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23
março

José Duarte da Silveira - Antigo cabografista lamenta demora na concretização do Museu do Cabo Submarino e do Memorial da Alagoa

Escrito por  Susana Garcia
Publicado em Reportagem
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Nos finais do século XIX e durante mais de metade do século XX, a Horta tinha um papel essencial no advento das comunicações mundiais, através dos cabos submarinos que cruzavam oceanos tendo no Faial um importante centro nevrálgico, que trouxe à ilha as Companhias dos Cabos e com elas os alemães, ingleses, irlandeses, canadianos e americanos que marcaram a sociedade da altura e a história faialense.
José Cândido Duarte da Silveira era então um jovem faialense, que se especializou na técnica de cabos submarinos de telecomunicações, atividade que o levou à República Dominicana e Porto Rico, onde veio a exercer as funções de diretor geral do grupo internacional de comunicações da Companhia e onde vive atualmente e assume as funções de Cônsul honorário de Portugal há vários anos.
Ao Tribuna das Ilhas, José Duarte da Silveira recordou os tempos áureos dos cabos submarinos na Horta, que gostaria de ver imortalizados com a criação do Museu e do memorial da Alagoa dos Cabos Submarinos no Faial.

Em pleno século XXI, a facilidade com que nos ligamos ao resto do mundo instantaneamente, comunicando de forma fácil com qualquer ponto desta aldeia global em que se transformou o planeta Terra, faz parecer impossível guardar na lembrança um tempo em que comunicar com o resto do mundo não era tarefa fácil.
Com 83 anos, Duarte da Silveira lembra-se bem desse tempo. Anterior ao seu nascimento, no fim do século XIX, deu-se a instalação dos cabos telegráficos submarinos que, a partir da Horta, ligavam a América e a Europa criando possibilidades de comunicação até então inimagináveis. “Daqui partiam 15 cabos que ligavam a América à Europa. No mundo não havia tanta concentração de cabos como havia aqui na cidade da Horta”, recorda.
Outra particularidade que se verificava no Faial prendia-se com as capacidades dos técnicos. Duarte da Silveira conta que “em Estações que atendiam tráfego de meios grandes como Nova Iorque e Londres havia um engenheiro especialista para a entrada dos cabos nas praias, um engenheiro especialista na receção dos sinais, um na regeneração daqueles sinais... Havia um engenheiro para cada função. Mas no Faial era difícil que eles viessem todos, então vinha um, por certo quase sempre excecional, que conhecia todos os passos e assim nós aprendíamos um pouco de tudo”, lembra, destacando com orgulho a boa impressão que os jovens cabotelegrafistas faialenses causavam nos técnicos estrangeiros que encontravam nas estações para onde tinham sido colocados. “Eles não esperavam que o Faial tivesse pessoas com aquela capacidade. Nos primeiros anos os funcionários estrangeiros que aqui chegavam eram quase todos preparados em Londres, Nova Iorque e em vários sítios do Canadá, até que os locais começaram a aprender a técnica a partir da década de 1940”, refere.
“Nunca vi um engenheiro de laboratório vir instalar equipamentos no Faial. Era o nosso engenheiro chefe que nos ensinava e nós instalávamos e operávamos todos os aparelhos moderníssimos que cá chegavam, seguindo obviamente as devidas instruções que os acompanhava”, conta.
