O senhor Manuel Viana,- de seu nome completo Manuel Maria Viana,- nasceu em Abrigada, Alenquer, a 02 de Novembro de 1934. Por ali estudou as primeiras letras e fez escola de música na Sociedade Filarmónica da Abrigada integrando o naipe de clarinetes.
Alistou-se na Marinha em 1954. Foi radiotelegrafista e técnico de comunicações.
Iniciou os estudos secundários no Liceu de Ponta Delgada e frequentou o curso de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lecionou as disciplinas de Português, Eletricidade e Eletrónica, na escola de Comunicações da Armada e mais tarde Filosofia e Relações Públicas na Escola Secundária da Horta, em acumulação com as funções de Técnico de Comunicações da Estação Radionaval da mesma cidade.
Quando se aposentou, em Dezembro de 1992, fixou residência em São João do Pico, tendo integrado a filarmónica local como primeiro clarinete, enquanto a saúde lhe permitiu.
Foi nessas andanças pelas festas e atividades culturais da freguesia que conheci o “senhor Viana”, como carinhosamente era tratado. Conversávamos sobre livros, sobre projetos de livros, sobre coisas de livros, sempre. Olhava para mim com humilde reverência, com aquela timidez que lhe era caraterística, um senhor. Eu via-o com a admiração de quem olha para um ser raro. Ainda me acanho de falar dele. Manuel Viana era um grande escritor, digno de maior divulgação. O escritor que habitava o homem, sem que disso desse conta o cidadão comum, sabia e dizia muito mais do que os bancos da escola ensinam. Da vida e das suas mundividências soube colher e espelhar em palavras como poucos saberiam fazer.
Dos livros que editou, com tiragem numerada- editorial Escritor - de cinco me fez oferta autografada. Guardo-os religiosamente. Leio-os e releio-os de vez em quando, deliciando-me com a riqueza linguística da sua prosa, onde, por momentos, lembra Aquilino Ribeiro, deixando-nos depois com um sorriso largo pela ironia contida.
Não raro a poesia percorre trechos da sua obra pontoada de nostálgicas evocações, como esta in: “Da Macaronésia ao Meio Dia”:…”quando a tristeza me assalta, eu remoo sem parança saudades da juventude. (…) de quando bebia a água dos arroios da ribeira no côncavo da mão direita com girinos a boiar. De quando cobria o mundo com o véu da poesia julgando redescobri-lo. De quando, enfim, as mulheres eram, para mim, só helenas, e Tróia o expoente máximo da braveza marcial”…
Manuel Viana foi também um homem de ABRIL, e porque abril foi inda agora e faz seis anos que nos deixou fisicamente, - 25 Maio 2011 -, aqui fica este abraço de memórias, com a saudade que sempre me deixam aqueles de quem gosto e que fazem falta.
Entre outras, é autor das seguintes obras: “A Alma das Coisas”- Romance - 1996;
“Melopeia”- Romance - 1999
“A Lua Alcoviteira”- Contos -2000
“Abalada do PIDJIGUITI”--Romance- 2001-
“Da Macaronésia ao meio dia”-contos-2006