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09
dezembro

Paulo Azevedo “Não sou exemplo para ninguém”

Escrito por  Texto: Maria José Silva/Fotos: DR
Publicado em Reportagem
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Paulo Azevedo nasceu no dia 29 de Outubro de 1981. Sem aviso, e após uma gravidez de oito meses, a ainda adolescente Clara via-se com um filho diferente nos braços. O bebé não tinha mãos nem pernas e os médicos não auguraram nada de bom. O choque foi tremendo. Mas a fé, a coragem e a determinação foram maiores.

Com a família, que o protegeu mas nunca o escondeu, o Paulo aprendeu a aceitar-se e a lutar para ser uma pessoa autónoma e independente.

Sem mãos e sem pernas, o Paulo tem hoje uma vida normal. 

Já fez uma telenovela, um filme, vários desfiles de moda, um sem número de palestras e lançou também um livro, “Uma vida normal”, escrito na primeira pessoa por Sofia Arêde.

Paulo Azevedo mostra ao mundo que ser diferente não é nenhum estigma, nem sinónimo de discriminação. Quando se acredita e se quer, todos podem ser iguais - temos é de lutar por isso.

E foi o que Paulo fez, assumindo a sua diferença mas nunca a usando para daí retirar qualquer benefício ou pena.

Em 2008, entrei na primeira novela: Podia Acabar o Mundo, na SIC. Antes disso, fez teatro, estudou jornalismo em Coimbra, foi treinador de futebol e fez tudo aquilo que qualquer pessoa também faz.

“Aprendi a fazer das fraquezas forças e festejei todas as vitórias de uma forma muito especial. Porque na vida só quando se passa por grandes dificuldades se sente o verdadeiro sabor de conseguir, de vencer. Nunca escolhi o caminho mais fácil. Seria simples conformar-me com as verdadeiras limitações e não lutar pelos meus sonhos. Assim não sofria. Mais tarde pensei: vou lutar sempre, posso não vencer todas as batalhas, mas sei que dou sempre o meu melhor” – afirmou ao Tribuna das Ilhas este jovem cujo sorriso é, sem dúvida, a sua imagem de marca.

Sempre bem disposto, Paulo Azevedo esteve à conversa com este semanário na passada semana, horas antes de participar na Gala da APADIF e revelou estar prestes a sair de Portugal para fazer umas das coisas que mais gosta: treinar futebol num clube internacional.

Paulo Azevedo conta que desde sempre se apercebeu que era difererente, mas isso nunca me limitou: “a minha infância foi perfeitamente normal, tive sempre muito apoio da família, dos amigos e sempre fui um garoto feliz, como nasci assim aprendi a fazer tudo normalmente, mas a minha maneira. Desde pequenino que tive que superar as dificuldades que surgiam. A minha adolescência foi bastante atribulada, sempre fui um rebelde, mas foi normal, tive os meus amores, as minhas desilusões” – diz Paulo Azevedo à nossa reportagem acrescentando também que “o principal é gostar de mim como sou, e isso é algo que todas as pessoas, com ou sem deficiência devem ter em mente.”

Paulo tem prótese nos membros inferiores mas sempre rejeitou próteses nos membros superiores, e explica “consigo fazer tudo sem próteses nos braços, desde comer, conduzir, escrever, usar telemóvel, tudo… a usar próteses nos braços só por uma questão estética, e isso a mim não me diz nada”.

“Uma vez perguntaram-me como é que me sonhava? Se em alguns sonhos eu tinha mãos e se as próteses se transformavam em pernas… não precisei pensar muito… sonho-me como sou. Nunca me vi de outra forma e por isso talvez nem tenha sequer imaginação para construir outra imagem de mim. Gosto de mim como sou” – afirma.

Sobre o seu livro, Paulo conta-nos que pretende ser, acima de tudo, uma fonte de inspiração e uma mensagem positiva e de apoio para todos.

“Encaro o meu livro como um quebrar de barreiras…as barreiras arquitectónicas são facilmente superáveis, nem que seja com ajuda, falo em tentar quebrar a barreira do preconceito. Luto contra o preconceito mas nunca fui vitima de preconceito porque nunca deixei” – diz sem reservas Paulo Azevedo que acrescenta “a sociedade por vezes pode ser muito cruel, no meu caso o sentimento passou de pena, de coitadinho, para admiração, a exposição na TV fez com que a sociedade portuguesa se abrisse  em relação às pessoas com deficiência, eu mostrei que os ditos diferentes são tão capazes como qualquer um outro.”

Instado a pronunciar-se sobre a situação da pessoa portadora de deficiência no mercado de trabalho, Paulo Azevedo diz que “todos devemos ter direitos de igualdade, nós portadores de deficiências somos tão ou mais capazes que qualquer um. Se alguém me disser que não posso porque não tenho talento ou competência, “arrumo as botas no saco” e sigo com minha vida, mas ser recriminado por ter deficiência, isso não.”

Paulo Azevedo não se considera um exemplo, “não sou exemplo para ninguém. Faço a minha vida de forma completamente normal. Sou rebelde à minha maneira, atrevido e reguila. Faço tudo o que um jovem de 30 anos faz, desde as coisas boas às coisas más.”

No final da conversa com Tribuna das Ilhas, Paulo deixou uma mensagem para os portadores de deficiência… “se sonham, se desejam, se tem objetivos lutem, nunca baixem os braços, cada vez que falhamos tornamo-nos mais fortes. Lembro-me da primeira vez em que estive em cima das minhas próteses. Senti pânico, tinha sempre medo de cair, agarrava-me a tudo ou então ficava sem me mexer, paralisado pelo medo. Fui caminhando aos poucos, cada passo era uma vitória… nunca desisti”. 

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