Mais ainda, “dizia-se que o técnico faialense Euclides Rosa, o artista do miolo da figueira, que construía localmente equipamentos sofisticados mais eficientes do que os originais. Não tive o prazer de o conhecer pessoalmente isto porque quando entrei para a Commercial Cable já Euclides Rosa tinha mudado a sua residência para o Brasil”, acrescenta.
O cabo levou José Duarte da Silveira para outros destinos, dos quais recorda vários episódios com tal nitidez que se diria terem sido vividos ontem, e não há décadas atrás: “uma vez, na República Dominicana, havia falta de capital no Governo e não permitiam importações que não fossem essenciais para o país. Estávamos em Santo Domingo e a Central Telex, equipamento crucial no fornecimento de comunicações locais, não tinha mais capacidade de expansão. A lista de espera foi aumentando e como não havia maneira de chegar a nova Central, eu e o Manuel Contente da Silva, um rapaz também aqui do Faial, e apesar de no Faial não termos esse tipo de equipamento, construímos a Central Telex. Fomos pelas lojas comprar resistências e condensadores e dos nossos armazéns onde havia equipamentos velhos fomos tirando peças e conseguimos material suficiente para construir a dita Central”, conta, com orgulho.
Os jovens faialenses que ingressaram nas companhias do Cabo Submarino aproveitaram com empenho os ensinamentos que receberam. Enquanto que os que operavam nas duas companhias americanas, Western Union e Commercial eram formados localmente sobre a direção do engenheiro chefe, os da companhia inglesa Eastern Telegraph eram preparados na escola de Porthcurno no sul da Inglaterra.
Um dos atrativos deste ofício para os rapazes locais era o ordenado, bem diferente do habitual nas outras áreas de atividade que a ilha oferecia: “os nossos ordenados eram altos. Eu, um técnico jovem de 22 anos, tinha uma compensação salarial semelhante à do governador de distrito”, exemplifica.
Os dias dourados do Cabo Submarino prolongaram-se por cerca de 70 anos, até o espectro da Segunda Guerra Mundial levar ao encerramento das companhias, começando pela DAT Alemã em 1943, as americanas Western Union e Commercial, a PT francesa e a Ital Cable na primeira metade da década de 1960, com a inglesa a seguir-lhes as pisadas poucos anos depois. Todavia, como recorda o antigo cabografista, ao cabo submarino seguiram-se outras evoluções nas Comunicações, como as interligações dos cabos em T, as estações de satélite, os cabos coaxiais e finalmente os cabos de fibra óptica atuais.
A este respeito, lamenta que não tivesse existido perspicácia suficiente dos governantes portugueses para se instalar uma estação de satélites no Vale dos Flamengos: “com essa estação e o cabo coaxial na cidade da Horta teríamos feito o mesmo que fizeram os espanhóis nas Canárias, tornando aquele arquipélago num centro importante de comunicações. Mas o nosso Governo foi muito lento”, refere. “Na altura fui a Lisboa voluntariamente, uma vez que fui de férias, para encontrar-me com umas que tinha conhecido através da minha vida profissional para entusiasmá-las, mas foi muito difícil encontrar quem se interessasse pelo coaxial, que como sabemos, mais tarde foi substituído pelos atuais cabos de fibra óptica”, acrescenta.

