No passado dia 22 de Dezembro passaram exactamente 25 anos do dia em que 10 faialenses se juntaram para pôr no ar a rádio do Faial. As bodas são de prata, e de prata são também os cabelos que já se vão juntando na cabeça dos homens que, ao longo destes anos, têm trabalhado para que as ondas da rádio cheguem diariamente a casa dos faialenses. Muitos desses cabelos prateados serão, certamente, causa das muitas dificuldades e preocupações associadas à manutenção de um órgão de comunicação social privado num meio pequeno como o Faial. É preciso amor à camisola e uma certa dose de estoicismo e abnegação, própria dos homens que não hesitam em fazer muito por algo em que acreditam, recebendo tão pouco em troca.
Tribuna das Ilhas esteve no estúdio da Antena 9, à conversa com José Lemos, um dos homens que, há 25 anos, pôs de pé a Rádio do Faial e hoje é seu presidente. A génese da Antena 9, os momentos marcantes, as dificuldades e o futuro foram alguns dos temas abordados.
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Na hora de receber o Tribuna das Ilhas na casa da rádio, João Ávila faz as honras. Com um ouvido sempre atento à emissão da tarde, mostra-nos o espaço que é lar da rádio do Faial há 25 anos. São precisas obras, lembra, e o estúdio é apertado, mas lá tudo se faz. O ranger das escadas velhinhas debaixo dos pés leva-nos à sala de onde os senhores da rádio dão música e informação aos faialenses todos os dias. João Ávila mostra com orgulho o espaço onde se gravam os spots publicitários: um quartinho pequenino, onde salta à vista um aviso que alguém colou na parede: em letras grandes numa folha branca lê-se “no stress”. João confidencia que o conselho é, fazendo jus à língua em que está escrito, para inglês ver, porque na rádio os momentos de stress marcam sempre presença.
Já passaram 25 anos, mas José Lemos lembra-se bem das motivações que estiveram na origem da criação da Antena 9, em 1986: “a vontade de criar uma rádio no Faial surgiu na onda da altura, que era a das rádios pirata, por todo o país”, explica o actual presidente da Antena 9. Do tempo das rádios pirata, Lemos recorda a Canal, transmitida “da garagem do Fernando Goulart”, e que “toda a gente sintonizada na cidade da Horta”.
A ideia de criar uma rádio local na Horta partiu de Paulo Soares, que pensou criar uma cooperativa para colocar de pé o projecto. Na altura, eram necessários 10 elementos para tal. Foi assim que a Soares se juntaram seis jovens repórteres do Correio Desportivo, secção do jornal Correio da Horta, entre os quais José Lemos. “O Paulo Soares pensou que aquele era um grupo de gente que se dava bem e que estava por dentro da realidade da Comunicação Social na ilha”, recorda Lemos. A estes juntaram-se Luís Mesquita, Luís Salvador e Manuel Botequilha, que se tornou no primeiro presidente da Direcção da Antena 9.
Os rapazes da rádio arregaçaram mangas, foram à banca e começaram a investir nos equipamentos. As primeiras emissões, ainda pirata, foram feitas do sótão da casa da rua de São João, que ainda hoje serve de lar à Antena 9. Lemos recorda o primeiro emissor que, com 20 watts, “chegava à Horta, à Madalena e pouco mais”.
A Rádio do Faial
A rádio é ouvida em todo o grupo central e, com o aumento da torre e da potência dos emissores, chega mesmo às Flores e a São Miguel. Além disso, através da Internet a Antena 9 chega a todo o mundo. No entanto, quanto aos objectivos que põem a rádio no ar todos os dias, José Lemos não hesita em afirmar que a prioridade “é a cobertura total do concelho da Horta”.
A cobertura total da ilha foi conseguida com a instalação de três microcoberturas (na Horta, no Alto dos Espalhafatos e no Cabeço Verde) que se juntam ao emissor principal, no Cabeço Gordo.
No emissor principal a Antena 9 conta com infra-estruturas de grande qualidade. A recente intervenção naquele local dotou-o de espaço para a instalação de um gerador, prometido pelo Governo Regional desde 1998, por altura do sismo, mas que nunca chegou. O gerador é importante pois, sem ele, quando falha a luz a rádio fica “sem pio”. Felizmente, as falhas de luz são hoje menos frequentes do que há anos atrás.
