“Uma arca do tesouro”, é como Joana Gaspar Freitas se refere ao espólio de Manuel de Arriaga, faialense que fica na história do país como o primeiro presidente eleito da República Portuguesa. Depois de várias obras de cariz mais académico sobre Arriaga, a investigadora dedicou-se a uma incursão sobre essa “arca do tesouro”, reunindo fotografias, cartas, documentos, jornais e imagens de objectos pessoais do ilustre faialense para compilar a obra Fotobiografia de Manuel de Arriaga. Com a chancela da Câmara Municipal da Horta, a obra foi lançada na passada terça-feira, véspera da comemoração do 101.º aniversário da implantação da República em Portugal.

A Fotobiografia de Manuel de Arriaga reúne inúmeras imagens, que apresentam o primeiro presidente da República tanto na sua faceta mais pública como no seu lado mais íntimo. Dividida em três partes, a obra foca a juventude de Arriaga, destacando a Horta, sua terra natal, e os seus dias de Coimbra, a sua actividade no Partido Republicano e, finalmente, os dias da presidência da República. A estas juntam-se dois anexos: no primeiro, Arriaga surge visto pelos olhos dos seus contemporâneos, enquanto que o segundo se trata de uma cronologia que pretende contextualizar toda a obra.
Fotografias, papéis, cartas, jornais e imagens de alguns objectos que faziam o dia-a-dia do faialense que ficou na história preenchem as páginas desta obra, que, de acordo com a autora, pretende precisamente privilegiar a imagem sobre o texto. Em declarações à comunicação social, Joana Gaspar Freitas explica que “esta fotobiografia teve a preocupação de ser direccionada para o público em geral”. “A imagem, que é muito utilizada, serve para aproximar o leitor do biografado. Os textos são bastante simples e servem sobretudo para enquadrar e contextualizar as imagens”, revela.
Deveras familiarizada com a vida e a obra de Manuel de Arriaga, a quem dedicou já grande parte do seu trabalho de investigação, Joana Gaspar Freitas quis, nesta obra, dar a conhecer o homem sob outra perspectiva, através do seu espólio, ao qual se referiu como “uma verdadeira arca do tesouro”. “Este espólio é interessante não só para qualquer investigador mas também para qualquer pessoa, pois todos nós temos aquela curiosidade pelas fotografias, pelas cartas, pelos documentos antigos. Todos temos esse fascínio, e esta fotobiografia vai mostrar toda essa riqueza, que esteve guardada durante tanto tempo”, entende.
Na apresentação da obra, a investigadora agradeceu aos descentes de Manuel de Arriaga pela colaboração prestada ao longo dos anos, na pessoa da sua neta, Tereza Arriaga, que marcou presença nesta sessão solene. Joana Gaspar Freitas salientou também o esforço desenvolvido no Faial para que Arriaga não fique no esquecimento, e não escondeu a emoção e a admiração ao referir-se ao primeiro presidente eleito da República Portuguesa, com um homem “com virtudes éticas e morais difíceis de encontrar”.
Para a Câmara Municipal da Horta, o lançamento desta fotobiografia representa o encerramento de vários momentos que marcaram a comemoração do centenário da República, ao longo do último ano. No concelho que viu nascer Arriaga, esta efeméride fica ainda marcada por uma homenagem póstuma ao primeiro presidente da República, pela comemoração do 170.º aniversário do seu nascimento e pela inauguração do Centro Associativo com o seu nome.
Durante o lançamento da fotobiografia, o presidente da autarquia, João Castro, congratulou-se com mais este momento de homenagem ao ilustre faialense, reiterou o orgulho da terra neste seu filho e aproveitou a ocasião para fazer referência às pessoas e instituições que, no Faial, se têm batido para resgatar do esquecimento a memória de Manuel de Arriaga.
Recorde-se que, na Horta, aguarda-se a inauguração da recuperação da casa onde nasceu o primeiro presidente da República Portuguesa, agora transformada em museu. Depois da anterior directora regional da Cultura ter garantido que a obra estaria concluída a tempo de comemorar a primeiro centenário da República, foram surgindo adiamentos, de tal modo que, actualmente, mais de um ano depois de assinalados os cem anos do regime republicano em Portugal, os faialenses ainda aguardam a sua inauguração. Já em Julho de 2010, o actual director regional, Jorge Bruno, apontou o final de 2011 como a altura prevista para a abertura ao público deste espaço.
A transformação da casa onde nasceu Arriaga num museu dedicado à República será, desta forma, mais uma forma de manter viva a memória do homem que nunca perdeu a fidelidade aos seus ideais e princípios, e que ocupou pela primeira vez o mais alto cargo da República, numa altura em que não existiam assessores, nem viaturas oficiais; numa época em que o presidente de todos os portugueses se deslocava no seu próprio carro, e vivia num anexo ao Palácio de Belém, do qual pagava renda.