A sala do restaurante Barão Palace encheu-se de gente e fez-se silêncio porque ali se cantou o fado. Toda a magia do Fado marcou a passagem da primeira década do Grupo Ecos de Fado, que se comemorou com o VI Encontro de Fadistas que este ano reuniu um elenco de luxo com grandes vozes do fado açoriano.
O fado surgiu na segunda metade do século XIX, em Lisboa, embalado nas correntes do romantismo. Uma melodia que exprimia a tristeza e a desilusão unânime de um povo para com o ambiente instável em que vivia. A palavra fado vem do latim “fatum”, que significa destino. É geralmente cantado por uma só pessoa, o fadista, e acompanhado por guitarra clássica e guitarra portuguesa. O fado foi elevado à categoria de Património Oral e Imaterial da Humanidade pela UNESCO, numa declaração aprovada no VI Comité Intergovernamental desta organização, realizado em Bali, na Indonésia, entre 22 e 29 de Novembro de 2011.
No Faial, há cerca de uma década, um grupo de amigos resolveu unir-se para dar uma expressão mais forte a este estilo musical. Tendo como objectivo fomentar e dinamizar o fado nas ilhas do Triângulo e não só, resolveram formar um grupo. Surge então, no ano de 2002, o grupo Ecos do Fado, composto por quatro guitarristas: Isaac Silveira, José Alvernaz, António Pimentel e Ilídio Amaral.
A 20 de Janeiro começaram os ensaios e no dia 25 de Abril fizeram a sua primeira aparição pública. Desde aí nunca pararam.
Na passagem do seu décimo aniversário, Tribuna das Ilhas esteve à conversa com um dos “esqueletos do grupo”, como assim se considera Isaac Silveira.
Inicialmente o grupo era composto apenas por guitarristas, que convidavam fadistas para os acompanhar. No entanto, ao longo desde dez anos foi sofrendo ajustamentos, como explicou à nossa reportagem o porta-voz do Ecos do Fado: “ao fim de algum tempo mudámos um bocadinho a forma de actuar, ou seja, constituímo-nos enquanto grupo de guitarras livre que está disponível para acompanhar qualquer fadista. Não há um compromisso directo entre o grupo de guitarras e os fadistas”, esclarece.
Também a constituição do grupo foi-se alterando ao longo destes 10 anos: “existem duas pessoas que fundaram este grupo e que ainda hoje se mantêm, eu e o José Alvernaz. Os restantes elementos que faziam parte do projecto inicial, por razões diversas, foram-se afastando, havendo por isso necessidade os substituir”, explica Isaac. Neste momento, o grupo é constituído por José Alvernaz e José Gaspar na guitarra portuguesa, por Isaac Silveira na viola e por José Raposo na viola baixo.
No que diz respeito a espectáculos, o Ecos do Fado já actuou por diversas vezes nas Flores, no Pico e em São Jorge. Também já tocou em Santa Maria, mas é, de facto, na sua ilha mãe onde mais actua. Além disso, as actuações fora do Faial são mais complicadas devido à logística necessária: “são coisas que carecem de algum dinheiro, o que em tempos de crise não é fácil. De qualquer forma nós, como somos optimistas, estamos esperançados de que os tempos melhorem. Estamos sempre receptivos e disponíveis”, explica Isaac que, a título particular, tem o orgulho de já ter tocado em Itália.
“Andamos nisto é porque gostamos. Muitas das vezes tocamos de graça, para ajudar instituições, sejam elas religiosas ou sociais. Uma boa parte dos espectáculos que fazemos é feita graciosamente. Como não cobramos dinheiro também não temos para investir”, acrescenta.
A falta de dinheiro tem sido, precisamente, dos motivos pelo qual o grupo não tem ainda gravado nenhum trabalho discográfico: “os únicos trabalhos gravados que o Ecos do Fado tem são aqueles que são feitos aquando dos diversos encontros que temos vindo a promover”, refere o porta-voz, esclarecendo que “são trabalhos para consumo internos, digamos assim. No dia do espectáculo fazemos a gravação a partir da mesa de som, que é distribuída pelos elementos. Alguns deles até têm sido oferecidos a órgãos de comunicação social, nomeadamente à RDP/Açores e à Antena 9, e às pessoas que colaboram connosco para que fiquem com uma recordação”, afirma.
Um dos projecto que o Ecos do Fado tem na passagem desta década da sua existência é registar oficialmente o grupo, até como forma de garantir que a sua existência não se perde. Trata-se de uma vontade antiga, que esperam agora concretizar: “vamos tentar por todos os meios que daqui até ao próximo ano consigamos angariar fundos para fazer estatutos e registar o Grupo Ecos do Fado na Conservatória para que, se amanhã qualquer um de nós faltar, o grupo fique para a posteridade e quem vier possa dar-lhe continuidade”, explica Isaac.
Leia esta reportagem completa na Edição impressa do Tribuna das Ilhas de 11 de Maio de 2012