
Ser mulher nos dias que correm é um desafio a todos os níveis. Acumular as funções de mãe, esposa, dona de casa, profissional, entre muitas outras é uma tarefa hercúlea e nada fácil.
Longe vão os tempos em que as mulheres não trabalhavam e as suas funções se limitavam às lides domésticas. Com o passar do tempo e com o fim da descriminação que se fazia sentir sobre as mulheres, hoje em dia estas têm os mesmos direitos dos homens, e assumem as mesmas funções.
Quando se fala em negócios facilmente aparece a imagem de um homem de negócios, mas cada vez mais existem mulheres de negócios; mulheres empreendedoras.
Hoje em dia, e nomeadamente em Portugal, há mulheres com provas dadas, e que mostram claramente que não são só os homens que possuem um espírito empreendedor e têm sucesso no negócio.
O primeiro exemplo é Cláudia Goya, directora de negócio da Microsoft Portugal. Cláudia Goya é licenciada em Engenharia Física, e é um exemplo no mundo dos negócios geridos por mulheres. Tendo trabalhado na Oniway e na Galp Energia, Cláudia ocupa agora um importante cargo à frente dos destinos da Microsoft Portugal.
Mas, e ser mulher no meio de homens? Será que é fácil? É simples conviver, profissionalmente, num mundo de homens? A estas e muitas outras questões foi o Tribuna das Ilhas obter resposta.
Conversámos com uma dirigente desportiva, com uma pescadora e com uma instrutora de condução. Profissões nada habituais entre as mulheres mas que são uma realidade bem patente na nossa sociedade.
Beatriz Madruga Esta mulher abraço o trabalho da pesca com agrado e sem se sentir discrimininada
Beatriz Madruga trabalha como pescadora. Revela-nos que esta sua faceta surgiu por acaso: “quando casei com o Genuíno já sabia que ele era pescador e como a minha profissão não existia aqui no Faial, e como não consigo ser só "do lar", resolvemos que eu iria trabalhar no barco, no Guernica”.
Beatriz disse-nos também que para ser considerada pescadora precisa de obter a cédula marítima pelo que neste momento faz parte da companha em terra.
Das suas funções faz parte a descarga do peixe, a burocracia na lota, e também a organização das contas e papelada para o contabilista. “Ajudo a fazer as compras para irem para o mar, gelo, papéis relacionados com o abastecer, com o gasóleo, enfim, uma série de actividades ligadas ao barco, mas em terra.”
O sector da pesca continua a ser visto como um sector maioritariamente destinado aos homens. Beatriz Madruga considera todavia que “a pesca pouco a pouco vai ganhando espaço feminino, como em outras profissões, e não é só de agora, há anos que a mulher se vem afirmando como pescadora e mestre.”
“Os homens também estão mudando as suas mentalidades aos poucos, e já se percebe grande diferença quando uma mulher está mesmo no mar, a trabalhar de igual para igual” – acrescenta.
Esta mulher do mar diz que nunca se sentiu menosprezada pelos colegas do sexo masculino. “Também jamais deixaria que me desprezassem, pois o meu trabalho é extremamente gratificante, para não dizer agradável, e realiza-me imenso. Senti, entretanto, este tipo de "tentativa" por parte de outras mulheres, principalmente quando, terminada a descarga e o nosso barco tem que sair em seguida para o mar, tenho de fazer o mercado e muita gente olha com algum desdém e até com espanto, pois a roupa não está assim tão limpa ou arranjada”, conta a este semanário.
Beatriz Madruga tem um currículo académico muito vasto: “Adoro estudar, sempre gostei, tenho a sorte de ter ao meu lado um grande homem, meu maior incentivador, mas não é fácil conciliar os estudos com as tarefas domésticas e o trabalho. O que faço é mais ou menos um planeamento de como vai correr o mês, em relação aos estudos, e vou adaptando-o à realidade do meu trabalho no barco. Quem me dera que todas semanas pudéssemos descarregar peixe em lota... Seria um sonho... Agora no Inverno diminui as idas ao mar, mas tenho sempre em mente que primeiro vem o trabalho e depois os estudos, mas consigo, como outras mulheres também conseguem, conciliar”.
No meio de Homens Para Rute Cabral ser dirigente desportiva implica muitas vezes ser a única mulher no meio de muitos homens
Rute Cabral é, neste momento, presidente do CIAIA – Clube Independente de Atletismo Ilha Azul. Começou por ser juiz da modalidade, pertenceu ao Conselho de Arbitragem da Associação de Desportos e agora é presidente do CIAIA.
O CIAIA tem sede na cidade da Horta e diversos atletas (juniores/seniores) em S. Miguel, Terceira, Pico e Lisboa. Aluns são atletas que por motivos pessoais/profissionais tem de se deslocar para fora da ilha, e manifestam a vontade de continuar com a prática do atletismo e ligados ao Clube.