 

Horta, um importante centro de comunicações

De acordo com José Duarte da Silveira, “o nosso Faial foi, durante estes anos, um centro de comunicações importante durante as guerras e a paz. Foi ótimo para operar os equipamentos do mais avançado que o mundo tinha naquela altura e foi um importante trampolim naquele tempo para as telecomunicações que temos hoje”, entende.
Nessa altura, considera o técnico, o Faial vivia um período áureo quer ao nível económico, quer social, resultado da presença das companhias estrangeiras dos cabos submarinos. Como exemplo o ex cabo telegrafista divulga que “nas décadas de 1920 e 1930 a Horta era uma cidade alegre, viçosa, em que entre as quatro e as seis da tarde, o Largo do Infante tinha um movimento de 400 pessoas”. “Aí se concentravam funcionários das companhias; os que terminavam e os que iniciavam os turnos da tarde. De verão as senhoras vinham tomar aquele último café com os maridos. Conseguir arranjar uma cadeirinha no Café Internacional era uma coisa complicada”, refere. “O Café Internacional foi naquele tempo o local mais bem informado do mundo, onde as notícias de última hora chegavam com a descida dos empregados que constantemente baixavam a tomar café nos momentos de descanso”, acrescenta.
A pequena economia da ilha agradecia a forte circulação de dinheiro, fruto dos ordenados chorudos dos estrangeiros do Cabo Submarino, e os produtores locais prosperavam.
Mas não foi só ao nível económico que a presença das empresas estrangeiras dos cabos submarinos deixou marcas na ilha; também ao nível social, desportivo e cultural as transformações eram bem visíveis. Duarte da Silveira lembra que muitos dos funcionários das companhias estrangeiras casaram por cá, deixando na ilha temas interessantes das suas culturas. “Os alemães, quando reabriram a empresa em 1919, depois da Primeira Guerra Mundial, mandaram quase todos solteiros e muitos casaram cá”, nota.
Culturalmente, havia orquestras, grupos de teatro e cinema, para deliciar estrangeiros e locais. José Duarte da Silveira recorda especialmente o trabalho do Maestro Symaria, do qual ainda bebem as filarmónicas atuais.
A pujança económica foi, para o antigo cabografista, um bom catalizador da vida social e cultural: “não é coincidência que, em 1934, se constrói o emblemático edifício da Sociedade Amor da Pátria, aquela beleza, segundo dizem sem um centavo do governo, só com o apoio dos sócios”, recorda.
José Duarte da Silveira desempenhava funções na Commercial Cable Company, e recorda as portas que esta vida lhe abriu: “como estávamos bem preparados, muitos de nós após o encerramento fomos para Estações de Comunicações na Inglaterra, Lisboa e Sesimbra, São Miguel, Madeira, EUA, Canadá, Caraíbas e América Latina onde de uma maneira geral viemos a assumir cargos gerenciais de relevo”. Ao nosso entrevistado, coube em sortes deixar o Faial para as Caraíbas. “Éramos 42, os funcionários da companhia que foram colocados na modernização das operações nessas paragens: inglesas, escocesas, irlandesas, canadianos, franceses e italianos e português dos quais 14 eram faialenses”.

 

