquelas que passam despercebidas e que, de alguma forma, marcam a nossa ilha de forma diferente.
Comecei a observar o António e a pensar, em que será que ele pensa, como será o dia-a-dia dele, será que as pessoas são preconceituosas em relação à sua condição?! Como será ser surdo?
Quem é o António?
O meu nome é António José da Costa Rosa, tenho 36 anos e nasci surdo. Aos dezoito meses, foi-me diagnosticada surdez bilateral profunda, provocada pela rubéola e, desde então, este acontecimento tem condicionado toda a minha vida, no relacionamento com a família, com os amigos, na escola e no trabalho. Desde tenra idade que iniciei um ciclo de consultas e exames que me obrigaram a deslocar anualmente a Lisboa até aos dezoito anos de idade.
Como foi a tua vida escolar, tendo em conta as tuas limitações?
Em 1982/1983, ainda não havia ensino especial nesta ilha capaz de abranger todas as freguesias. Por este facto, e apesar de residir a 24Km da Horta, a minha mãe deslocava-se, por sua conta, no autocarro, três vezes, por semana, à cidade, para que eu pudesse ter aulas de apoio com uma professora do ensino básico que tinha alguma experiência em trabalhar com crianças com necessidades educativas especiais, na área da surdez porque ela própria tinha um filho com o mesmo problema que eu. Paralelamente ao apoio que me era dado, a minha mãe também recebia apoio na forma como devia comunicar comigo e como podia ajudar-me a desenvolver a fala. Eram-me ensinados exercícios de terapia da fala que depois eu exercitava, em casa. Não tenho muitas recordações deste tempo, mas a minha mãe refere que eu passava muitas horas a treinar a fala e não brincava quando queria.
Desde logo foi posta de parte a possibilidade de utilizar a língua gestual, porque eu conseguia emitir alguns sons inteligíveis e a minha mãe e a professora que trabalhava comigo consideraram que a aprendizagem desta linguagem específica, só me iria afastar ainda mais do contato e convívio com os outros, familiares, amigos e conhecidos. Para além disso não havia, na ilha, estruturas e técnicos para dar apoio neste sentido. No ano letivo de 1985/1986 ingressei no 1º ano do ensino básico, integrado numa turma de ensino normal, nos Cedros, freguesia onde residia. Durante os quatro anos do 1º ciclo nunca beneficiei de nenhum apoio específico, por parte de nenhum profissional especializado (professor/psicólogo). Trabalhava, normalmente, com a professora do ensino básico que não fazia nenhuma adaptação especial às minhas dificuldades, exceto colocar-me na fila da frente, numa carteira perto da sua secretária, para facilitar a realização dos ditados.
Após o 1.º ciclo, ingressei no 5.º ano de escolaridade integrado numa turma de ensino normal e sem qualquer apoio de ensino especial. Nesta fase dos meus estudos, deixei de poder contar com o apoio direto da minha mãe e passei a ter algum apoio da minha irmã, apenas pontualmente, uma vez que esta estava ausente da ilha, para estudar. Até ao 3º ciclo, apesar de estar integrado em turmas regulares e de ter feito sempre todos os trabalhos/testes em igualdade de circunstâncias com os meus colegas de turma, a verdade é que beneficiava de algum apoio individual nas aulas e conseguia ter uma maior proximidade com os professores, para tirar dúvidas e apontamentos e tinha apoio da minha irmã. Frequentei, pela primeira vez o 10º ano de escolaridade, no ano letivo de 1996/1997. Foi uma mudança muito difícil para mim, tanto na adaptação às novas exigências, como também, na relação com os professores do secundário e com a forma como lecionavam as suas aulas. Tendo em conta as minhas limitações, beneficiei da dispensa da língua estrangeira, mas esta condição não foi suficiente para ultrapassar as dificuldades do ensino secundário.
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