“Coordenamos esses atletas com pessoal técnico que faz de elo de ligação entre os atletas e o Clube. Existe sempre um contacto quase diário com os atletas e respectivos técnicos, num espírito de equipa e companheirismo, que permite alcançar os brilhantes resultados obtidos pelo Clube, como sendo a excelente participação do CIAIA nos Apuramentos de Pista Coberta e Campeonatos de Portugal de Pista Coberta” – afirma Rute Cabral ao Tribuna.
Rute diz que, apesar de estar rodeada de homens, sempre se sentiu mulher e acrescenta “embora o Desporto seja considerado dos homens, já começam a aparecer cada vez mais mulheres a assumir cargos directivos e dirigentes. As mulheres são mais persistentes e daí, na minha opinião desempenham tão bem ou ainda melhor que os homens os cargos a elas distribuídos.”
A presidente do CIAIA conta-nos ainda que iniciou o seu percurso desportivo com 10 anos, e cedo se apaixonou pelo atletismo. Ingressou pela arbitragem e pelo treino de jovens. Nos últimos 8 anos fez parte do elenco directivo do CIAIA, tendo sido sempre secretária, cargo que também ocupou em dois clubes de futebol: o Futebol Clube Urzelinense, de São Jorge, e o Futebol Clube dos Flamengos.
“Dentro dos elencos desportivos, nunca me senti menosprezada pelos homens, mas pela sociedade de uma forma em geral já. Ainda há quem pense que o Desporto é dos homens. Felizmente cada vez há mais mulheres a interessarem-se pelo desporto e a assumirem cargos” – afirma.

Carla Pereira A instrutora de condução rejeita categoricamente a máxima “Mulheres ao volante, perigo constante”
Carla Pereira é instrutora de condução, profissão partilhada também pela sua colega Telma Silva. À nossa reportagem disse que “tudo começou, para dizer a verdade, muito cedo”. “Acho que desde muito pequena tinha uma queda para estas coisas… Lembro-me de, com 9 ou 10 anos, ensinar a minha irmã a andar de bicicleta. Mais tarde, já depois de tirar a carta de condução, lembro-me de lhe dar umas aulas de condução num parque de estacionamento perto de casa, até ao dia em que batemos com o carro do meu pai numa parede…Mesmo depois do acidente continuei a pensar que talvez tivesse algum jeito para isso e procurei informar-me sobre o assunto. Daí até à consumação do acto foi um instante: em 1996 surgiu a possibilidade de frequentar o curso de formação e em 1997 estava formada e a dar aulas. É uma profissão cansativa, sobretudo a vertente prática, mas muito gratificante. Posso dizer com toda a certeza que gosto do que faço”.
Carla Pereira diz ainda que “ser mulher numa profissão maioritariamente de homens não me tem custado muito e apesar de sermos apenas duas nunca senti por parte dos meus colegas homens qualquer tipo de discriminação, pelo contrário.”
A instrutora de condução diz também que nunca sentiu qualquer diferenciação por parte dos alunos. Segundo diz, já teve situações menos agradáveis com alunos, mas nada de grave e nada relacionado com questões do género.
É uma acérrima defensora das mulheres ao volante “na minha opinião as mulheres são tão boas condutoras como os homens. Acho ainda que de uma forma geral, as mulheres respeitam mais o código da estrada e por serem mais medrosas são muito mais cuidadosas”.
História
O dia 8 de Março é, desde 1975, comemorado pelas Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher. Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias, que recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas.
Em 1903, profissionais liberais norte-americanas criaram a Women's Trade Union League. Esta associação tinha como principal objectivo ajudar todas as trabalhadoras a exigirem melhores condições de trabalho.
Em 1908, mais de 14 mil mulheres marcharam nas ruas de Nova Iorque: reivindicaram o mesmo que as operárias no ano de 1857, bem como o direito de voto. Caminhavam com o slogan "Pão e Rosas", em que o pão simbolizava a estabilidade económica e as rosas uma melhor qualidade de vida.
Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher".
Comemorações no Faial
Hoje, no Centro do Mar, às 14 horas é aberta ao público a exposição de fotografias, artes e artefactos das Mulheres da Pesca.
Às 17 horas, realiza-se o fórum: “O Género e a Profissão” que contará, também, com a participação e o testemunho de mulheres de diferentes sectores económicos. Nesse mesmo dia, no Teatro Faialense, às 21:30 horas, será ainda exibido o filme Precious.
Amanhã, sábado pelas 19h00, no Centro do Mar (Fábrica da Baleia), é apresentado o documentário “Com-passos de Mudança”.
Estas iniciativas contam com o apoio da União de Mulheres Alternativa e Resposta – UMAR-Açores, da Coope-rativa Cultural - as Descalças, Associa-ção Cultural – Corredor, Ilhas em Rede, Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da ilha Terceira e da Câmara Municipal da Horta.