Urge perpetuar a importância dos cabos submarinos na Horta

Em 2009, precisamente 40 anos depois de ter fechado a última companhia na ilha do Faial, um grupo de Antigos Cabografistas, alguns em visita de saudade e outros cidadãos locais, resolveram juntar-se e criar um movimento destinado a recuperar a memória desse tempo.
Nessa altura, encontraram e inventariaram no armazém do Museu da Horta vários equipamentos do tempo pioneiro da telegrafia submarina que tinham sido milagrosamente resgatados pelo Padre Júlio da Rosa. Foi a partir daí que com a dedicada colaboração do Museu da Horta, surgiu a ideia de criarem no Faial um museu dos Cabos Submarinos para enaltecer a Horta daquele tempo. Várias iniciativas têm sido realizadas nesse sentido, no entanto e apesar do esforço “permanente e incondicional” da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta – AAALH, o processo não tem avançado tanto quanto o grupo desejaria.
“Tivemos aqui uma sorte muito interessante. O único equipamento que cá ficou foi o da companhia Inglesa, da Eastern Telegraph. Ora, há um britânico casado com uma faialense que tem um apartamento na cidade da Horta, que gosta de passar férias aqui, muito estimado por todos, e, enquanto a grande maioria dos faialenses foram procurar trabalho noutros mundos, ele, John Ross, continua como técnico, engenheiro chefe e depois diretor, regressa ao instituto da companhia inglesa em Porthcurno como professor, mantendo-se sempre perto desses equipamentos e muito importante com o interesse e dedicação em restaura-los”, conta, elogiando a forma como o britânico conseguiu restaurar um equipamento da antiga companhia, ao ponto de colocá-lo a funcionar e meritoriamente ganhar o primeiro prémio na recente exposição da UIT – União Internacional das Telecomunicações em Lisboa.
Estão, portanto, reunidas todas as condições para instalar um museu. José Duarte da Silveira lembra que a Trinity House, onde funcionava a companhia inglesa, é o local por excelência para recebê-lo, no entanto já lá vão muitos anos desde que a promessa foi feita pelo Executivo Regional, sem que se instale apesar de em certa altura a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores ter aprovado uma quantia, mesmo módica para o museu, que o Executivo açoriano nunca usou.
Em 2017, veio a promessa do diretor regional da Cultura de que o Museu iria concretizar-se, através do Programa Cultural Regional 2020, ocupando não apenas o espaço da companhia inglesa na Trinity House, mas todos os ex espaços operacionais contíguos das outras companhias. Para José Duarte da Silveira, teria sido preferível avançar de forma mais modesta, com uma instalação gradual e colocando ênfase no trabalho já desenvolvido no âmbito da companhia inglesa.
O antigo cabotelegrafista recorda que a diáspora se ofereceu para “estabelecer contactos com outros museus semelhantes, que se disponibilizaram para assinar protocolos com a Direção Regional da Cultura”. No entanto, a Região não tem mostrado interesse nesse sentido, o que, para os antigos cabografistas emigrados, “tem sido muito difícil compreender”, porque além do mais, tem-se perdido oportunidade de se unirem ao Movimento Museológico Cabografista Atlântico e as suas intenções de alcançarem patamar de património da UNESCO.
José Duarte da Silveira garante que o projeto idealizado pelos antigos cabografistas, coordenado e impulsado com imenso trabalho e rigo pela Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta - AAALH, é interessante e interativo, potencial para uma excelente atração turística, permitindo aos visitantes conhecer a história das comunicações desde os fracos sinais telegráficos de 1893 à internet de hoje e o enorme impacto que teve na sociedade faialense, mostrando simultaneamente a Horta desse tempo, juntando-se aos primórdios da aviação transatlântica, culminando com a operação da PanAm e os logros desportivos que durante esses anos eram motivo de orgulho faialense, não só no futebol, mas também no ténis, hóquei, basquetebol, atividades navais…
Como forma de combater a inação da Região, os antigos cabografistas e principalmente a AAALH não baixam os braços e têm desenvolvido muitas atividades desde 2009, “excelentes colóquios”, com o objetivo de destacar a importância que a Horta teve no tempo dos cabos submarinos.
Ainda assim, não é suficiente: “penso que a apatia social e política do Faial tem sido tal que nunca pudemos transmitir a importância disto à maioria da sociedade, filhos e netos dos funcionários dessas companhias”, em que alguns dos quais assumiram cargos de relevo dignos de recordar, sustenta.
Mas a apatia da Região em relação aos projetos relacionados com o Cabo Submarino não se limita ao Museu. Até o Memorial projetado e desenhado pelo Grupo dos Amigos da Horta dos Cabos Submarinos, para a foz da Ribeira da Conceição, na Alagoa, local de entrada do primeiro cabo em 1893, teima em não sair do papel. Este Memorial tem a particularidade de expor em simples, mas elegantes placas e bandeiras de todos os países que participaram no projeto cabotelegráfico do Faial, começando por mencionar Portugal como investidor do primeiro cabo, Reino Unido, Estados Unidos da América, Alemanha, França e Itália, que sem dúvida seria um excelente atrativo turístico para quem nos visita, aí mesmo ao lado do novo Terminal Marítimo.
“O Memorial é uma coisa relativamente barata e inclusivamente oferecemo-nos para contribuir, mas o Governo não quis”, lamenta José Duarte da Silveira, reconhecendo que as mudanças nos elencos governativos na Região também têm contribuído para os atrasos.
“O certo é que os cabografistas faialenses conhecedores de impressionantes museus de comunicações noutros países estão convencidos que a Horta com a sua história cabográfica seria sem dúvida mais valorizada com o seu Museu e o Memorial. Deixar apagar essa memória é lamentável. Gostaria de animar os faialenses a pensarem melhor no seu futuro dando mais força e engenho ao seu presente”, concluiu.

 

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‘Trinity House’, onde atualmente funciona a creche "O Castelinho" albergou as três primeiras companhias cabo-telegráficas que se estabeleceram na ilha do Faial

 

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Edíficio onde estavam instaladas várias empresas dos cabos

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Largo do Infante na época dos Cabos Submarinos

 

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Alguns ex cabotelegrafistas em 2009 quando foram descobertos os equipamento no Museu da Horta

 

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