A melhoria das condições de cobertura tem sido, de resto, a aposta principal da rádio: “sempre considerámos que a cobertura da rádio era mais importante que as condições que dávamos aos colaboradores. Primeiro os ouvintes, depois o pessoal da casa”, explica José Lemos.
O presidente da Antena 9 lembra também que o edifício que serve de casa à rádio não é sua propriedade, daí que as direcções tenham optado por não fazer obras. Como explica Lemos, existe uma permuta entre a autarquia e a rádio, em que a primeira cede o edifício à segunda, a troco de contrapartidas na área da publicidade. “Este protocolo está a ser revisto e espero que dentro de pouco tempo possa melhorar a relação entre a Antena 9 e a Câmara Municipal da Horta. Precisamos de um protocolo que se estenda no tempo e nos dê algumas garantias”, explica. José Lemos reconhece, no entanto, que os colaboradores da Antena 9 “merecem melhores condições de trabalho”, por isso espera que a possibilidade de obras na sede esteja para breve.
Ao longo da história da rádio foram realizados alguns trabalhos de medição de audiências. Todos eles mostraram uma tendência muito grande para uma forte audiência da Antena 9. No último trabalho, por ocasião das últimas autárquicas, em 2009, à pergunta “qual a rádio que ouve mais?”, 52 por cento dos inquiridos respondeu Antena 9. “Isto mostra a forte implantação que a Antena 9 tem no seu meio”, salienta José Lemos, para quem este fenómeno não é apenas responsabilidade da equipa da rádio do Faial, mas, principalmente, um reflexo da importância que as populações dão às rádios locais.
25 anos de serviço público
A única rádio do Faial esforça-se desde a sua génese por prestar um serviço público à ilha, publicamente reconhecido, que há 30 anos, quando ao Faial chegava apenas a RDP e, ocasionalmente, o Rádio Clube de Angra, não existia. “Isso foi visto no sismo de 1998, é visto quando toca a sirene dos bombeiros, quando transmitimos em directo a Assembleia Municipal, quando se perde alguém, quando é necessário um apelo urgente à população… Fazemos isto com muito gosto e é uma das nossas razões de existir”, garante José Lemos.
A história da rádio do Faial interliga-se com a história recente da ilha. Nessa lógica, o sismo de 9 de Julho de 1998 foi uma das provas de fogo para a Antena 9. Nesse dia, o Faial acordou sobressaltado de madrugada no meio do caos e arádio acordou muda. “O Cabeço Gordo ficou sem luz e nós, que já lá estávamos, ficámos sem pio. Passaram 12 horas até conseguirmos pôr a nossa mecânica em pé”, recorda José Lemos.
Assim que a Antena 9 voltou ao ar, iniciou uma cobertura intensa, ao lado da protecção civil e da população. Num estúdio velhinho, que as réplicas abanavam por vezes durante a emissão, em directo, a regra era trabalhar aos pares, como lembra Lemos.
“A nossa preocupação foi colocarmo-nos logo ao lado da protecção civil – tínhamos sempre uma equipa nos Bombeiros – para darmos todas as informações que iam chegando, principalmente os comunicados. Muitas pessoas estavam a dormir na rua, nos jardins, nos carros ou em tendas e, quando o comunicado que saia ao início da noite se atrasava um pouco, vinha sempre alguém ao nosso encontro, para saber o que se passava. As pessoas estavam presas à rádio”, recorda.
O imediatismo associado à rádio fazem dela o média que mais depressa consegue ligar o acontecimento aos ouvintes. Apesar da televisão ser a rainha mediática dos nossos tempos, a rádio continua a ter essa vantagem, muito importante quando se fala de serviço público. “A rádio, ao nível das audiências, não tem comparação com a televisão, que continua a ser a caixinha de todos os encantos. Mas a rádio continua a ter muita importância, nos directos e na facilidade que tem em estar em todos os pontos”, entende José Lemos.
Leia a reportagem completa na edição impressa do Tribuna das Ilhas de 06.01.2012 ou subscreva a assinatura digital do seu semanário